Esta edição inscreve-se num contexto político novo, após forte derrota eleitoral da esquerda e do Bloco.
A emergência da extrema direita a nível internacional, processo sustentado que ocorre há quase uma década a partir dos escombros da crise financeira, da estagnação económica e desigualdades crescentes, de guerras que originaram fluxos migratórios, de um neoliberalismo que tudo mercadoriza, até causas politicas, tem provocado vários debates estratégicos à esquerda. O debate da esquerda alemã sobre imigração é um desses: qual o papel da esquerda quando o racismo e a xenofobia avançam nas classes trabalhadoras e populares? Outro é também sobre culpa e responsabilidade histórica mediante a urgência em suscitar luta social e indignação presente face à máquina política, industrial e militar que ceifa vidas na Palestina.
Além das armadilhas, este número procura pistas para organizar a resposta, também na França Insubmissa, esta com campanhas unitárias, ainda que num contexto diferente do nosso na relação entre as várias forças. A construção da unidade não impede debates conjuntos, se servirem para mais que provar a outras forças a validade das nossas razões superiores. Assim, um artigo a dialogar com outro recente de Alexandra Leitão.
E para resistir e contra-atacar, a resposta política não pode dissociar-se dos desafios de fundo no movimento e na luta social, nem limitar-se a importantes momentos antifascistas reativos à violência política que vai crescer. As novas formas de exploração e de opressão criam novas tensões e desafiam os “velhos” mas também “novos” movimentos sociais. A plataformização, o contingente imigrante de trabalhadores que ainda não se organizam, a transferência e transformação digital do espaço público e mediático, os novos discursos e subjetividades liberais popularizadas de contra poder em forte ascensão em lugares sociais historicamente produtores de opinião e pensamento critico como as universidades, a periferização da exploração e violência nas grandes áreas metropolitanas perante a gentrificação crescente das grandes cidades, trazem debates sobre novos sujeitos políticos e articulação entre as velhas e novas forças de organização.
As novas formas de comunicação mediática conduziram a novas formas politicas no início do século passado, com alguns autores a assinalar, mais ou menos criticamente, a tendência gramsciana de transferir o centro da luta de classes para a superestrutura, com novas propostas organizativas e um novo olhar sobre os desafios da luta política. Nos anos 60 e 70 foram também inúmeras as reflexões do marxismo critico sobre a cultura de massas produzida na TV, jornais e indústrias culturais que adormeciam e paralisavam a classe trabalhadora nos 30 anos dourados do pós-guerra. 100 anos e 50 anos depois, cá estamos, a debater estratégias de compromisso e de rutura nos tradicionais e nos novos espaços comunicacionais, a pensar como nos relacionamos com ambos e como agir perante a redução do nosso alcance. Um espaço mediático tradicional cada vez mais percecionado pelas classes populares enquanto o palco do poder e do qual a extrema direita se vitimiza de ser discriminada pelo “sistema” (imune à critica e com a comunicação negativa a promover mais que qualquer campanha sua). Um novo espaço mediático digital, a hegemonizar e a reconfigurar o espaço publico, absolutamente selvagem, capturado pela grande finança e o seu algoritmo, mas que também tem no cidadão comum o seu produtor de conteúdo viral, reprodutor e multiplicador das ideias dominantes, que não são as da esquerda. Entre a fuga da avestruz, a resistência e a luta por salubridade nos dois terrenos, falta provocar novos lugares de ação coletiva cidadã para agir em ambos.
Don’t panic, organize, aquela imagem dos peixinhos (ir ao Google) não é um slogan desonesto a ser usado para evitar debates sobre os nossos erros. Chegamos aqui porque é da natureza do sistema económico e da política a existência de ciclos e da natureza das alternativas cometer erros. Mas perder a memória histórica doutros períodos difíceis, é perder a paciência, que, como dizia João Semedo, para mudar o mundo é preciso tê-la.