Economia e ativismo – Notas sobre o movimento

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Artigo de Vicente Ferreira.

A crise financeira de 2007, e o fracasso generalizado dos economistas, expôs novamente as fragilidades do pensamento dominante. Foi neste contexto que surgiram vários movimentos de estudantes contestando o monolitismo da universidade.

Na introdução aos seus Princípios do Curso de Economia, dirigindo-se a professores académicos, Paul Samuelson afirmava: «Pouco me importa quem escreve as leis de uma nação, ou quem delineia os seus tratados, desde que eu possa escrever os seus manuais de Economia». A honestidade do argumento espanta, mas a lógica é acertada – redijam-se leis, desenhem-se medidas, procurem-se estratégias, mas sempre tendo por base o bom pensamento económico. E quem melhor do que Samuelson, que recebeu o equivalente ao Nobel da Economia em 1970, para fazer a síntese das boas práticas? Na verdade, aquilo que se verifica difere pouco deste cenário. O pensamento económico dominante (neoclássico), de Samuelson, assume um papel hegemónico no ensino da Economia. Sabemos, pelo menos desde os Cadernos da Prisão, de Gramsci, que a hegemonia de um conjunto de ideias permite a produção e reprodução do consenso com o paradigma instituído. O ensino é, sem dúvida, um dos mecanismos mais eficazes de reprodução de consenso.

Em tempo de crise, porém, a perceção altera-se. A crise financeira de 2007, e o fracasso generalizado dos economistas, expôs novamente as fragilidades do pensamento dominante. Foi neste contexto que surgiram vários movimentos de estudantes contestando o monolitismo da universidade. Em Portugal, existem já duas experiências: o Coletivo Economia Sem Muros, fundado por estudantes da Universidade Nova de Lisboa em 2012, marcou o início do ativismo estudantil neste âmbito; quatro anos mais tarde, surgiu o Colectivo Economia Plural, no ISEG. Os objetivos dos e das estudantes são claros – uma reforma dos programas de licenciatura em Economia, que reflita a diversidade de abordagens e de métodos de análise que caracterizam a disciplina. A reforma dos currículos terá de incluir a recuperação de cadeiras que promovam o pensamento crítico entre estudantes (História do Pensamento Económico, Ética, Economia Política). Ao enviesamento ideológico dos atuais currículos de Economia (com orientação clara para a defesa da “virtude” do funcionamento livre dos mercados e da iniciativa privada, por oposição à influência “negativa” da intervenção democrática no mercado ao nível, por exemplo, do estabelecimento de proteções laborais) só se responde reivindicando a universidade como espaço de cultura crítica e debate informado, onde se discutam as diferentes teorias. Como sempre foi. A reforma do ensino não é, nem podia ser, fácil. A maioria das instituições académicas adota uma postura resiliente, em parte devido à sua dependência de processos de acreditação internacional que asseguram fontes de financiamento. O papel

dos e das estudantes é, por isso, fundamental: como sempre, o combate começa pela base. A organização espontânea de estudantes tão diferentes em torno de um objetivo comum tem sido uma experiência inspiradora nestas faculdades, conseguida sobretudo devido à promoção de debates sobre temas e autores excluídos do currículo. Existem, contudo, pelo menos três problemas com que o movimento se depara no imediato: (1) a dificuldade de reunir novos estudantes que à partida não tenham sido expostos a diferentes perspetivas, (2) a dificuldade de contacto dos coletivos com os órgãos de gestão das faculdades e (3) a necessidade de expansão do movimento para outras cidades do país. Não havendo respostas fechadas, o futuro do movimento dependerá da sua capacidade de juntar estudantes e professores disponíveis e de defender as reivindicações fundamentadas junto das instituições de ensino. A mobilização de estudantes só é consequente se conseguir desafiar de forma estruturada os órgãos de poder. Uns dirão que o tempo de transição já escapou e que resta esperar pelo próximo. Outros argumentarão que a transição que a disciplina ainda vive é o momento certo para a disputa da hegemonia neoclássica no ensino. O movimento estudantil pode ser, como no passado, decisivo para resolver a bifurcação – «que atrás dos tempos vêm tempos, e outros tempos hão de vir…», como canta Fausto Bordalo Dias.