Se na edição anterior vimos que a política voltou, agora percebemos que ela não deixou de estar presente, mesmo que menos visível e em outras latitudes. O contexto mundial geral apresentava-se de facto sob um modelo capitalista pacificado, mas uma análise mais atenta de outros territórios, nomeadamente na América do Sul, não deixa escapar o modelo imperialista e neocolonial sob o qual o mundo e a política capitalista sempre se moveram. Vivemos, no entanto, tempos em que esse modelo está escandalosamente evidente e em que modelos de resistência popular se tornam mais visíveis e, devem, a nosso ver, ser conhecidos e reconhecidos. Sejam os que se movimentam contra o Mercosul, os que se movimentam contra projetos extrativistas em países governados à esquerda e também aqueles e aquelas que lutam contra a extrema-direita no poder na região ou nos Estados Unidos.
Valério Arcary atualiza o imperialismo estadunidense em diferentes contextos políticos e enquadra a relação de forças entre esquerda e extrema-direita na região.
Matthias Schindler relembra-nos a degenerescência da Revolução Sandinista na Nicarágua e como a resposta ao imperialismo não pode ser o campismo. O poder popular garantido pelas revoluções deve continuar a ser democrático e a responder ao povo e não a modelos extrativistas e interesses instalados.
O Luís Leiria fala-nos das contradições do processo recente na Venezuela e do muito que ainda falta ser esclarecido sobre o novo protetorado. O Duarte Santos e a Maria Manuel Rola falam da captura da imagem mas também da fantasia pela cultura digital individualizada, propondo respostas de coletivização através da cultura popular de rua. Já Luiz Ricardo Leitão e Marcelo Braz analisam as origens populares do samba a que sempre se recorre no Brasil e não só no Carnaval como festa e como luta contra a opressão.
A Maria Manuel fala da construção da narrativa do atual governo do México e da luta por uma hegemonia cultural ligada à história popular do país e à construção da visibilidade da cultura popular a partir das suas várias revoluções.
A Joana Mortágua fala do extrativismo no Brasil e das contradições do governo Lula face aos movimentos populares contra a economia fóssil. Por fim, Julian Boal fala da experiência de organização concreta da Escola de Teatro Político no Rio de Janeiro como forma de resistência e construção de um corpo militante e popular para pensar e atuar sobre as opressões.