As plataformas, a hipercomunicação traíram a promessa da internet enquanto espaço de debate público. Na distorção, mais liberdade foi acompanhada de maior controlo. Daniel Borges acompanha estes temas, convocando Habermas e Nancy Fraser.
Na Internet, onde nada desaparece, comunicamos de forma cada vez mais efémera. Num minuto, um tuíte fica desatualizado, um vídeo falha o número suficiente de likes para furar a bolha através do algorítmo, ou uma informação falsa é partilhada entre milhares de pessoas. Se esse novo paradigma da comunicação, com uma escala esmagadoramente maior, é impulsionadora da hiperpolítica no seu sentido mais nefasto – uma forma de política sem consequências políticas claras submergida no enxame digital -, é também impulsionadora de uma grande transformação da esfera pública.
Para o sociólogo Jurgen Habermas, a esfera pública é a designação do palco, nas sociedades modernas, no qual a participação política é feita através da discussão e debate de ideias. Uma esfera onde discursos circulam e se confrontam, em diferentes meios e níveis. Habermas traçou a transformação estrutural dessa esfera tendo em conta dois processos principais: a evolução dos meios de comunicação e a evolução da estrutura social nas sociedades ocidentais.
Estes dois processos, o primeiro com a criação de meios de comunicação de massas e o segundo com a revolução industrial, culminaram naquilo a que Habermas chamou de “modelo liberal da esfera pública burguesa”. Uma esfera pública em que os cidadãos ‘privados’ se juntam para discutir assuntos de interesse público e acabam por formar públicos de opinião e consumo. Criados sobretudo a partir da participação de membros da burguesia e da pequena burguesia, os públicos que se desenvolveram no século XIX permitiam crair uma pluralidade de discursos, que se influenciavam uns aos outros através de jornais, rádios, televisões, mas sempre assentaram em desigualdades de acesso.
Isso mesmo lembra Nancy Fraser em Repensar a Esfera Pública, um ensaio onde expõe não só a exclusão de género de uma esfera pública dominada por homens, mas também critica a ideia errada de que a esfera pública é aberta à participação de todos e todas. Na verdade, a transformação da esfera pública para o modelo de públicos sempre pressupôs a exclusão de uma grande parte da população.
É esse mesmo paradigma que a Internet, em geral, e as redes sociais, em particular, rompem. E apesar desse rasgo ser, num primeiro momento, mais democrático – uma primeira Internet, em que cada pessoa que tenha acesso é simultaneamente emissor e recetor – a principal revolução da massificação da produção de informação é o caos, gerido pelo algoritmo.
No enxame
A promessa democrática da Internet foi, portanto, desfeita. O enxame digital substitui os públicos, mas não lhes acrescenta nem democracia, nem acessibilidade. Aprofunda individualidades e atomiza públicos, mas cria, sobretudo, um volume de conteúdo tão grande que afoga em si uma grande parte desse conteúdo.
Dai nasce mesmo a hiperpolítica. Anton Jäger diz que a esfera pública foi repolitizada e reencantada em termos mais individualistas e efémeros, criando uma forma de política “baixa”: baixo custo, baixa entrada, baixa duração e baixo valor. Essa nova esfera pública permite aos agentes políticos uma maior flexibilidade em posicionamentos, um acesso mais direto a instrumentos de manipulação, e uma capacidade maior de instigar guerras culturais.
Primeiro, a rapidez das redes sociais criou a necessidade de reações curtas e imediatas. Essa realidade permite uma maior flexibilidade em posicionamentos políticos em dois sentidos: por um lado, permite reflexões mais superficiais e sem análise aprofundada de eventos políticos em concreto. Os políticos, analistas e comentadores vão trocando textos de análise pelos 280 caratéres do X, dando origem aos influencers políticos. Por outro lado, facilita a mudança de posições políticas. O que é dito passa a ser desdito com facilidade, e a inteligência artificial coloca todas as posições em causa. Os bufões da extrema-direita usam com particular eficácia as mudanças de posicionamento, tanto fora como dentro das redes.
Em segundo lugar, as redes sociais permitem uma manipulação em massa de fácil acesso. A ubiquidade das redes sociais significa que o seu controlo tem uma escala infinitamente maior do que um jornal, por exemplo. Mas que as redes sociais estejam nas mãos de grandes magnatas não é novidade. Os órgãos de comunicação social de massas sempre o estiveram. A novidade é a forma como o algoritmo segmenta públicos e lhes consegue dirigir propaganda específica de acordo com os seus comportamentos digitais, como aprende, vende dados e decide quem vê o quê e quando.
Essas duas transformações levam à instigação das guerras culturais como um principal motor de transformação da hegemonia política. Entre os mecanismos de estímulo de dopamina das apps e a adrenalina artificial do conflito desmaterializado, a esfera digital privilegia o ódio à solidariedade. Os insultos, o racismo e as mensagens discriminatórias nas redes sociais aumentaram 16% em 2024, de acordo com um estudo da Bodyguard. Essa discriminação abre a porta ao entrincheiramento da sociedade.
Distorção
Se a evolução dos meios de comunicação e a evolução da estrutura social nas sociedades ocidentais no século XIX levaram à transformação estrutural da esfera pública para o seu “modelo liberal”, os dois processos concluem agora uma distorção.
A comunicação imediata e plataformizada das redes sociais está a transformar-se no principal meio de comunicação de massas ao mesmo tempo que a estrutura social muda: a concentração de riqueza acelera e os interlocutores da oligarquia são os donos das rede sociais.
A distorção da esfera pública perverte aquela visão excessivamente idealista da esfera pública burguesa que Habermas defendia, mas será até um retrocesso face à versão crítica que Nancy Fraser apresenta. A pulsão para uma democracia na comunicação moldada à medida do mercado traiu a sua principal ambição. Na distorção, mais liberdade foi acompanhada de maior controlo. Mais participação de menos poder individual. Mais informação e menos transparência. O que resta são câmaras de eco e milhares de bots, enquanto as estruturas tradicionais da esfera pública burguesa, os media tradicionais, perdem capacidade perante a livre circulação da informação e sucumbem cada vez mais aos interesses de quem os financia.