Editorial: No meu tempo é que vai ser bom

Editorial da revista Anticapitalista de Abril de 2019.


No conforto de tantas casas de família e de cafés deste país, ouve-se um mantra repetido ad nauseum: “No meu tempo é que era bom”. Este louvor – à impossibilidade, ao atávico conformismo, ao consenso mole que nos cola aos sofás e que nos garante que as lutas a preto e branco são melhores – afinal não é para sempre.

Esse culto do passado idílico onde as coisas eram melhores casa-se na perfeição com outro mantra, bem ridicularizado por Sérgio Godinho: “Só neste país”. Essa desconfiança do que é novo, desenvolvida por décadas de ditadura, é um fenómeno bastante comum.

Já George Orwell dizia que “cada geração se imagina mais inteligente do que a anterior, e mais esperta do que a que virá depois dela”. O medo ou hostilidade perante uma geração mais nova foi cunhada pelo sociólogo americano David Finkelhor em 2010 como “Juvenoia”. Esta paranóia irracional diz-nos que a nova geração é mimada e nunca fará nada fora das redes sociais. Será esquecida no meio do seu consumismo e busca pelo prazer imediato. “No meu tempo é que era”. Esta ideologia da reprodução do status quo levou em março de 2019 com um bulldozer em cima, duas vezes.

Quem saiu à rua na Greve Feminista e na Greve Climática, as maiores mobilizações de sempre daquelas causas, veio ensinar-nos que se preocupa mais com o futuro e a vida das mulheres do que alguma vez alguma geração sonhou preocupar-se. São jovens e mulheres com as suas próprias ideias, decisões e, sobretudo, as suas próprias vozes, que romperam as barreiras do que achávamos possível.

A força criativa destas greves envergonhou os caciques das académicas, que há anos não conseguem mobilizar mais do que os seus pequenos coutos eleitorais. A urgência da causa climática é sentida por esta geração com um entusiasmo que contraria o medo dos que já desistiram. A desigualdade é vista por esta nova vaga feminista como um problema para o qual pedir calma não é aceitável e a violência – doméstica e de género – e a justiça machista como assuntos prioritários da agenda política nacional.

Não há gerações melhores ou piores. Há energia para forjar novas fronteiras do ativismo. Além do uso das redes sociais como espaço de organização, também vimos a “meme-ificação” dos sujeitos e dos temas. É um impulso que traz o humor para a luta e que assim defende-se de apropriações cínicas. É o caso do triste tweet de Assunção Cristas a dizer que ouvia “os jovens lá fora por uma boa causa”, omitindo a sua posição relativamente ao petróleo e ao eucaliptal. No caso Neto de Moura, a personificação do machismo da justiça portuguesa neste triste espelho de um país que cheira a bolor também rasgou caixas de comentários e disse claramente: o sistema judicial está do lado errado.

Quem saiu à rua em março são aqueles e aquelas por quem estávamos à espera sem saber. Vieram para fazer diferente e melhor do que os seus pais já fizeram. Para salvar a sociedade do machismo assassino e o planeta do capitalismo suicida.