Editorial: Algo de realmente novo sob o sol?

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A realidade, dita “pandémica”, repete, intensifica, sublinha o que há muito já sabíamos. Problemas há muito reconhecidos e diagnosticados, como os que se associam a todo o tipo de monoculturas, a exploração intensiva, a instantâneas capitalizações de lucros explodem-nos nas mãos todos os dias. A monocultura do turismo de massas – retoricamente inscrito como direito de livre circulação, condicionado por proveniência e por capacidade financeira – é apenas um exemplo particular de um regime de dependência para com uma atividade económica que, no modo como se concretiza em Portugal, produz consequências dramáticas.

A par da precariedade laboral, da falta de vínculos e de direitos, da desigualdade social (e simbólica) entre os/as que servem e os/as que são servidos vem a escassez de alternativas, a perda de autonomia e de capacidade de gestão económica e política. Países, surgem como meros competidores por “fatias de mercado”, em que as pessoas são secundarizadas ante interesses maiores que as subjugam. As relações assimétricas, ditadas por finança e reduzidas aos caprichos do mercado, toldam identidades, subalternizam culturas e anulam modos de vida. A dependência da economia portuguesa ao turismo de massas, repercutindo-se no trabalho, na habitação ou na cultura, tem na gestão pandémica um exemplo adicional dos seus perigos e adversidades.

Nada de novo, portanto, como não há realmente novidade no modo como desequilíbrios entre países se concretizam no tabuleiro de injustiças onde se locomove o dito “novo normal”. O modo como assimetrias sistémicas esvaziam agricultura ou planeamento de território, anulando possibilidades efetivas de combate às alterações climáticas é forma de enunciação de uma realidade que urge transformar o quanto antes. Quando, ainda recentemente, a quase totalidade das forças políticas acordou para o que o Bloco há muito havia denunciado, na exploração sub-humana do trabalho migrante ilustrada na realidade de Odemira, o que se revela é um dos retratos dessa outra pandemia antiga, duradoura e sem vacina que é a das vidas secundarizadas pelo esbulho de um capitalismo parasitário.

Nada de novo sob o sol. A mudança necessária passa por não abdicar da humanidade que nos cabe, na responsabilidade coletiva pelo que é comum, fundamental, necessário; a responsabilidade perante vidas que não se avaliam pela carteira nem se medem por rankings de “competitividade”. Cada texto desta edição é uma emanação dessa reivindicação inadiável, que passa antes de mais pelas pessoas, pelo seu trabalho ou lazer, pelo seu direito à cidade em plena dignidade. Cada um destes textos uma batalha necessária, foco transformador do que se impõe para que realmente surja, sob o sol, algo de novo.