Editorial: Retrospetivas

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O ano de 2020 fechou sob os auspícios de um processo de vacinação, que abre o novo ano como um importante foco de esperança sobre a realidade pandémica. Uma realidade que tomou por completo o ano que finda, colocando as questões de saúde pública no centro do debate quotidiano, das caixas de comentários das redes sociais aos mais divinatórios augúrios de alguns comentadores de televisão. Por mais frequentes que sejam nesta altura, será cedo para fazer retrospetivas ante um pesadelo sanitário que está longe de ter passado, mas que deixa indicadores importantes quanto ao contexto político a enfrentar. Desde logo uma crise grave e penosa, em que uma economia fortemente assente na monocultura do turismo, como a economia portuguesa, corre riscos acrescidos de dissabores profundos e alargados no tempo. Espera-se desemprego, desvalorização salarial e dificuldades acrescidas em setores já precarizados. Aqui, a realidade pandémica tratou de agravar o que desde logo tornou mais nítido: a fragilidade de um modelo económico que vive da perpetuação de desigualdades, talvez menos naturalizáveis – ou pelo menos mais denunciadas – ante um problema sanitário evidentemente global, mas de impacto flagrantemente desigual.

A pandemia esclareceu a importância de um Serviço Nacional de Saúde amplo e efetivo, que não entregue o seu espírito de missão democrático aos interesses do lucro. Atentar nas carreiras e condições de trabalho dos diversos profissionais de saúde vai muito além do aplauso nas varandas ou do vago e efémero louvor performativo. As perdas salariais e a escassez de recursos pesam sobre o SNS e refletem-se naturalmente na diminuição de profissionais do Estado ante a pressão dos grupos privados. Por mais que a propaganda do governo insista no contrário, a redução do número de profissionais no SNS espelha um continuado desinvestimento que se mantém no Orçamento de Estado para 2021. O Bloco denunciou, com contas feitas e com as conclusões necessárias, os efeitos possíveis de um mau orçamento que, de forma suicidária, enfraquece setores do Estado fundamentais na resposta mais imediata à crise.

No plano internacional, o cenário do que chegou a apelidar-se como “novo normal” assistiu à derrota eleitoral de Donald Trump, que não chega para disfarçar as tensões de uma sociedade fortemente polarizada. O racismo sistémico e os ditados da alta finança são continuados protagonistas na política norte-americana. Não se perspetiva que tais problemas encontrem soluções na vigência do novo executivo, como não se espera que os populismos e os discursos de ódio encontrem vias de superação no cenário de desigualdades que se mundializa sem lei. Dentro e fora de portas o eclodir de iniquidades é, no terreno de interesses do capital financeiro, a mais expectável das colheitas e o pior dos prenúncios para a travessia de uma crise cada vez mais presente.

Para a pandemia capitalista uma vacina não basta. A imunidade de grupo será sempre independente do privilégio do grupo dos imunes. Para este mal, a única vacina que conta é a da luta quotidiana da afirmação democrática, concretizada na campanha de Marisa Matias. A força da esperança, conquistada a pulso contra os ventos do fatalismo, é o núcleo fundamental dos anticorpos que salvaguardam direitos, na preservação da própria democracia.