DOSSIER: Imperialismo

image_pdfimage_print

Imperialismos, guerras e internacionalismo

por Alda Sousa

 

O texto de Husson, que de seguida apresentamos, ajuda-nos a perceber como não há uma justaposição clara entre o papel dos países na cadeia do capitalismo global e na cena imperialista mundial. A nova configuração dos imperialismos é complexa, mas o certo é que globalização neoliberal aumentou a corrida aos armamentos (convencionais, nucleares ou de novo tipo – drones, por exemplo), o mundo está cada vez mais perigoso, o nível de conflitos aumentou exponencialmente e vivemos há décadas numa espécie de guerra permanente1 e de instabilidade geopolítica.

 

O 11 de Setembro de 2001 e a retirada das tropas americanas do Afeganistão em 2021 não são acontecimentos desconexos. Ilustram uma estratégia em que estão presentes todos os ingredientes e contradições das novas configurações imperialistas, tendo por centro a ideia de guerra infinita e permanente. Nestes 20 anos de “guerra contra o terrorismo”, assistimos ao crescimento da barbárie, da islamofobia, do racismo. Como explica Gilbert Achcar, o choque de civilizações tornou-se um choque entre barbáries2, construindo uma nova desordem mundial.

 

Nestes 20 anosassistimos ao ataque às Torres gémeas, invasão do Afeganistão que se lhe seguiu, invasão do Iraqueque destruiu país inteiro com o pretexto da existência de armas de destruição maciça, que nunca foram encontradas, e de “levar a democracia”, como se uma invasão e uma ocupação pudessem emancipar o povo iraquiano da ditadura de Saddam Hussein. E muitos mais conflitos.

 

A lógica dnós, o Ocidente civilizado contra eles, o édio riente bárbaro e retrógrado, tem dado origem, na Europa e nos EUA, a umaderiva securitária com reflexos preocupantes ao nível das restrições às liberdades individuais e coletivas e a institucionalização de uma islamofobia crescente (os muçulmanos tomados como bárbaros por essência e potencialmente terroristas, a par de outras formas de racismo, machismo e homofobia. Os governos europeus e norte-americano têm instigado uma lógica d medo e a Comissão Europeia até criou um pelouro para a defesa do modo de vida europeu. Essa lógica está bem patente na recusa em receber pessoas refugiadas (da guerra, da fome, da pobreza, do clima) ou em recebê-lastriando pela cor de pele

 

Os EUA continuam indiscutivelmente a ser a maior potência imperialista: mais forte, mais agressiv e com o maior arsenal bélico, não só em quantidade e sofisticação mas em expansão geográfica (cerca de 800 bases militares em cerca de 90 países). Mas não é únic. Há outros protagonistas já consolidados (China) ou emergentes (Rússia).

 

Os conflitos entre os EUA e a China têm sobretudo assumido a forma de guerra comercial, embora também disputem posições geoestratégicas. A China também possui um arsenal nuclear significativo (se bem que inferior ao dos EUA) e Trump não se coibiu de lhe fazer ameaças nucleares. A Rússianão tem os meios económicos da China mas tem o segundo maior arsenal nuclear do mundo. Apesar de ser um interlocutor global, tem tido sobretudo um papel geopolítico de incidência mais regionalex Síria).

 

Há ainda outros subimperialismos mais regionais, como os de Israel ou a Turquia.

 

A derrota militar e política dos EUA no Afeganistão significa um abalo no centro do império, mas não põe para já em causa a sua hegemonia. Criticar os EUAnão significa, todavia,apoiar o tenebroso regime dos talibãs, porque o inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo.Ao mesmo tempo, não serão as sanções, nem muito menos outra intervenção militar (direta ou sob a cobertura de intervenção humanitária) que poderão vir a mudar a situação atual do povo afegão.

 

Internacionalismo

 

A solidariedade com as vítimas tem sempre de ser o centro das nossas preocupações e sobretudo da nossa ação. Em relação ao Afeganistão, cabe-nos lutar pelo acolhimento de pessoas refugiad e por escutar empenhadamente as propostas do ativismo afegão. Isso significa reconhecer as vítimas como sujeitos políticos e não como recetáculos de políticas decididas sem elas. O apelo da RAWA RevolutionaryAssociationoftheWomenofAfghanistantem uma importância fundamental nesta aprendizagem da solidariedade internacionalista.

