Editorial: Faltam poucas semanas para a greve e manifestações feministas de 8 de março

Temos seguido com atenção a preparação da Greve e manifestação feminista de 8 de março, que está a ser preparada em Portugal por coletivos unitários e com ligação ao movimento internacional, como o que levou para a Greve e para a rua milhões de mulheres no Estado Espanhol no ano passado. Em 2018, houve manifestações em várias cidades portuguesas, com expressão importante, mas não houve preparação e debate sindical (nem os sindicatos que apoiavam a Greve apresentaram pré-aviso). Ao longo dos últimos meses, em contrapartida, foi definida uma plataforma reivindicativa, tem havido reuniões com sindicatos de diversos setores profissionais para conseguir a sua participação ou alguma forma de apoio em setores de trabalho feminino intensivo (Fenprof e sindicatos de professores, jornalistas, têxteis, serviço e comércio, trabalhadoras da limpeza, segurança social, etc.). No mês que falta para o dia 8 de março, esses sindicatos dirão o que farão, ao mesmo tempo que começa a campanha de massas para divulgar as manifestações.

Há boas razões para que essas manifestações seja momentos importantes da luta feminista. Ao longo de 2018, houve vários momentos de protesto público, em particular contra sentenças judiciais preconceituosas e machistas, ou em solidariedade com as mulheres brasileiras e contra Bolsonaro. A inclusão da extrema-direita na maioria de governo na Andaluzia, depois de terem reivindicado o fim da lei contra a violência de género (o que não foi aceite sob essa forma, mas ficaram com a promessa de revisão da lei ou da sua aplicação), mostra bem o que está em causa. Grandes manifestações serão um incentivo para a continuidade do novo movimento feminista.

Esta nova vaga de feminismo, potenciada pelo apelo internacional para a Greve de 8 de março, tem encontrado em Portugal dois obstáculos principais. O primeiro é o do feminismo reformista, que aceita a ideia de greve se for reduzida a uma ação simbólica, por preferir um trabalho exclusivamente institucional à mobilização popular. O segundo é o dos setores que querem abandonar a reivindicação feminista com o sonho de uma greve geral contra o governo. Ora, como em Espanha, o que a greve pretende mostrar é que o país não funciona sem o trabalho das mulheres no emprego, em casa, nos cuidados, mas também no consumo e na escola. O que quer é tornar visíveis as mulheres. Abandonar esse objetivo para uma jogada de pressão e de denúncia dos sindicatos é afirmar vistas curtas e sectarismo.

O que a Greve pretende, mesmo sabendo que é um modesto início de mobilização, e as grandes manifestações devem mostrar, é essa visibilidade, essa força feminista.