Editorial: Crise europeia e greve dos estivadores

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Enquanto o país regista a mais recente tragédia, uma estrada engolida pelo avanço das pedreiras, e se discute o orçamento do Estado e as mil propostas de alteração, como se não fosse natural que os partidos de esquerda apresentassem as medidas que são necessárias, enquanto o tempo vai passando, a crise social ganha novas proporções. E nota-se menos do que o dia a dia das tragédias, das dificuldades e dos boatos. 

De facto, estamos a viver uma aceleração do tempo. Na Europa, essa tensão é registada com a dificuldade de conclusão do acordo para o Brexit e com a aproximação das eleições europeias. O Brexit tornou-se um símbolo da agressividade das autoridades europeias, que primeiro facilitaram o golpe de Cameron para absorver as críticas internas no Partido Conservador, depois entraram em pânico porque o referendo determinou a saída da segunda maior economia (e maior potência militar) e agora pretendem marcar a punição do Reino Unido como exemplo para qualquer Estado que se decida pela saída. O efeito desse conflito é a divisão da direita britânica e a possibilidade de novas eleições, que podem ser vencidas por Corbyn e pelos trabalhistas. Ora, mesmo que essa viragem seja possível, o Conselho Europeu não renegociará as condições do acordo, a não ser que haja um referendo para reverter a decisão anterior, mantendo, portanto, grande pressão sobre o Reino Unido. Ou seja, nos próximos meses, a incerteza é grande. A incerteza aumenta ainda mais considerando as eleições europeias em maio. O congresso do PPE (Partido Popular Europeu) constituiu uma tentativa de impedir a saída de Orbán e dos partidos que o apoiam para formar uma nova aliança com Salvini e Le Pen. Mas, dentro do partido da direita clássica ou apresentando a sua própria corrente internacional nas eleições, a extrema-direita está já a mudar o mapa dos governos europeus. As alternativas agravam estas dificuldades: Macron foi ungido como o novo líder europeu, mas a queda da sua popularidade em França, agravada pela contestação de mobilizações populares, e a possibilidade de ser vencido pela Frente Nacional nestas eleições europeias desvaloriza e enfraquece a sua liderança. Ao procurar aliarse a Renzi, em Itália, e a Rivera, em Espanha, depois de já ter conseguido cooptar os liberais europeus, Macron candidata uma renovada direita neoliberal europeia, mas assim enfraquece os social-democratas, os seus aliados originais. Deste modo, contribui para a ingovernabilidade da próxima Comissão Europeia. 

Tudo boas razões para que o Bloco de Esquerda procure alianças amplas que se demarquem das políticas de austeridade e que deem corpo às alternativas populares, para que prepare uma campanha forte que seja o primeiro passo para as legislativas do outono. 

Uma atitude ofensiva é ainda mais necessária dado que o PS se recusa a alterar as leis laborais e favorece, portanto, a estratégia de empresas como a do Porto de Setúbal, que querem transformar os trabalhadores em funcionários à jorna e peças precárias e submissas de uma produção intensa. A greve dos estivadores constitui por isso um sinal sobre o caráter decisivo das normas de trabalho e das leis da precariedade.