 

O internacionalismo de que precisamos é aqueleque vem ensaiandoa greve feminista internacional, os movimentos antiguerra, de precários e pela justiça climática. Um internacionalismo global, solidário com as vítimas, capaz de amplificar a voz de todas as pessoas oprimidas e de construir com elas um mundo diferente.

 


 

Do imperialismo ao imperialismo

por Michel Husson

 

Será que a globalização põe em causa as abordagens clássicas ao imperialismo? Esta é a questão que orienta este artigo, que se divide em duas partes. A primeira apresenta uma breve revisão dessas teorias e a segunda procura apontar as características da globalização que tornam necessária uma atualização teórica e conceptual. Trata-se de reflexões provisórias que visam sobretudo delinear os eixos de uma tal atualização.

 

As teorias clássicas do imperialismo

 

O termo imperialismos não aparece em Marx, mas sim no livro de Hobson de 19023, sendo mais tarde retomado pelos marxistas do início do século XX. conceito não designa, de forma direta, uma teoria de exploração dos países do Terceiro Mundo refere-se antes a uma análise das contradições dos países capitalistas e a uma teoria da economia mundial cujos elementos constitutivos podem já ser encontrados em Marx.

 

Desde o Manifesto do Partido Comunista que Marx sublinha que através da exploração do mercado mundial, a burguesia confere um caráter cosmopolita à produção e ao consumo e em O Capital afirma muito claramente que A base do modo de produção capitalista é constituíd pelo próprio mercado mundial4. Nas análises dO Capital, a função do comércio internacional reside principalmente na contratendência que confere à baixa da taxa de lucro: «O capital investido no comércio externo é capaz de produzir uma taxa de lucro mais elevada porque, em primeiro lugar, compete com países cujas estruturas de produção de mercadorias são mais baixas5. E Marx sublinha a existência da transferência de valor: O país favorecido recebe de volta mais trabalho do que deu em troca, embora esta diferença, este excedente, tal como na troca entre capital e trabalho, seja acumulado por uma determinada classe6

 

Para Lenine, Bukarine e Rosa Luxemburgo não se trata, à partida, de analisar o que atualmente chamamos de relações Norte-Sul: a questão teórica que é discutida refere-se às condições internas do funcionamento do capitalismo. Após a grande depressão (1873-1895), o capitalismo retoma um crescimento ainda mais dinâmico, ao mesmo tempo que passa por transformações substanciais. Toda uma série de teóricos, incluindo Bernstein e aqueles que Lenine designa de marxistas legais, propõem uma interpretação dos esquemas de reprodução que preconiza a possibilidade de um desenvolvimento indefinido do capitalismo exclusivamente baseado no mercado interno. Portanto, a questão que é colocada é a de melhor compreender o modo de funcionamento do capitalismo numa fase particular da sua história. É relativamente a este problema que o conceito de imperialismo será introduzido e que os países coloniais e semicoloniais vão desempenhar um papel específico na análise teórica.

 

Aos prognósticos otimistas de um Bernstein sobre a dinâmica do capitalismo, Rosa Luxemburgo opõe uma leitura diferente dos esquemas de reprodução. (…) Para Rosa Luxemburgo, a reprodução do capital necessitacomo condição primeira de um círculo de compradores que se situam fora da sociedade capitalista7. Como vimos, esta ideia está já presente em Marx, que assinala no Manifesto queimpelida pela necessidade cada vez maior de escoamento dos seus produtos, a burguesia invade toda a superfície do globo. Esta conceção, que implica que a realização da maisvalia exige permanentemente a abertura dos mercados externos, reflete bem o período de expansão imperialista, no qual os países dependentes desempenharam um papel cada vez mais importante do ponto de vista dos mercados que ofereciam. Mas a sua base teórica não podia ser sistematizada: que, em determinadas condições históricas particulares, a expansão imperialista seja um elemento importante, até decisivo, da acumulação do capital é uma coisa mas fazer desta constatação uma lei absoluta, como fez Rosa Luxemburgo, para quem a maisvalia não pode ser realizada nem por assalariados nem por capitalistas, mas apenas por camadas sociais ou sociedades com um modo de produção pré-capitalista, é um passo que não poderia ser dado.

