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Editorial da revista Anticapitalista de Abril 2020.


Uma pandemia assombra a Europa: assalta quotidianos e monopoliza os espaços da discussão política.

Entre os propalados consensos, fabricados ou reais, sólidos ou conjunturais, fundamentais ou estratégicos, impõe-se uma retórica de crise que, para lá de uma justificação sanitária, ameaça o seu prolongamento num “estado de exceção” económico-financeiro de dimensões imprevisíveis. O Covid19 é o índice de um capitalismo de exploração que abandona os mais fracos e que é já a montra de um estado de desproteção que o precedia. O vírus intensifica a assimetria das relações laborais, a vulnerabilidade do trabalho precário, a desproteção e o abandono sistémico da massa de trabalhadores e trabalhadoras que não têm garantias de rendimento, de segurança laboral ou do próprio confinamento domiciliário que lhes salvaguarde a saúde. Não tenhamos dúvidas que o apelo global “fique em casa” não tem uma validade universal. Quando não há casa, quando a casa não se sustenta sem a deslocação ou o serviço, quando o teletrabalho não se aplica ou não rende – o próprio apelo para se “ficar em casa” surge como uma espécie de globalização de um privilégio que não está ao alcance de todos/as.

Por outro lado, tal como noutras crises, subjazem os principais agentes de uma economia abutre, com exercícios especulativos em torno de bens fundamentais, principalmente no momento que atravessamos. É tempo de proceder às requisições necessárias para que se chamem ao Estado as missões de Saúde pública para quem mais necessita, não permitindo o aproveitamento da situação em nome do lucro de muito poucos. E é tempo de o fazer numa altura em que o lume progressivo desta crise incide já sobre o elo mais fraco de uma sistémica cadeia de injustiças.

O Bloco propôs, desde a primeira hora, medidas de proteção que abrangessem os setores mais vulneráveis da economia real. Trabalhadores/as a recibo verde, trabalhadores independentes ou trabalho informal são, como era previsível, quem mais sofre com esta crise e quem mais dificuldade enfrenta para encarar presente e futuro. Por isso mesmo seria importante mobilizar, do Orçamento de Estado, apoios que assegurem o quotidiano e a subsistência da totalidade da massa trabalhadora sem sobrecarregar a Segurança Social. Fundamental também é assegurar condições que permitam preservar especialmente o direito à habitação, com a suspensão dos despejos, a proibição de despedimentos e o adequado reforço das respostas ao nível da Saúde. E tantos outros desafios concretos, mal respondidos pelas hesitações do costume da parte dos responsáveis do costume – e que surgem como responsabilidades a que procuramos responder com urgência política vivificada em ação militante. Tudo se nos apresenta com uma exigência sem igual, pelo que se tornam necessárias respostas sem igual.

A crise alastra. O país sabe, hoje mais do que nunca, a importância de um Serviço Nacional de Saúde, e talvez lamente de forma crescente o subfinanciamento deste setor do Estado e o menosprezo pelo direito universal aos cuidados médicos. Mas, por entre os escombros da crise, importa chamar a atenção para tantas outras pessoas: operadoras de supermercado, cuidadores/as e trabalhadores/as informais, trabalhadores/as em linhas de distribuição sem teletrabalho… milhares de pessoas que, nestes dias, foram já dispensadas ou despedidas. São a imagem da selva pela lente de um vírus, que nem precisa de infetar para atacar as suas precarizadas vítimas.