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Artigo de Luis Leiria.


Uma coisa parece estar garantida no que se refere às eleições presidenciais de 3 de novembro nos Estados Unidos: vai ser necessário ter muito sangue-frio e aguentar até ao último minuto. Esta é a melhor perspetiva, porque há sempre a possibilidade de o processo de apuração dos resultados – e a disputa em torno da contagem – prolongar-se, como aconteceu nas eleições de 2000, ganhas por Al Gore no voto popular, por cerca de meio milhão de votos, mas perdidas no colégio eleitoral. A recontagem dos votos no estado da Flórida arrastou-se por mais de um mês, até que uma decisão do Supremo Tribunal lhe pôs fim. Pois é: foi desta forma que George W. Bush chegou à Casa Branca.

Também vale a pena recordar que a distorção provocada pelo sistema eleitoral dos EUA chegou ao seu máximo absurdo nas últimas eleições, vencidas por Trump, folgadamente, com 304 votos eleitorais, contra apenas 227 da sua adversária, Hillary Clinton, que, no entanto, venceu a contagem nacional com mais de 2,8 milhões de votos de vantagem sobre o atual presidente.

Para além dos casos de Al Gore e de Hillary Clinton, é preciso chegar ao ano de 1888 para encontrar outro exemplo de um candidato (neste caso, o democrata Grover Cleveland) que tenha vencido a contagem nacional, mas perdido as eleições.

As sondagens erram muito

É por tudo isto que ninguém pode ficar tranquilo quanto ao resultado final das eleições nos Estados Unidos da América, mesmo quando a média das sondagens nos diz que Joe Biden, o candidato dos democratas, leva neste momento uma vantagem de sete pontos percentuais sobre Donald Trump.

É verdade que foram poucos aqueles presidentes que perderam a reeleição em tempos recentes (Carter perdeu para Reagan em 1980 e George H. W. Bush perdeu para Clinton em 1992).

Mas também é verdade que nenhum dos presidentes reeleitos, pelo menos desde 1936, conseguiu recuperar de um resultado tão mau nas sondagens a menos de um mês e meio das eleições. Além disso, chama a atenção a quantidade muito reduzida de indecisos. Uma sondagem recente Wall Street Journal/NBC News mostra mesmo que quase 90% dos eleitores já tomou uma decisão firme de voto. Nessa sondagem, Biden vence Trump por 51% a 43%.

Por outro lado, também é certo que as previsões têm errado muito. A média de sondagens previa em 2016, na véspera das eleições, uma vitória de Hillary Clinton por 3,8%. Ela venceu no voto popular por 2,1%, mas perdeu em estados decisivos que a derrotaram no colégio eleitoral. E isto as sondagens não previam. Um exemplo que Trump gosta muito de citar é o do Michigan, estado onde todas as consultas davam a vitória a Hillary, e foi Trump que acabou por vencer por uma margem mínima. Mas também é verdade que, quando faltavam 41 dias para as eleições, a candidata democrata vencia por uma diferença de 4,5%. Já a liderança atual de Biden, na mesma altura e no mesmo estado, é de 7,3%.

Os estragos da pandemia

Quando este artigo estiver a ser lido, muito provavelmente os Estados Unidos terão ultrapassado os 200 mil mortos por Covid-19. É um dado ao qual Trump já não pode escapar. A forma como o presidente republicano geriu a crise da pandemia pode vir a custar-lhe a eleição. O recorde de mortes no país mais poderoso do mundo é indefensável, por mais que Trump tente culpar a China, os governadores democratas ou a OMS. O seu negacionismo foi quase infantil, quando por exemplo garantiu ao povo americano que o novo coronavírus iria desaparecer “como um milagre”. O Washington Post contou 34 vezes em que o presidente repetiu essa promessa. A epidemia simplesmente não estava nos planos de reeleição, e por isso a reação foi negá-la com base no pensamento mágico.

Ainda num recente comício de campanha, no dia 22 de setembro, Trump voltou a afirmar que o vírus “não afeta, virtualmente, ninguém”!

É por isso que soa igualmente como pensamento mágico a promessa de uma “surpresa em outubro”, data em que Trump pretende anunciar que a vacina está pronta.

Campanha supremacista branca

Onde a campanha de Trump se sente à vontade é diante das mobilizações dos negros contra a repressão policial. O presidente sabe que precisa do medo como arma eleitoral, e que as suas hipóteses de vitória assentam numa campanha que conquiste o voto amedrontado dos brancos.

A campanha supremacista branca tem sido uma constante. Trump recusou-se até a criticar os assassinatos praticados por milícias brancas, dando um incentivo para a mobilização de bandos fascistas. A ideia que quer passar é que as pessoas têm de escolher entre ele, que garante a lei e a ordem – e que os negros fiquem sob a opressão de sempre –, ou Biden, que trará com ele o caos. Conseguirá esse amedrontamento inverter a tendência atual de vitória dos democratas?

O fator entusiasmo

Um dado que as sondagens também registam é que os eleitores de Trump são mais fervorosos no seu voto que os de Biden. Segundo o Harvard Kennedy School Institute of Politics, 56 % dos prováveis eleitores de Trump dizem ser “muito entusiastas” no seu voto, enquanto apenas 35% dos prováveis eleitores do candidato democrata dizem o mesmo. Biden, que nunca escondeu ser o representante do establishment democrata, não está a conseguir despertar a mesma mobilização que sem dúvida ocorreria se o candidato fosse Bernie Sanders. Será a falta de entusiasmo em Biden  compensada pelo impulso de votar anti-Trump?

Segurem-se: até novembro, ainda haverá muitas emoções fortes.


Luís Leiria é redator do Esquerda.net.