 

«Se definíssemos o imperialismo tão sucintamente quanto possível, teríamos de dizer que se trata da fase monopolista do capitalismo»8. É assim claro que Lenine toma como ponto de partida o modo de funcionamento dos países capitalistas mais desenvolvidos. O seu objetivo é duplo: por um lado, dar conta das transformações que ocorreram neste funcionamento e, por outro, explicar como as rivalidades inter-imperialistas conduziram à Guerra Mundial.

 

O imperialismo, fase superior do capitalismo9, escrito em 1916, vais buscar a Hobson e Hilferding as análises clássicas do capitalismo financeiro, mas expande a definição a estas cinco características fundamentais: 1) a concentração da produção e do capital atinge graus de desenvolvimento tão elevados que origina monopólios, cujo papel é decisivo na vida económica; 2) a fusão do capital bancário e do capital industrial e a criação, baseada neste “capital financeiro”, de uma oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, contrariamente à exportação de mercadorias, assume assim uma importância especial; 4) a formação de uniões de capitalistas monopolistas internacionais que partilham, entre si, o mundo; 5) o fim da divisão territorial do globo entre as grande potências capitalistas mundiais10

 

Bukarine11 propõe uma apresentação mais sistemática da economia mundial, insistindo na contradição entre internacionalização das forças produtivas e apropriação da maisvalia que continua a ocorrer à escala nacional. O autor critica o ultraimperialismo de Kautsky, segundo o qual a concentração do capital poderia conduzir a um funcionamento harmonioso da economia global. No entanto, esta teorização baseia-se, em última análise, num modelo adequado ao períodoem questão, mas atualmente ultrapassado: cada capitalismo nacional resolveria as suas dificuldades atravs da formação de uma espcie de capitalismo de Estado e as contradições do capitalismo seriam transferidas para o nível mundial, manifestando-se apenas sob a forma de rivalidades inter-imperialistas

 

Por seu lado, Trotsky delineou uma teoria do desenvolvimento desigual e combinado», que afirma que se o capitalismo tende a estender-se por todo o mundo, não o faz de forma linear e harmoniosa. Esta abordagem permite evitar duas simplificações abusivas. A primeira seria considerar o capitalismo, apesar da violência dos seus métodos, um agente do progresso histórico com um balanço globalmente positivo. Mas formulação desta teoria distingue-se igualmente de uma tese que poderia ser classificada de terceiromundista, segundo a qual o capitalismo seria radicalmente incapaz de sustentar qualquer desenvolvimento nos países dominados.

 

Estas aquisições gradualmenteacumuladas pelos marxistas clássicos serão delapidadas pela contrarevolução estalinista. Por razões de conveniência política da burocracia soviética, a teoria marxista será reduzida a uma visão esquemática que procura afirmar o papel progressista das burguesias nacionais face a um imperialismo interessado apenas em mantr as estruturais locais descritas como feudais, de modo a justificar a política da III Internacional.

 

As teorias da dependência

 

Por uma questão de simplicidade, este termo pode ser usado para referir os muitos contributos que surgiram aps a II Guerra Mundial e que retomaram as teorias clássicas do imperialismo. A novidade consistiu em raciocinar a partir do ponto de vista dos países dominados e insistir nas deformações resultantes do desenvolvimento capitalista mundial. Apesar do florescimento de abordagens diversificadas, pode no entanto considerar-se que existe um núcleo comum resumido nesta definição de dependência de Dos Santos: Por dependência entendemos uma situação em que a economia de um determinado país é condicionada pelo desenvolvimento e expansão de uma outra economia, à qual está subordinada. A relação de interdependência entre duas ou mais economias, entre estas e o comércio mundial, assumindo a forma de dependência quando alguns países (dominantes) experimentam expansão e autosuficiência, enquanto outros (dependentes) apenas podem esperar consegui-lo como sobreproduto de tal expansão (…). Vemos como estas relações postas em prática pelo mercado são desiguais e combinadas12

 

O eco das formulações de Trotsky é mais que uma mera coincidência e marca o regresso às teorizações da economia mundial tomada na sua globalidade. Mas este retorno é dirigido ao terceiro-mundismo, tendendo a sobrevalorizar alguns aspetos da estrutura da economia-mundo.

