EDP: A vitória da burguesia e a resposta sindical

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Artigo de Vítor Franco

A burguesia conseguiu uma assinalável vitória conquistando a generalização da precariedade e opressão nas empresas, uma estratificação quase total da classe trabalhadora através da subcontratação, uma grande vitória nas leis de trabalho e, acima de tudo, na opção ideológica do individualismo como resposta. A supremacia ideológica dos de cima é facilitada por dois fatores: os de baixo têm sempre receio de perder algo e têm a perceção que que não existe uma alternativa forte e credível de política, poder ou regime.

O centro da ação política e reivindicativa continua muito dependente do confronto no parlamento, que é, no entanto, um recurso necessário ante o refluxo da cidadania e da descrença na capacidade de vitória reivindicativa. O recuo, porém, já deixou o fundo e passámos a uma nova fase: a do renascimento das lutas, em particular daqueles setores que vislumbram nas contradições do poder e no “efeito geringonça” uma possibilidade de reconquista de algo perdido. Na corrida “atrás do prejuízo” não há contradição entre correr por fora ou correr por dentro: é preciso correr em todas as pistas, com objetivos claros e planeados, explorando os pontos fortes das aspirações da classe e os fracos do poder institucional – juntando ativismos e conhecimentos.

O novo sindicalismo atua em todas as frentes possíveis de ação, de acordo com as suas forças e as condições do terreno de luta – mas atua. Na base das empresas e no plano institucional, na pressão sobre as forças políticas e sobre os diferentes níveis de poder. A nova fase tem caraterísticas que merecem atenção: i) a crescente dificuldade de fazer vingar ações vindas através de uma correia de transmissão; ii) algumas “insurgências” sem “pedido de autorização” (enfermeiros, Autoeuropa…); e iii) aparecimento de novas lideranças e organizações laborais, sendo algumas de direita. À burocracia sindical, lenta a reagir à vontade de lutar e obstaculizando-a quando não a controla, juntou-se o envelhecimento das direções sindicais e das Comissões de Trabalhadores (CT), ocorrendo até a morte de algumas, a perda rápida de pessoas sindicalizadas, a diminuição da democracia sindical – quando não a emergência da antidemocracia -, a má imagem que se deixou construir dos sindicatos…

Há, pois, novos espaços vazios e em disputa. Ativistas que não desistem da luta ousaram criar novas expressões orgânicas e de democracia laboral, como é o caso do sindicato do qual sou um dos dirigentes. Tem futuro um sindicato imbricado nos locais de trabalho, com um forte coletivo dirigente, com práticas democráticas permanentes, colocando todas as principais decisões à votação das pessoas associadas ou a trabalhar na empresa e que age na mesa de negociações em obediência à decisão democrática emanada pelo voto secreto. Tal postura já mereceu um forte ataque da UGT, o que significa que o sindicato está no bom caminho! Um sindicato que pensa ação e posição prévia e tenta condicionar as entidades patronais; um sindicato que procura juntar forças, jovens e “velhos”, precários e efetivos, pessoas da empresa contratante e das empresas subcontratadas; um sindicato que luta por aumentos salariais iguais em valor e não à percentagem, primeiro passo na luta contra o aumento do leque salarial; um sindicato que nunca deixa as e os mais jovens e com menos direitos para trás em nome de possíveis acordos, os quais se tornaram uma prisão da luta e tornaram a diminuição da injustiça uma impossibilidade. O statu quo ante bellum (estado em que as coisas estavam antes da guerra) deixou de ser um início para ser um fim sem batalha!

No novo sindicalismo, atuamos para despertar vontades, construir processos que ajudem as pessoas a pensar, a evoluir na sua consciência de si para si. Enfrentamos a luta e o debate ideológico que atrofia e aliena as mentes das e dos trabalhadores e que os faz competir entre si. Esse determinante não necessita de chavões, mas de pedagogia, não necessita de dogmatismo, mas de interrogação, precisa ir ao estado onde as pessoas estão para lhes criar vontade de emancipação e evolução. Assim o fazemos.