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No seu primeiro romance publicado, Chico Buarque começa por explorar as várias significações do seu título: Estorvo. Lembra o cantautor e romancista que Estorvo, entre outras, coisas remete a “perturbação”, “atropelo”, mas também “turbulência” ou “torvelinho”. Não se inclui neste leque de significações a palavra “empecilho”, com a qual o vice-presidente da bancada parlamentar do PS qualificou os partidos que viabilizaram a solução governativa cessante, com particular acento e acinte no Bloco de Esquerda. Há que analisar o “estorvo”, reconhecer a “perturbação” e o “atropelo” de que se queixam estes protagonistas, sublinhando ao mesmo tempo a “turbulência” e o “torvelinho” proporcionados pelo alcance concreto permitido, na atual legislatura, pela intervenção do Bloco. Estorvo a um programa encostado à direita neoliberal, empecilho à adoção submissa da cartilha da Comissão Europeia e, certamente, como a campanha demonstra e como corroboram as pessoas que vivem do seu trabalho, “torvelinho” apontado à mudança e à transformação social, com um programa político que não desarma do combate ecossocialista feito pelas pessoas e para as pessoas.

Entretanto, o tempo eleitoral tornou claro o que se vem tornando inegável: as questões climáticas marcam a agenda, com um véu de consenso capaz de ocultar o que é fundamental. É que nem por isso a entrada definitiva na agenda mediática ou partidária corresponde às mudanças profundas exigidas, em todos os domínios, perante os danos irreversíveis na natureza e ecossistemas, que séculos de irresponsabilidade política e económica provocaram. Enquanto, em todos os quadrantes, as forças mais convencionais e os ideários mais irresponsáveis chamam oportunisticamente a si uma agenda climática, a necessidade de uma mudança sistémica e politicamente consistente impõe-se de forma cada vez mais evidente.

Fora das proclamações vazias, longe do eleitoralismo oco, a justiça ambiental não é compatível com lógicas de acumulação e de monopólio como as que entregam na mão dos grandes grupos económicos a água, a energia, os setores estratégicos da economia mais decisivos para a política ambiental que o tempo exige. É preciso que esta política seja isso mesmo: uma política. Não um conjunto de lemas, nem sequer um conjunto de reivindicações segmentadas e de nicho. Permanecem os lemas enquanto arde a Amazónia e a vida das pessoas, tal como o futuro da natureza, não são compatíveis com as roldanas do lucro ou com os imperativos do mercado.

O Bloco demonstrou ao longo da campanha o quanto é vital a vinculação da discussão ambiental a um projeto político consistente, que se afirme e que diga ao que vem, fora de oportunismos de seita e da espuma dos dias. Não há justiça climática sem alternativas e sem resistência. E é por isso que, correspondendo ao apelo das ruas e às urgências do tempo, continuaremos empecilhos, estorvos, perturbações face aos cúmplices inconfessados das cadeias do lucro, como saberemos ser o torvelinho e a turbulência inerentes a uma política da diferença, da afirmação e da alternativa. É esta política da afirmação que, contra a retórica da proclamação, salta dos lemas e faz acontecer.