 

As teses de André Gunder Frank13 são um bom exemplo desta tendência de levar ao limite. O ponto de partida é a constatação, correta, da polarização da economia mundial: o desenvolvimento do capitalismo não é homogéneo, existindo o que Frank e Samir Amin14 designam de Centro e Periferia. O desejo de se afastar do esquema estalinista empurrou Frank até ao limite da sua lógica alternativa, no que à América Latina diz respeito. Uma vez que se tratava de recusar teses dualistas simplistas que opunham um setor feudal e um setor capitalista, Frank insiste numa predominância do capitalismo, afirmando que a América Latina é capitalista desde o início da conquista.

 

Esta tendência de saltar de um extremo a outro encontra-se, de forma ainda mais marcada, na abordagem que foi dominante durante os anos 1960 (…): o capitalismo pilhou o Terceiro Mundo15, repatria a integralidade do lucro e é, portanto, incapaz de assegurar o desenvolvimento industrial dos países dominados. Não há, assim, qualquer diferença natural entre revolução anti-imperialista e revolução socialista. Que esta conclusão seja coerente com a teoria da revolução permanente é uma evidência. O que é menos convincente, retrospetivamente, é o caráter unilateral da análise económica, baseada em particular na noção de troca desigual.

 

A figura do saque tornou-se generalizada e encontrou o seu modelo teórico no livro de Arghiri Emmanuel16, que tem o mérito da simplicidade: os países da periferia caracterizam-se por salários e níveis de produtividade inferiores. No entanto, existe um mercado mundial no qual um preço único é formado pela igualização das taxas de lucro. Esta uniformidade de preços, relativamente às diferenças de produtividade, conduz a transferências de valor, ou seja, à exploração da periferia pelo centro. O erro de fundo deste modelo consiste em confundir países e capital e conduz, inevitavelmente, a uma visão paradoxal de uma solidariedade de interesses entre a classe trabalhadora e a burguesia dos países imperialistas, que coexplorariam assalariados dos países dependentes. Não é surpreendente que, à época, se falasse de nações proletárias mas tal conduz a um paradoxo espantoso, uma vez que o radicalismo da teoria da troca desigual acaba por desembocar na ideia de nacionalismo anti-imperialista.

 

(…) A principal crítica que se pode fazer às versões radicalizadas das teorias de dependênciaé que elas têm dificultado a compreensão dos processos de industrialização que se desenvolviam precisamente nos anos 1960. Em vários países capitalistas dependentes (Mxico, Argentina ou Brasil na Amrica Latina, Coreia ou Índia na Ásia, Arglia ou Costa do Marfim em África), os processos de industrialização ocorreram aps a II Guerra Mundial até ao início da dcada de 1970. As taxas mdias de crescimento alcançadas nos países do Sul foram equivalentes, ou mesmo superiores, às dos países imperialistas durante este período.

 

As versões mais extremas e/ou populares das teorias de dependência não permitem uma compreensão adequada da realidade do desenvolvimento (…). Esta visão demasiado unilateral reflete um papel excessivo atribuído à esfera da circulação e populariza a imagem de países cuja riqueza era continuamente injetada do exterior, com uma tendência simtrica para exagerar a importância desta transferência para os países imperialistas.

