image_pdfimage_print

Editorial da revista Anticapitalista de setembro 2020.


Enquanto o mundo soma milhares de vidas devastadas pela COVID19, a crise para lá da crise pandémica alastra e apresenta-se com todos os seus perigos.

Vidas ou lucros? A desigualdade entre classes e entre países é um jogo de cartas marcadas na resposta à pandemia, mas contam as opções políticas e a relação de forças.  Depois da China e Europa, EUA e Brasil são hoje os dois maiores focos da doença. A negação das evidências científicas e a defesa dos lucros à frente das vidas podem bem vir embrulhadas na fanfarronice trumpista ou na bestialidade bolsonarista, mas carregam consigo um modelo de destruição de vidas que pode vir a ser testado, com outro matiz, em futuras vagas da doença.

Tempo perdido ou chantagem política? A insuficiência e o atraso da resposta europeia não representam apenas dificuldades nas medidas a adotar. O modelo tutelado do “plano de recuperação” fica bem espelhado na tentativa de condicionamento das “reformas” em cada país. O que já se adivinha ser um valor muito abaixo do necessário é acompanhado na sua negociação pela sombra troikista que paira sobre os países do sul, carregando promessas de precarização laboral e pressão sobre as pensões. Já vimos este filme e não podemos aceitar pagar a segunda crise de uma geração.

Em rede. É fundamental encontrar os caminhos da mobilização e das soluções que protejam os salários, os empregos, as pensões, as vidas. A afirmação de uma maioria popular em favor do SNS e do reforço dos serviços públicos é hoje uma força para o avanço das escolhas concretas no modelo de Estado social. Mas viveremos tempos de crise profunda. Na Escola pública e nas Universidades, assim como nas respostas sociais e de saúde, problemas novos somam-se já a insuficiências antigas. Na pressão sobre os rendimentos e no ataque aos direitos laborais, não faltarão novos entusiastas pela receita austeritária e fantasmas de governos passados, numa sanha de acerto de contas. Neste embate, desengane-se quem acha que pode ficar a meio da ponte.

Recomeçar. A pandemia alterou a forma como nos relacionamos e como nos organizamos na luta anticapitalista. O cuidado do distanciamento criou dificuldades na mobilização social e testamos ainda novas formas de comunicação. A esquerda pouco ganhará em cristalizar posições sobre iniciativas e calendários passados. Em setembro, o recomeço das lutas será diverso, em contextos muito variados consoante a relação de forças.

Tarefas urgentes. Juntar vontades onde temos experiência acumulada (direitos laborais, serviços públicos, luta climática), articular programa onde temos novos protagonismos (luta antirracista e feminista), criar experiência onde tanto precisamos de transformação (redes de solidariedade e direitos sociais).

Neste caminho, perderá quem acha, como o PS, que as soluções concretas passam por uma política do ultimato. Não é somando medo ao medo que venceremos a crise. O Bloco de Esquerda é hoje uma referência das lutas populares e uma garantia no enfrentamento ao abuso. Contamos com essa clareza na luta anticapitalista e no esforço coletivo da defesa das vidas e dos direitos.