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Editorial da revista Anticapitalista de Maio de 2019.


O mês de maio nasce na certeza e no momento das lutas.

No momento em que escrevemos, ativistas da Climáximo ensaiam um conjunto de ações de ocupação do espaço público, não deixando esmorecer a emergência coletiva da justiça climática. Na invasão em direto de um estúdio de televisão, na incursão às sedes da EDP e Petrogal, na manifestação em frente a uma multinacional de pronto-a-vestir, a Climáximo denuncia a cumplicidade entre os problemas ambientais e a agenda do capitalismo, mostrando que não há luta consequente no quadro da reinante lógica de acumulação. As suas ações multiplicam-se pelas redes sociais, são discutidas por pessoas cada vez mais alertadas para o flagelo ambiental que atravessamos.

Neste mesmo momento, simultaneamente, o Bloco de Esquerda é reconhecido como o partido mais propositivo e empenhado nas questões ambientais ao nível do Parlamento Europeu.

Trata-se de dois momentos distintos, paralelos, mas não confundíveis, concordantes, mas nunca assimiláveis, de ação ativista e de trabalho parlamentar. Cada um deles, sem atropelos e com as suas preservadas diferenças, exemplifica as escalas diversas de um esforço efetivo de transformação em que continuamos empenhados e de onde nunca desertaremos. Não abdicamos de nenhuma forma de luta, de nenhuma representação e de nenhuma conquista. Agora, tal como há 20 anos, recusamos aquartelamentos e não nos contentamos com transformações discursivas.

No ano em que completa 20 anos, o Bloco enfrenta batalhas eleitorais exigentes. Já este mês, temos as Europeias. Se as tendências e as estatísticas se confirmarem, a extrema-direita populista poderá sair reforçada destas eleições, podendo tornar-se a segunda bancada mais numerosa em Bruxelas. Não sendo expectável que o escrutínio em Portugal espelhe esta tendência, é inegável que o fantasma do populismo toma forma nos países centrais e alastra progressivamente ao restante continente. Sem alarmismos, mas cientes do que enfrentamos, importa alargar representação e combater as consequências do medo.

A alternativa constrói-se com proposta política real, que faça a diferença na vida concreta e que se vincule realmente à voz das pessoas. Numa campanha que se adivinha dura e exigente, torna-se necessário demonstrar a repercussão de um possível aumento da representação europeia do Bloco numa política de dia a dia, em que o percurso já feito se consolide em força e em número para benefício de tantos e tantas que já se reveem, em grande escala, no trabalho da Marisa Matias. Contra a legitimação do populismo, do racismo, da les/homo/bi/transfobia, dos discursos generalizados do ódio alimentados pela política suja e pelas fake news, cabe-nos assegurar a diferença através de uma política de proposta, em que a afirmação e a celebração democráticas são apoiadas pelas pessoas porque são das pessoas. Cabe-nos a afirmação contra o medo.

Conhecemos, nos últimos tempos, em Portugal, mobilizações populares de relevo, em que vão emergindo novos sujeitos políticos e formas outras de se fazer política à esquerda. Tanto a Greve Feminista do 8M como as Greves Estudantis pelo Clima sugerem novos movimentos, novas emergências e novas gramáticas na luta social. Cabe ler o momento com responsabilidade militante, o que significa antes de mais politizar descontentamentos, reclamar novos discursos e novas práticas a instituições até aqui blindadas à reivindicação democrática e popular. Enquanto força anticapitalista de afirmação de alternativas cabe-nos aceitar esta responsabilidade, trazendo-a para os domínios em que ela se saiba mais consequente. Porque a verdadeira intransigência é responsável e é consequente. Só assim se fará barreira ao oportunismo populista: mostrando-se que em cada construção, em cada vitória, em cada novo alcance se afirma a tal radicalidade que não desiste de nada.

Não desistimos de nada. 20 anos depois cá estamos, com a força de Abril e acolhendo as vozes de Maio, ainda instigadas na canção de Zeca Afonso: «Que a voz não te esmoreça a turba rompeu».