 

A grande viragem do mundo

 

A globalização conduziu a um verdadeiro ponto de viragem na economia mundial, através de um efeito boomerang. Tal pode ser medido de muitas maneiras, mas o critério mais significativo sem dúvida o grau de industrialização Entre 2000 e 2013, a produção industrial mundial (excluindo a energia) cresceu 37%, mas quase todo este crescimento foi alcançado pelos países ditos emergentes, onde a produção mais do que duplicou (+112%), estagnando nos paísesavançados (+1,5%). Metade da produção mundial de manufatura é agora produzida por países emergentes. Esta observação, que mina as teses sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento e sobre a impossibilidade de processos de industrialização no Sul, tem um corolário importante: a globalizaçãoestá a conduzir à formação de uma classe trabalhadora global, que se desenvolve essencialmente nos países emergentes17

 

O fenmeno assumiu toda a sua amplitude no início do sulo XXI e conduziu à categoria imprecisa de países emergentes. Numa definição ampla, refere-se a todos os países avançados(…). Esta divisão oculta o facto de que existem países que não são nem avançados nem emergentes; no entanto, é suficientecomo medida desta grande mudana.

 

A questão que então se põe é saber em que medida o aumento de poder dos países emergentes põe em causa as abordagens clássicas ou de dependência do imperialismo. Não devemos ter medo de ser iconoclastas (pelo menos inicialmente) e de sublinhar o que pode ser inédito nesta nova configuração

 

Uma nova configuração da economia mundial

 

Para os clássicos, os países dependentes eram recetáculos do capital exportado pelos países imperialistas. Vimos que Lenine fez da exportação de capital um dos critrios para definir o imperialismo. Mas basta recordar que os Estados Unidos são hoje um importador líquido de capital para mostrar que as coisas mudaram. Pierre Dock18 resume a configuração atual da seguinte forma:«O capital já não se move sobretudo de Norte para Sul, nem simplesmente de Sul para Norte, como se diz frequentemente, move-se de países emergentes recentes para países maduros e para países ainda em desenvolvimento (um fluxo muito mais modesto). Docks fala mesmo de um imperialismo ao contrário ou de emergência», que se exerce, por um lado, para os antigos países desenvolvidos atravs da exportação de produtos industriais e capitais e, por outro lado, para países em desenvolvimento (África, Ásia subdesenvolvida) atravs do controlo dos recursos de matrias-primas, produtos energticos e até terra.

 

A economia global está hoje estruturada por uma complexa teia de capitais que define o que se chama cadeias de valor global. Este termo refere-se à distribuição de diferentes segmentos daatividade produtiva por vários países, desde a conceçãoaté à produção e entrega ao consumidor final. Ou seja, a passagem de internacionalização para globalização do capital levou à organização da produção em vários países. A imagem da economia mundial deve deixar de ser apenas a de uma faceta assimtrica entre países imperialistas e países dependentes e passar a ser a da integração de segmentos das economias nacionais, sob a gide de empresas multinacionais que tecem uma verdadeira teia que cerca a economia mundial.

 

Um estudo recente19 estabeleceu um mapa preciso das interligações entre as multinacionais: a maioria (80%) do valor criado pelas 43 000 empresas consideradas é controlada por 737 entidades: bancos, companhias de seguros ou grandes grupos industriais. (…)

 

Esta nova configuração reflete-se no impressionante dinamismo do capitalismo nos países emergentes, cujos modos de ação brutais, mesmo esclavagistas, fazem lembrar as formas violentas tomadas pela revolução industrial em Inglaterra no sculo XIX. (…)

 

Esta dinâmica já não é um simples reflexo da situação económica dos países centrais. É claro que no há desconexão, uma vez que os países emergentes dependem das suas exportações para Norte. Mas estão gradualmente a ganhar autonomia com base no comércio Sul-Sul e no crescimento dos seus mercados internos.

