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Meio milhão de mortos em todo o mundo, sociedades suspensas e uma crise económica cujos efeitos perdurarão por vários anos. 2020 não está fácil e nas redes sociais já há muita gente a pedir para que se dê o ano por terminado. No entanto, a verdade é que fora do humor que nos ajuda a passar esta época, existem histórias reais de desespero.

Em Portugal, há milhares de trabalhadores em lay-off total ou parcial, a maior parte das escolas está encerrada, toda a indústria do turismo, que garantia emprego a milhares de pessoas, está suspensa. Nesta área, mas também noutras, identificam-se as maiores vítimas da crise: trabalhadores precários. De um momento para o outro, estes trabalhadores ficaram sem absolutamente nada. Com o desmantelamento dos direitos laborais nos últimos anos pelos partidos do regime, estas pessoas ficarão de um dia para o outro sem chão.

Nas respostas sociais da Câmara de Lisboa, seja direcionadas para sem abrigo, seja na distribuição alimentar na rua, é fácil ter a percepção disto. Desde moldavos que perderam o emprego semi-escravo no Alentejo e andaram 5 dias a pé para chegar às respostas sociais de Lisboa, a trabalhadores da restauração, da limpeza, da hotelaria e da indústria turística que trabalhava “à jorna”. Condutores de tuk tuk “auto-empregados” mas sem clientes também pedem diariamente ajuda. Chapa ganha, chapa gasta traduziu-se rapidamente em falta de casa e comida.

Mas não são só as respostas das autarquias que contam. Vimos também o crescimento de muitas respostas sociais solidárias auto-organizadas, como a Seara. Mais mediática que a maioria, ficou conhecida por ocupar um imóvel propriedade de um fundo imobiliário sem cara para montar um centro social de ajuda emergencial. Mesmo assim, temos de referir que a maior parte das respostas que existiram não apareceram na televisão. A militância social de centenas e centenas de pessoas nos subúrbios das áreas metropolitanas garantiram a sobrevivência de milhares de novos pobres. Foram organizadas por paróquias, por juntas de freguesia, por associações de moradores e salvaram vidas.

Esta ajuda auto-organizada surgiu porque o Estado falhou. O Estado falhou por permitir que a informalidade das relações laborais atirasse pessoas para a extrema pobreza num ápice, mas também falhou porque não foi capaz de garantir um subsídio de emergência – como propunha o Bloco – para a enorme massa de trabalhadores precários. Não por acaso, uma parte considerável destes trabalhos são negros e moram nos subúrbios das grandes cidades. Sofrem, além da exploração e pobreza extrema, racismo e preconceito diariamente.

São eles e elas que enchem autocarros e comboios ainda de madrugada para vir construir os prédios, limpar os escritórios e confeccionar a nossa comida. É nos bairros suburbanos, cujos moradores são obrigados a vir para o centro em transportes sobrelotados, que têm aparecido os principais surtos de covid que neste final de Junho marcam a atualidade.
Portanto, temos de saber para onde olhar e compreender bem as tarefas que a esquerda tem hoje. Poderá isto ser feito sem estas pessoas? Se desistirmos de organizar os trabalhadores dos grandes subúrbios das maiores cidades do país, ignorando os sujeitos políticos mais importantes da nossa contemporaneidade, estaremos a desistir do essencial. A ausência de militantes revolucionários e de cultura popular de esquerda é que permite que a retórica neo-fascista recrute também lá, com o seu discurso pronto-a-vestir. É lá que a esquerda tem de estar, para poder deixar de escrever “lá” e passar a dizer “aqui”. É a estas pessoas que precisamos responder. É com estas pessoas que queremos construir alternativas socialistas.


Editorial da revista Anticapitalista de julho 2020