image_pdfimage_print

O mundo passa hoje pela maior ameaça à sobrevivência da espécie humana no planeta Terra. Com um presidente norte-americano orgulhosamente negacionista da realidade das alterações climáticas, com a Rússia preocupada em alargar a exploração de gás natural no seu território e expandir a sua influência no Ártico para criar rotas comerciais e exploração de mais petróleo, a Europa assiste pasmada, sem qualquer estratégia que não seja prosseguir a economia do desperdício. Uma Europa sem estratégia para a crise climática viu nas eleições europeias de 26 de maio não só o consolidar dos partidos de Steve Bannon, ex-estratega de Trump, como também viu uma onda verde a crescer. Partidos com uma agenda ecologista, sejam de centro ou de esquerda, cresceram em vários países.

Em Portugal consolidou-se o Bloco de Esquerda, com uma agenda contra as alterações climáticas, como terceira força política. Será um reflexo do movimento protagonizado pela ativista sueca Greta Thunberg e isso indica que felizmente há uma geração disponível para assumir a emergência climática como um assunto de vida ou de morte. Têm toda a razão em fazê-lo, mas importa discutir como respondemos à crise climática e democrática.

Neste debate, assumimos a premissa de que destruição do planeta é indissociável do sistema socioeconómico: o capitalismo. A sobrevivência da sociedade civilizada, e talvez da vida no planeta Terra, está em risco porque o capitalismo precisa tanto de explorar como de destruir para garantir o lucro e o crescimento acima de tudo.

Hoje, uma teoria ou movimento socialista que não integre a ecologia como elemento central no seu programa e estratégia é anacrónica e irrelevante; por outro lado, também uma teoria ou movimento ecologista que não englobe uma rejeição do produtivismo capitalista está igualmente destinada ao fracasso.

Michael Löwy tem explorado o ecossocialismo como resposta. Diz Löwy que este conceito, «primeiro, reflete um novo entendimento do capitalismo enquanto sistema baseado não só na exploração, mas também na destruição – a massiva destruição das condições de vida no planeta. Segundo, ecossocialismo estende o significado de transformação socialista para além de uma mudança de proprietários para uma transformação civilizacional do aparato produtivo, padrões de consumo e todo um modo de vida. Terceiro, o novo termo ressalta a visão crítica que ele adota das experiências do século XX em nome do socialismo».

Se olharmos para a história recente dos “partidos verdes” europeus, na linha de Cohn-Bendit, exemplos não faltam da sua transformação em meros instrumentos ecorreformistas na administração liberal do capitalismo pelo centro. A ausência de uma crítica socialista ao modelo de produção capitalista faz de alguns partidos verdes europeus uma bicicleta sem rodas. Pedala muito, mas não avança.

Não nos basta alterar a gestão da propriedade. Precisamos alterar radicalmente a forma como esta é gerida. O socialismo deve colocar a reorganização democrática do sistema produtivo no coração da transformação social, juntamente com um firme compromisso com a gestão ecológica. Qualquer resposta que não passe pela síntese da ecologia e do socialismo garante sempre o pior: a barbárie.