 

A primeira implicação deste novo panorama é que a representação da economia mundial como uma simples justaposição de economias nacionais deve ser abandonada e substituída pelo conceito de uma economia mundial integrada. As empresas multinacionais são os agentes desta integração, cuja geografia coincide cada vez menos com a dos Estados. Este crescente entrosamento torna as ferramentas de análise clássicas obsoletas e modifica as representações da economia mundial. (…) Num artigo recente, Robert Reich mostra que a noção de nacionalidade de uma empresa é cada vez mais irrelevante20. Reich salienta que apenas um em cada cinco funcionários da IBM trabalha nos Estados Unidos e que muitas multinacionais norte-americanas estabeleceram relações de coinvestimento com empresas chinesas, concluindo que Vamos parar de nos perguntar se as grandes multinacionais são americanas. É um jogo que não podemos ganhar. Em vez disso, concentremo-nos no que queremos que as multinacionais, independentemente da sua nacionalidade, façam na América e como podemos conseguir que o façam

 

Este intercâmbio globalizado oferece às grandes empresas uma saída, proporcionando-lhes um mercado muito maior do que o mercado interno dos seus pontos de origem (para não falar da evasão fiscal). (…) Ou seja, assistimos a uma dissociação da dinâmica do capital de acordo com o seu grau de ligação ao mercado mundial. Tal significa também que o fraco crescimento do mercado interno de um país é suportável para as empresas desse país, desde que disponham de pontos de venda alternativos no mercado mundial.

 

Estados e capital

 

A partir do momento em que o mapa dos stados e o do capital é cada vez mais desarticulado, as relações entre eles devem ser pensadas de forma diferente. É claro que os laços privilegiados entre uma dada multinacional e o seu Estado de base não desapareceram e o seu Estado procurará defender os interesses das suas indústrias nacionais. O distanciamento advém do facto das grandes empresas terem o mercado global como horizonte e de uma das fontes da sua rentabilidade residir na possibilidade de organizar a produção à escala global a fim de minimizar custos. Não há quaisquer constrangimentos que as forcem a recorrer ao emprego interno e as suas oportunidades de mercado estão largamente desligadas das circunstâncias nacionais. O melhor indicador desta assimetria encontra-se, sem dúvida, nascensão do discurso sobre atratividade: já não se trata de uma questão dos Estados, e isto é verdade em particular na Europa, defenderem os seus “campeões nacionais”, mas de fazerem tudo o que for possível para atrair o investimento estrangeiro para o seu território

 

A globalização conduz, portanto, a um entrelaçamento de relações de poder que se organizam de acordo com o que se poderia chamar dupla regulamentação contraditória. Por um lado, os Estados têm de combinar os interesses divergentes do capital orientado para o mercado mundial – organizando a produção em conformidade – e os do tecido de empresas que produzem para o mercado interno. A distinção entre setores expostos e protegidos é cada vez mais importante na análise dos capitalismos nacionais.Por outro lado, estes mesmos Estados procuram, simultaneamente, garantir uma regulamentação nacional coerente e condições para uma inserção ótima numa economia cada vez mais globalizada.

 

Nestas condições, as relações entre stados capitalistas baseiam-se em dois objetivos contraditórios: cada Estado procura classicamente assegurar a sua posição na escala das hegemonias, mas deve também garantir as condições para o funcionamento do capitalismo globalizado. (…)Portanto, hoje não existe nem ultraimperialismo, nem governo mundial, o que faz do capitalismo contemporâneo um sistema que, pela sua própria natureza, escapa a qualquer verdadeira regulação e que funciona de forma caótica, jogando entre a concorrência exacerbada e a necessidade de reproduzir um quadro operacional comum. Tal não impede, evidentemente, que as práticas tipicamente imperialistas continuem. (…)

 

Este entrelaçamento das relações de poder torna provavelmente impossível raciocinar em termos de sucessão de potências dominantes, como se a hegemonia da China tomasse mecanicamente o lugar da dos Estados Unidos. Sem entrar numa análise geoestratgica que ultrapasse o âmbito deste artigo, poder-se-ia argumentar que estas relações de poder estão hoje estruturadas em dois eixos: um eixo clássico vertical que opõe as grandes potências e um eixo horizontal correspondente à concorrência entre capitais. É por isso que a economia mundial não pode ser analisada como se apenas existisse uma relação hierárquica entre países imperialistas e países dominados. Se levarmos este raciocínio ao limite, poderíamos vir a falar de um imperialismo ao contrário, como faz Pierre Docks, que em todo o caso tem razão, ao insistir na crescente concorrência exercida, não só na conquista de mercados mas tambm no controlo dos recursos.

