Editorial: O marco que se constrói em março

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O mês de março é um mês de greve e de combate, assinalado no dia 8 como uma ocupação e uma repolitização do Dia Internacional da Mulher. O modo como este dia foi esvaziado de qualquer significado emancipatório, pela repetição paternalista de rituais que apenas validam as desigualdades e as injustiças de uma sociedade patriarcal, foi retomado pelo movimento social e reavivado enquanto momento de reivindicação feminista. Tratou-se de uma devolução, em plena insurgência, de um significado perdido na espuma dos dias e na futilidade ritualizada das sociedades de consumo, mas que hoje se retoma em pleno direito. O 8 de março é um marco de retoma da luta feminista através da ação consequente do movimento social.

No mundo da disparidade salarial, no espaço das invisíveis, do trabalho não reconhecido e não pago, da divisão sexual do trabalho ou da violência física ou simbólica sobre as mulheres trata-se de abrir possibilidades e de gerar alternativas. Os feminismos que recusam ser adereços ou bandeiras de apenas um dia são vozes dessas alternativas. A recusa e a superação de um modelo patriarcal, sem concessões para com a naturalização das desigualdades da lógica neoliberal, passa pela mulher com pleno direito sobre o seu corpo, sobre a força do seu trabalho, sobre a sua sexualidade e sobre os seus afetos, centro e sujeito do combate contra os mecanismos de uma sociedade injusta. Este combate é diverso, debate-se, mas não deixa ninguém de fora.

Em entrevista recente, a filósofa feminista Silvia Federici fala das metas e dos desafios mais prementes para a construção de um movimento feminista forte, que trilhe os caminhos necessários a uma escala abrangente, consequente e internacional. Para Federici, o assumir de uma pluralidade que acrescente em vez de excluir passa pela construção de alianças entre as várias dimensões do trabalho reprodutivo, entre mulheres trabalhadoras do espaço doméstico e não doméstico, entre a professora e a cuidadora, entre a ativista e a trabalhadora sexual, entre a sindicalista e a precária… entre todas as que se debatam com dispositivos opressivos que são, afinal, comuns. A greve deve ser este espaço de alianças contra todas as formas de exploração, sem exclusão ou hierarquia de exploradas. 

Importa realmente dar lugar aos debates que, assumindo a pluralidade dos feminismos, saibam dar expressão concreta a uma recusa das desigualdades que, na nossa interpretação, são geradas pelo próprio sistema capitalista. Respeitaremos as diferenças e não deixaremos debate por fazer, mas é a partir da de um feminismo anticapitalista que travaremos as nossas batalhas e que daremos as nossas razões. O movimento da Greve Feminista, espaço de pluralidade e de negociação, é o lugar necessário do diálogo e da construção de convergências – um marco que se reconstrói em março.  

Sem tentações celebratórias, trata-se antes de construir uma responsabilidade coletiva que, recordando Marielle, Lucía ou Gisberta, transporte as vítimas anónimas que floresceram e florescem todos os dias da máquina do capitalismo. Março é um ímpeto, não um segmento de calendário. É com voz e pulso que o enfrentaremos.