Em entrevista intimista, Bazuca abre o seu coração à Anticapitalista

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O Novo Anormal

 

Foi na sala de um T1 nos arredores de Bruxelas que a Anticapitalista conversou com a tão anunciada Bazuca. Sem muito que fazer, de pantufas, e entre duas séries da Netflix, a Bazuca falou-nos das suas angústias passadas e dos medos do futuro, numa entrevista marcante que fará o Daniel Oliveira (qualquer um dos dois) corar de inveja.

Anticapitalista – Cara Bazuca, obrigada por estar aqui connosco. Podemos tratá-la assim?

Bazuca – Oh filho, já estou habituada. Já me chamaram de tudo. A malta estrangeira gosta de me chamar Green New Deal. É um bocado comprido, mas até dá um ar moderno. Agora, no outro dia esteve cá um colega seu do Observador que me chamou Plano de Recuperação e Resiliência. Eu disse pró meu marido: “Ai credo! Ao que chega o desespero desta gente”.

AC – Conte-nos, como é trabalhar como Bazuca?

B – Ora bem, eu comecei nisto da bazucagem já lá vai quase um século, por isso já vi de tudo… Por exemplo, nos anos 1930 trabalhava-se muito bem. Um dia, o Dr. Roosevelt ligou para a minha casa e disse-me: “Eh pá, estamos aqui com uma crise lixada, precisamos que venhas cá dar uma mãozinha”. No dia seguinte, assinei o contrato e comecei logo a trabalhar. Hoje em dia, infelizmente, já não é assim. Sei das coisas pela televisão, antes de falarem comigo…

AC – E desde os anos 1930 tem estado parada?

B – Ainda fiz uns trabalhinhos interessantes no pós-Guerra. O serviço nacional de saúde em Inglaterra, por exemplo. Depois, fiz um ou outro biscate durante os anos 1970… Mas, nas últimas décadas, isto tem sido uma pasmaceira sem conteúdo nenhum. Parece um romance do Miguel Sousa Tavares.

Agora a sério, a vida não está fácil para quem trabalha no ramo da bazucagem. Sabe como é, hoje as pessoas querem comprar tudo feito. Querem planos de recuperação da economia tipo pronto-a-vestir. Vão aos mercados de capitais a achar que é mais barato, mas, como diz o povo, o barato sai caro. Depois acabam com as finanças mais estrafegadas que roupa da Primark ao fim de duas lavagens.

AC – Como é que viveu a última crise das dívidas?

B – Olhe, para ser sincera, em 2008 até tive esperança. Quando a coisa rebentou, virei-me para a Dra. Merkel e disse-lhe: «Fala aí com o BCE, que eu consigo pôr isto a andar em pouco tempo». Mas, passados uns meses, ligou-me o amigo dela… o outro… ai… o… Ai, como é que se chama aquele que tem cabeça de manjerico e nome de password temporária?…

AC – O Dijsselbloem?

B – Esse! Ligou-me a perguntar se eu também fazia serviços de austeridade. Eu respondi-lhe que isso não é a minha área. E se há coisa que aprendi com a literatura do José Rodrigues do Santos é que, se não tens jeito para uma coisa, mais vale estar quieto. Desliguei-lhe o telefone na cara.

AC – E em 2021, como se sente ao ser tão anunciada?

B – Sinto-me nervosa. Até já me inscrevi no ioga.

AC – Tem estado presente nas discussões sobre a Bazuca aqui em Bruxelas?

B – Vou seguindo as promessas que fazem sobre mim pela televisão. Mas acho aborrecido. Faz-me lembrar o final do Preço Certo: à primeira vista, até parece um prémio jeitoso; depois começa a gritaria, “mais pra cima, mais pra baixo”, e ninguém se entende. Enfim… aquilo está feito para, no final, o pessoal só levar uma torradeira ou um descascador de fruta.

AC – Tem falado com o governo português?

B – O governo português não fala muito quando vem cá a Bruxelas… Mas, por acaso no outro dia até tive um pesadelo com o primeiro-ministro português.

AC – Quer contar?…

B – Sonhei que o Dr. António Costa estava a ler o meu futuro numa sessão de tarot. Ele ia virando uma carta para cada setor a financiar pela Bazuca, enquanto ia fazendo promessas sobre o meu futuro. Virou a carta da habitação, da transição climática, da digitalização, etc. E eu, cheia de medo, sempre à espera do momento em que ele ia virar a carta da morte.

AC – Quando é que percebeu que era um pesadelo?

B – Quando ele virou a carta da cultura e me chamou Raspadinha.