 

Uma configuração instável

 

Embora tenhamos de ter em conta a grande mudança na economia mundial, temos tambm de tentar detetar os seus limites e contradições, e não nos limitarmos a prolongar as tendências da última dcada. As seguintes reflexões são, portanto, mais hipteses de trabalho do que previsões. Talvez seja útilcomeçar pelas da OCDE21(…) sobre as perspetivas da economia mundial até 2060. A OCDE prevê que o crescimento, mesmo que mais sustentado nos países emergentes do que nos da OCDE, abrandará devido ao esgotamento gradual do processo de recuperação e a uma demografia menos favorável. Classicamente, a OCDE decompõe o crescimento em três elementos: capital, trabalho (mais “capital humano”) e produtividade total dos fatores. Mas aponta para um fenmeno central, que é o acentuado abrandamento da produtividade, assim definida, nos países emergentes: espera-se que caia de mais de 5% na última dcada para 3,2% na prxima (2010-2020) e para 2,1% em 2060. (…)

 

O caso da China leva-nos a alargar esta questão da seguinte forma: o movimento ascendente das cadeias de valor, isto é, a capacidade de produzir bens de alta tecnologia, depende do coinvestimento internacional ou reflete a crescente autonomia do aparelho produtivo chinês? (…) Os líderes chineses estão cientes dos limites do modelo e planearam centrar-se no mercado interno. Mas enfrentam dois grandes obstáculos: por um lado, o aparelho produtivo não éimediatamente adaptávelà procura interna e, acima de tudo, uma tal reorientação exigiria uma grande mudança na distribuição dos rendimentos22

 

Estas questões são ainda mais legítimas no que diz respeito aos outros BRICS. No caso do Brasil, Pierre Salama fala de reprimarização e de desindustrialização23. Em geral, os países emergentes entraram numa fase de instabilidade crnica das suas contas externas. Acima de tudo, a economia mundial não pode ser analisada de acordo com uma divisão aproximada entre países avançados e emergentes, ignorando outras categorias de países, como os países rentistas. Uma parte considerável da população mundial vive nestes países, ou em partes destes países, mantidos fora da dinâmica da globalização capitalista. As linhas divisrias atravessam as formações sociais e contribuem para a desestruturação das sociedades.

 

Hipteses de trabalho à laia de conclusão

 

A teoria do desenvolvimento desigual e combinado ainda é lida, desde que assumamos que já não diz respeito a economias nacionais relativamente homogneas: uma vez mais, o mapa do capital não se sobrepõe ao dos Estados e o capital financeiro internacional adquiriu uma autonomia sem precedentes histricos.

 

A questão terica mais difícil, e que provavelmente não pode ainda ser elucidada, é saber em que medida os chamados países emergentes adquiriram um controlo real dos processos de produção ou até que ponto permanecem como subcontratados e sujeitos à volatilidade do capital internacional. A resposta ésem dúvida diferente dependendo do país e do setor e, deste ponto de vista, a homogeneidade da categoria de países emergentes deve ser questionada. A resposta a esta pergunta acabará por determinar até que ponto as conceções clássicas de imperialismo serão desafiadas.

 

Uma segunda questão diz respeito à durabilidade desta nova configuração da economia mundial. Por um lado, o esgotamento do crescimento no Norte acabará provavelmente por abrandar o crescimento no Sul e, por outro lado, as tensões sociais no Sul pesarão na direção de um crescimento mais autocentrado e, portanto, mais lento.

 

Muitas destas questões serão decididas não a um nível estritamente econmico, mas ao nível social e ecolgico. A atual organização da economia mundial leva a uma permanente fuga para a frente na regressão social. É, aliás, o que está implícito nas previsões da OCDE já citadas, que prevem um aumento universal da desigualdade e cuja mensagem pode ser resumida assim: De acordo com a OCDE, se se pretende maior crescimento, deve aceitar-se maior desigualdade. E viceversa. Mesmo para se atingir uma medíocre taxa de crescimento da economia mundial de 3%, é necessário tornar o trabalho “mais flexível” e a economia ainda mais globalizada24

 

Finalmente, e sobretudo, o desafio das alterações climáticas, que deveria implicar uma cooperação internacional e uma mudança para um modelo de desenvolvimento diferente. Mas estas duas condições estão em contradição com a lógica profunda do capitalismo, que é um sistema baseado na concorrência entre capitais e na procura de lucro.

