EDITORIAL 46: A esquerda abrirá um novo ciclo político

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Editorial de Francisco Louçã


Durante quatro anos, o PS foi forçado a aceitar um acordo político que definia o campo de ação do governo e o obrigava a cumprir metas concretas no salário mínimo, nas pensões e em políticas sociais, ao mesmo tempo que o impedia de proceder a privatizações, por exemplo. A partir de 2019, recusando esse acordo, o primeiro-ministro garantiu que formaria maioria com o aperto de mão do PCP, que bastava a palavra de cavalheiros com um partido tão “responsável” que aceitasse manter fechada a porta a medidas estruturais na saúde ou no emprego. Durante algum tempo, pareceu que esse acordo se manteria, o líder parlamentar do PCP assegurava que era “irresponsável”, a palavra mágica, discutir a lei laboral ao mesmo tempo que o Orçamento. Depois, esse entendimento colapsou, o PCP compreendeu que não podia submeter-se a uma lógica de partido subordinado ao PS, que continuava a recusar a contrapartida de medidas justas para o trabalho e para o bem público na saúde. O que acabou por morrer, desta forma, foi a política hegemonista do governo, que procurava arrastar a esquerda para a desistência das suas propostas fundamentais para o dia de hoje, particularmente na gestão das prioridades públicas.

Face a este impasse, o PS respondeu provocando eleições e exigindo uma maioria absoluta. É bom não esquecer que todas as sondagens indicam que metade do eleitorado não compreendeu esta farsa e preferia um novo orçamento que criasse bases para um entendimento com a esquerda. Mas não há que ter ilusões, a manobra polarizou muito do eleitorado tradicional do PS e criou barreiras novas diálogos com a esquerda e, por isso, fez renascer a hipótese do Bloco Central, o que a vitória de Rui Rio no PSD veio reforçar. No entanto, essa é uma forma de política sem credibilidade quando confrontada com as questões mais imediatas: o PS quer maioria absoluta para recusar a proposta de carreiras do SNS, recusando a proposta de António Arnaut? Quer mesmo maioria absoluta para manter o período experimental em seis meses, definindo os trabalhadores à procura do primeiro emprego como quem já pode estar à beira de quatro anos de trabalhos sucessivos? Quer o poder absoluto para manter as leis laborais da troika?

O que neste contexto fica evidente é que não se volta ao tempo passado, não há caminho para trás. Não tem sentido e não vale a pena a saudade desse passado com que o governo rompeu tão brutalmente. A geringonça não volta a ser o que foi e já tinha terminado em 2019. É por isso que o que Bloco disputa é a força necessária para abrir um novo ciclo político. Não para renovar o velho ciclo, mas para criar um novo ciclo. Um novo ciclo deve resolver os problemas estruturais das leis laborais, deve atacar a precarização e uberização do trabalho, deve estabelecer o respeito e a igualdade contra as discriminações, deve reorganizar a saúde pública e proteger a escola, deve lançar o investimento e a reorganização da energia e da produção para cumprir as metas climáticas mínimas necessárias, deve controlar a banca. Saindo o Bloco reforçado destas eleições como a terceira força nacional, nem haverá governo de direita, nem maioria absoluta, mas sim um novo ciclo em disputa. Esse é o centro desta campanha e a razão pela qual vale a pena toda a força que nela empenharemos. A esquerda luta com o povo e pelo povo.