Editorial: Cá estamos, sem medo!

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Editorial da revista Anticapitalista de janeiro de 2019.

O ano 2018 termina com forte agitação social em Paris, onde os célebres coletes amarelos se tornaram expressão da contestação ao autoritarismo neoliberal de Macron, e com a pálida tentativa de canibalização desse movimento em Portugal, com notório contributo e envolvimento de grupos antidemocráticos e extremistas de direita. Mesmo que a grotesca imitação portuguesa se tenha traduzido num rotundo fracasso, pudemos assistir ao balão de ensaio do surgimento político da extrema-direita. Pudemos também perceber que uma parte muito significativa da comunicação social deseja ardentemente que esta realidade possa ser possível em Portugal, ao ponto de a fabricar. Mesmo perante a ausência de facto político, noticiou-se o vazio, deu-se alento e cumplicidade a uma encenação, inclusive com o apoio público da líder do CDS-PP, única dirigente de um partido com representação parlamentar a manifestar apoio expresso ao circo instalado. 

Este panorama de final de ano demonstra, na sua dinâmica contraditória, o desafio real em dar corpo e consistência a uma contestação popular que existe, com expressão e com razão, nas cada vez mais precarizadas realidades europeias e mundiais, não deixando o descontentamento cair nos desmandos do populismo antidemocrático. 

2019 é ano de Greve Feminista. A 8 de março, o movimento feminista desafia todas as mulheres a aderirem à Greve Feminista Internacional, construída sob quatro eixos principais: greve ao trabalho assalariado, greve ao trabalho doméstico e à prestação de cuidados, greve ao consumo e greve estudantil. A proposta é a de visibilizar a desigualdade estrutural que o capitalismo engendra e da qual se alimenta e mostrar que a sociedade só “pula e avança” porque vive pendurada na opressão e na exploração das mulheres. Visibilizar para mudar, para tornar a agenda feminista uma prioridade política.

Em maio de 2019, são as eleições Europeias. A Europa dos povos colide de forma evidente com a Europa financeira e das instituições. O conflito é visível e latente, quando o colapso do otimismo europeísta se concretiza no trabalho inexistente ou precário, na vulnerabilidade das regras democráticas aos desmandos dos interesses do capital, na especulação sobreposta aos direitos, no lucro e na acumulação como prioridade sobre vidas concretas e sobre o próprio equilíbrio ambiental. Hoje, é notória a urgência de uma alternativa anticapitalista afirmada no plano de uma democracia radical. 

Já a começar o ano, em janeiro, sob o mote Vencer os Medos, organizamos a III Conferência da Rede Anticapitalista. Juntar forças contra o medo é precisamente um dos imperativos a enfrentar, nas ruas como nas instituições, de forma a destronar o instrumento principal de quem se bate contra a democracia: o medo. É o medo da precariedade, do desemprego, da precarização galopante das condições de vida, como é o medo da diferença, da diversidade e da disputa que nutre a eficácia do ódio, que permite e alimenta as relações da opressão e exploração, que sustenta a mediocridade e o autoritarismo que têm conquistando terreno e poder pelo mundo fora. Combater o medo é dar força e sustentação às lutas sociais nas suas mais diversas formas e urgências, levando a reivindicação de direitos a algo mais do que mera proclamação discursiva. Combater o medo é organizar e nutrir a ação por justiça climática, pelo direito à habitação, pelo salário justo e pela política como campo de afirmação de uma vida plena e emancipada. Combater o medo é reforçar as lutas feministas, caminhando para a Greve de 8 de março, reconhecendo e participando nesse que tem sido o movimento global capaz de responder ao avanço do conservadorismo. Combater o medo é sustentar e apoiar as vitórias alcançadas pelo Bloco de Esquerda no plano parlamentar, contribuindo para o reforço do seu apoio popular e para a intensificação de uma democracia que não se esgota no parlamento, mas que não abdica nem subestima responsabilidades de representação democrática.

Continuaremos na luta contra o medo, construindo políticas de ousadia, de confrontação e de afirmação democrática. Os desafios do próximo ano, neste sentido, nunca serão apenas desafios eleitorais. Trata-se, como sempre, de afirmarmos o nosso direito a construir efetivamente um futuro de todos e de todas, sem contaminação do ódio como discurso, como lei ou como sistema. A luta anticapitalista nutre-se de avanços. Cá estamos, sem medo.