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Editorial da revista Anticapitalista de dezembro 2019.


Em entrevista ao Combate, em 1991, José Mário Branco citava Antero de Quental para instigar, com o poeta de Odes Modernas, ao caminhar por sobre os soluços rumo às «imensas auroras do futuro». Nessa mesma entrevista, falava de A Noite, espetáculo de rebelião contra a morte, contra a «coisa imbecil» que é morrer, e lamentava o momento em que parece não haver projeto face à insegurança do futuro. Esse não se saber o que fazer seria, para ele, uma «segunda noite». Não é preciso ter-se conhecido ou privado com o Zé Mário Branco para se saber que ele nunca quis ser símbolo de coisa nenhuma, para se constatar o desdém com que lidou com vaidades e endeusamentos, que recusava com genuinidade e firmeza. O seu desaparecimento, em novembro último, espoletou um conjunto de reações públicas feitas de contradição que só podem ser avessas à singularidade do autor de Ser solidário. Enquanto isso, a extrema-direita em Portugal vai crescendo em visibilidade, aguçando a necessidade de um combate feroz por uma democracia que represente e dê sentido aos despojos do neoliberalismo reinante. Esse combate é político, é anticapitalista, é luta contra essa segunda noite da impassibilidade de que falava o Zé Mário – a vivacidade inteligente e coletiva de quem recusa essa «coisa imbecil» que é a morte. Por isso não fazemos obituários, mas partimos à conquista do tempo e do futuro. É a maneira de se «ser solidário, assim, para além da vida».

Esta solidariedade debate-se, por exemplo, com a política da extração e manipulação da vontade popular em nome da ambição desmedida que marcam a agenda na América Latina. A diversidade de contextos e a complexidade de cada situação não mascaram a causa comum, herdada do passado colonial e ainda hoje manifesta nas derivações ainda coloniais do ultraliberalismo reinante. Tomando por exemplo o caso da Bolívia, torna-se evidente que, para lá de possíveis erros de governação, uma democracia indígena e camponesa desbarata-se na violência do golpe de Estado e no cinismo autoritário de quem o legitima. O silêncio culpado dos autoproclamados bastiões da ordem democrática – incluindo o partido do governo português e o seu compadrio abstencionista – assobia para o lado ante a fúria miliciana e vingativa com que se perseguem representantes eleitos/as e com que se incendeiam casas e bibliotecas de quem ainda ontem exercia um mandato legítimo. A persecução é mais efetiva e completa quando, à imagem do que conhecemos de outras épocas históricas do velho continente, as queimadas de livros iluminam o obscurantismo reinante. A noite avança na Bolívia e na América Latina, nas mesmas chamas que ameaçam a biblioteca de Álvaro García Linera, vice-presidente boliviano, hoje no exílio.

A solidariedade é também um sólido antídoto contra o medo. E a instrumentalização do medo é arma populista de fragilização das democracias. Os resultados eleitorais no Estado Espanhol, com o crescimento exponencial da extrema-direita, referência preferencial do partido português do mesmo quadrante, alertam para os riscos do discurso do medo e da retórica da ameaça, contra os quais se compromete a atenção solidária e a afirmação da alternativa. Por isso avançamos «por cima dos soluços», com uma política assente na proposta. Deixamos para trás a mera proclamação, disfarce preferencial da crítica mais instalada, e aliamos a solidariedade à proposta concreta, fazendo justiça a quem conta connosco nos votos e a quem reivindica connosco nas ruas. É a luta que nos cabe contra a noite, alimentados e alimentadas pela voz e obra de quem nos convida a seguir lutando. Luta sem luto e sem quartel.