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Algures, em Novas Cartas Portuguesas, pergunta-se pelo poder transformador da literatura. Uma pergunta recorrente, principalmente numa época determinada na literatura portuguesa e europeia que engloba, com uma força inusitada, o tempo da publicação de Novas Cartas Portuguesas. Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, as famosas “três Marias”, mostravam a Portugal e ao Estado Novo a força da literatura na reivindicação de uma democracia plena, de todos, mas também de todas. Maria Velho da Costa deixou-nos no final de maio. A escritora que, em Maina Mendes, acusa a palavra atribuída tradicionalmente à mulher como reprodutora sem chegar a ser produtora, foi uma das vozes que, ao longo de toda uma vida, vincou a sua palavra de mulher quebrando um silêncio de séculos. Da literatura, da sua, colhemos a força efetiva da luta contra o silêncio, que nem a morte é capaz de contrariar.

O dever de quebrar este silêncio é uma responsabilidade intensificada em época de crise.

O país navega ainda entre despojos de um confinamento pandémico, com uma repercussão social ainda de dimensão desconhecida. Sabe-se que ela é considerável, que é grave, que demonstra as consequências de se deixar o poder em roda livre nas mãos dos privilégios: desemprego galopante, filas a perder de vista para recolhas de cabazes alimentares, contas que se acumulam na inquietação de quem não sabe como chegará ao final do mês. Enquanto isso, as grandes empresas distribuem dividendos, bancos tomados por grupos especulativos ganham novas frações retiradas ao erário, multinacionais acumulam as vantagens de deslocalizações fiscais com apoios reclamados à benevolência do Estado. A decisão da crise continua entregue às mãos dos interesses do capital, e isso não deve ser deixado à passividade do silêncio.

Quebrou-se silêncio também numa ação de rua ocorrida em simultâneo em 18 cidades do país no setor da cultura. Foi organizada por trabalhadores e trabalhadoras que, da noite para o dia, perderam rendimentos e agravaram um quotidiano já incerto e sempre precário. O protesto juntou pessoas das mais diversas áreas, da atriz ao figurinista, da produtora ao funcionário de bilheteira. Entre os e as mais visíveis no setor da cultura aos/às que, longe do palco e da visibilidade, são motores efetivos do que é preciso que aconteça, a organização da Vigília pela Cultura e pela Arte dá a escala dos efeitos de uma crise que talvez se comece a revelar precisamente na linguagem simbólica das artes e das letras. Cabe-nos a solidariedade, que não deixa a justiça no manto do silêncio.

A crise avança e revela-se, por vezes dando a mão aos que com ela recolhem dividendos. Ressoa a pergunta de Novas Cartas Portuguesas: «O que pode a literatura, irmãs, as palavras contra tudo isto?».

O silêncio é o lugar dos vencidos, das esquecidas da crise, mas por vezes é um tentador resguardo quando as palavras falham. Em silêncio assistimos à partida da nossa camarada Luísa Moreira, presença excessiva e teimosa no calor de todas as lutas cuja força, por não caber numa vida só, nunca desistiu de transformar a única que temos. É no exemplo da sua perseverança que recolhemos a certeza de que o silêncio não dura. A palavra transforma e permanece, a palavra cria e sobrevive e, na palavra, erguemos o protesto contra a própria morte, que nunca se esquece dos seus e das suas.

Porque as palavras podem, e muito!