“E se as mulheres parassem de trabalhar?” Anticapitalismo e interseccionalidade na luta feminista

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Sofia Lopes e Mariana Esteves


O primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado há 108 anos, e, anualmente, celebramos este dia significativo da longa e emancipatória luta do movimento feminista internacional. O 8 de março é o dia que nos lembra anualmente o potencial revolucionário das mulheres, exército organizado que cresce todos os anos. Este ano, em plena crise pandémica, temos muitas razões para fazer greve e protestar pelos direitos económicos, sociais e políticos de todas. Vimos de longe, mas a luta não está feita: as mulheres continuam a ser vítimas de violência, a ganhar menos salário e a ter a carga do trabalho doméstico.

Neste contexto, é importante analisar a extensão do impacto do capitalismo e das suas consequências especificamente na vida das mulheres, em áreas como a reprodução social, as cadeias globais de cuidados e a sexualidade. Partindo da divisão entre produção versus reprodução, e assumindo uma análise interseccional, há que destacar a maneira como as mulheres sofrem com a opressão capitalista tanto numa perspetiva profissional quanto pessoal. O trabalho reprodutivo, aliado às cadeias de cuidado transnacionais, não são apenas dois fenómenos profundamente aliados a desigualdades de género, mas também estão intimamente ligados às divisões económicas e sociais que historicamente surgiram com o capitalismo: a divisão do trabalho que coloca os homens na esfera pública a fazer trabalho remunerado, colocando as mulheres responsáveis por trabalho não remunerado na esfera privada. A mulher realiza, assim, um trabalho essencial para o bom funcionamento capitalista: cuida dos trabalhadores atuais e cria a próxima geração deles.

Em Portugal, o trabalho é uma das esferas da vida onde a desigualdade de género é mais evidente. O Inquérito às Condições de Vida e do Rendimento (ICOR), disponibilizado pelo INE, mostra que, em 2019, a intensidade laboral era mais reduzida entre as mulheres. As razões que as levam a trabalhar menos? Entre as que trabalham menos de 30 horas semanais, 11.5% refere dever-se aos encargos de trabalhos domésticos e a cuidar das crianças (face a apenas 0.6% dos homens) e apenas 1.3% afirma estar a estudar ou a receber formação (face a 16% dos homens). Na esfera familiar, as medidas de distanciamento social, como trabalhar em casa e fechar escolas, representam um fardo adicional enorme, em especial para as mulheres. Um estudo representativo que entrevistou 800 mulheres italianas antes e depois do início da pandemia, concluiu exatamente isso: a carga de trabalho das mulheres, decorrente da ocupação e do trabalho doméstico, aumentou; enquanto que os homens têm maior probabilidade de passar mais tempo com os filhos, mas não aumentam o tempo dedicado a tarefas domésticas.1(nota de rodapé)

Esta divisão constitutiva do capitalismo, produção versus reprodução, é completamente renegada e desvalorizada, empurrando quem faz a reprodução social a um lugar de subordinação e dominação, seja aos donos do capital ou a algum indivíduo privilegiado que se pode dar ao luxo de dar essa responsabilidade a outros. Normalmente, aqueles “outros” que realizam esse trabalho são mulheres pobres em grande parte racializadas. É aqui que uma crítica severa ao feminismo liberal deve ser feita, porque podemos ver os diferentes eixos de desigualdade (ou eixos de dominação) encontrarem-se, forçando-nos a ver que a libertação das mulheres deve considerar as lutas de classes e as lutas étnico raciais. As mulheres migrantes são o caso mais óbvio e mais violento: elas não são apenas vítimas da globalização como também do patriarcado e da ordem institucionalizada capitalista; não são apenas trabalhadoras assalariadas, mas também desempenham tarefas de reprodução social para mais de uma família.

As mulheres são também as mais afetadas pela pobreza. Em Portugal, em média, 17.9% das mulheres vivia abaixo do limiar da pobreza em 2019 (versus 16.5% dos homens). Se atendermos ao nível de escolaridade, as mulheres sem ensino superior têm maior risco de pobreza do que os homens com o mesmo nível de escolaridade. Os dados anteriores reportam a um período pré-pandemia. A crise pandémica afetou de forma diferente os diversos setores da economia, sendo que os mais afetados contam maioritariamente com mulheres na sua força de trabalho. Com efeito, a Restauração, Moda e Acessórios e Alojamento Turístico foram aqueles em que as compras mais reduziram e nestes as mulheres representam 58%, 83.5% e 57.4% dos trabalhadores (1), respetivamente.

Até hoje, por mais que as mulheres tenham lutado e ganho um monte de lutas diferentes, o capitalismo e o patriarcado ainda estão muito presentes nas nossas casas, nos nossos empregos e nas nossas camas. Nos dias 6 e 13 de março de 2021, a Rede Anticapitalista organiza um curso de Economia Política onde analisamos todas estas desigualdades sempre numa perspetiva anticapitalista e interseccional, como a luta feminista deve ser. 

E se as mulheres parassem de trabalhar?” – o mundo pararia também

(1) Quadros de Pessoal 2018 e SIBS Analytics (dados do volume de transações efetuadas com meios de pagamento eletrónico disponibilizados)