Editorial: Os pigmeus do “boulevard”

Em letra ritmada pelo samba, Chico Buarque, em “Vai passar”, falou de um desfile com pouca memória. Um cortejo de indiferentes, menos por incúria do que por distração, para com os males da história e dos seus esquecidos: as “tenebrosas transações” sob as quais se sucederam a escravatura, o racismo, as cadeias de opressão cuja continuidade, com mais ou menos chicote, vêm desde longe e chegam ao nosso tempo. 

 

Não há nem nunca houve tempo indiscutível ou épocas consensuais, como nunca houve história sem vítimas. Quando Chico Buarque reivindica, em modo samba, a “alegria fugaz” proporcionada, no Carnaval, aos filhos esquecidos do império, chama ao presente e ao juízo do presente um passado em cuja chave reside parte considerável do tempo de desigualdades que é o nosso. A história não é um desfile, que se aplaude, que se celebra ou que se lamenta na comodista posição de espetador apartado. 

 

A ironia – “palmas p’ra ala dos barões famintos” – é um gesto crítico de recuperação do passado, um dos possíveis para que este se torne legível. Hoje, quando se anuncia, com gáudio democrático e alguma polémica, o designado “Movimento Europa e Liberdade”, agregando numa mesma iniciativa a velha direita, a nova direita e diversos quadrantes de zelotas das virtudes da democracia liberal, retoma-se num mesmo impassível desfile, a instrumentalização da liberdade na camuflagem dos interesses e das agendas de ambição. A pretensa federação da direita, a julgar pelas forças que se propõe federar, confirma a ideia de que estrategas dos regimes de privilégio nunca desfilam sós.

 

Canta Chico Buarque: “Palmas pra ala dos barões famintos/ O bloco dos napoleões retintos/ E os pigmeus do Boulevard”. A ironia aplaude o que maio trata de rejeitar, no ímpeto de um combate popular que não abdica do juízo histórico e da sua integridade plena, cheia de presente e passado, porque carregada de futuro.