Editorial: A importância das eleições para anticapitalistas

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Editorial da revista Anticapitalista de outubro de 2020.


Não precisamos de citar Lenine para dizer que os partidos de esquerda precisam de participar em eleições. Para muitos de nós é de senso comum que participar em eleições é importante. Para a maior parte da população, no entanto, é ainda mais claro: a política nas democracias liberais coloca a eleição como o ato ritual do regime e da vida política. Este ritual, além de ser um mecanismo que permite algumas mudanças, tem as suas limitações e por isso também vai esgotando nele esperanças de mudanças estruturais ou, se quiserem, revolucionárias.

Também sabemos que, na nossa perspetiva, a política não só não se esgota no parlamento e nas eleições, como se faz sobretudo além deste ritos e ícones de regime. Faz parte da nossa cultura política a militância nos movimentos sociais enquanto base da ação política para transformar o mundo à nossa volta. Muitos trazem essa cultura desde antes da fundação do Bloco de Esquerda, outros vão abraçando este modo de fazer política e ainda bem. É esta forma de mudar o mundo juntas e juntos que nos dá alegria e a força para propor alternativas para toda a sociedade. É com base no ativismo que construímos propostas de alternativa. É aqui que entram as eleições.

Apesar da contínua presença da esquerda, as eleições e a alternância entre forças de centro e direita constituíram, desde o 25 de Abril, a ideia de que não há escapatória ao bloco central e à direita. A ditadura do voto útil, a ideia de permissividade perante a corrupção dos super-ricos, trouxe a sensação de justiça por fazer e de impotência a tanta gente.

Estruturada a hegemonia do neoliberalismo e do “não há alternativa”, que tanta força teve durante os anos da Troika, muita gente passou a fazer parte do enorme bolo que hoje é a abstenção. Não vale a pena encontrar desculpas em “eleitores fantasmas” ou emigrantes nos cadernos eleitorais. A abstenção é muito grande em Portugal e é maior do que a importância que lhe damos, tantas vezes ancorados à perspectiva da nossa bolha de militância. No entanto, é da mobilização de pessoas desiludidas e sem esperança que se alimentam os novos partidos de direita. Vendem-se como novos, mas na verdade não passam de um rebranding de ideias velhas.

É por isso que a candidatura da nossa camarada Marisa Matias às eleições presidenciais se reveste de especial importância. É o momento de mostrarmos que, para além da alternância ou do regresso ao passado obscuro, existe uma partido-movimento que agrega todas as lutas, todas as causas. Um partido que orgulhosamente construímos e que luta contra todas as opressões e toda a exploração. É o momento de construirmos e crescermos, juntando todos os desiludidos do consenso mole do bloco central à volta de um programa político anticapitalista que seja perceptível por todos e todas, que seja mobilizador, que nos faça crescer.