É portanto necessário revisitar a teoria do imperialismo. Mas isto tambm exige a paciente construção de um novo internacionalismo baseado na comunidade objetiva de interesses dos trabalhadores postos em competição em todo o mundo, para alm das suas diferentes condições de vida. Afinal de contas, é nas lutas que pode surgir uma melhor compreensão deste adversário comum.

 

Anexo | Pequena bibliografia sobre as teorias clássicas

Albert F. Mummery . e John A. Hobson Hobson J. (1889), The Physiology of Industry

John A. Hobson(1902),Imperialism, A Study

Nikolai Bukarine (1916), Imperialism and World Economy

Nikolai Bukarine (1916), ’économie mondiale et limpérialismeexcertos

Nikolai Bukarine (1924), Imperialism and the Accumulation of Capital

Rosa Luxemburgo (1913), L’accumulation du capital

Rosa Luxemburgo(1921),he Accumulation of Capital – An Anti-Critique.

Rudolf Hilferding(1910),Le Capital financier

Vladimir I. Lnine (1916), L’impérialisme stade suprme du capitalisme

*Texto originalmente publicado em NouveauxCahiersduSocialisme, n13, 2015, com o título “Notes surl’impérialismecontemporain”.

 

1 Jorge Costa, Francisco Louçã (2003). A Guerra Infinita. Porto: Afrontamento.

2 Gilbert Achcar (2006). The Clash of Barbarisms. Londres: Saqui Books.

3 Ver bibliografia anexa.

4 Le Capital, Editions Sociales, Livro III, tomo IV, p. 341.

5 Idem, p. 250.

6 Idem, p. 251.

7 L’accumulation du capital (1913), Petite Collection Maspero, Oeuvres IV, p. 25.

8 Lenine, L’impérialisme, stade suprême du capitalisme, Editions de Moscou, p. 113.

9 Na tradução das Edições Avante!

10 Idem, p. 114.

11 O imperialismo e a economia mundial, Editora Melso, s/d, Circa 1960.

12 Theotonio dos Santos, “The structure of dependence”, American Economic Review, maio de 1970.

13 Ver, por exemplo, Capitalisme et sous-développement en Amérique Latine, Maspero, 1968.

14 Samir Amin, L’accumulation à l’échelle mondiale, Anthropos Paris/IFAN Dakar, 1970.

15 Pierre Jalée, Le Pillage du Tiers Monde, Maspero, 1965; Le Tiers Monde dans l’économie mondiale, Maspero, 1968; Tradução em inglês: The Third World in World Economy, Monthly Review Press, 1969.

16 Arghiri Emmanuel, L’échange inégal, Maspero, 1969; Tradução em inglês: Unequal Exchange, Monthly Review Press, 1972.

17 Michel Husson, La formation dune classe ouvrière mondiale, note hussonet n.° 64, 18-12-2013.

18 Pierre Dockès, “Mondialisation et ‘impérialisme à lenvers’”, em Wladimir Andreff (dir.), La mondialisation, stade suprême du capitalisme?, Presses universitaires de Paris Ouest, 2013.

19 Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battiston, The Network of Global Corporate Control”, PLoS ONE 6(10), 2011.

20 Robert Reich, The Increasing Irrelevance of Corporate Nationality”, 28-07-2014.

21 OCDE, “Policy challenges for the next 50 years”, julho de 2014.

22 Ver Chiara Piovani, “Class Power and China’s Productivity Miracle”, Review of Radical Political Economics, 2014, Vol. 46(3), 2014.

23 Pierre Salama, Les économies émergentes latino-américaines, Armand Colin, 2012.

24 Paul Mason, The best of capitalism is over for rich countries – and for the poor ones it will be over by 2060, The Guardian, 07-07-2014.