Esquerdas diferentes, plataformas em comum

A European Left Alliance for the People and the Planet (https://leftalliance.eu/) constituiu-se como partido europeu em agosto de 2024 e teve o seu primeiro congresso em 13 e 14 junho de 2025 no Porto. Catarina Martins e Malin Björk (Partido de Esquerda da Suécia) são as duas copresidentes do partido. A Aliança é constituída por 9 partidos tão diversos como o Bloco de Esquerda, a France Insoumise, o Razem e vários partidos nórdicos, entre outros, e ainda dois partidos observadores. Embora partilhando um fundo de análise comum sobre a União Europeia que não queremos e sobre o que podem ser políticas alternativas, cada partido que integra a aliança tem um historial e um percurso próprios, resultante da singularidade de cada processo nacional de adesão, das próprias mudanças ocorridas na UE e na situação política europeia e mundial.  

Neste artigo procuraremos analisar o percurso de dois desses partidos: a Aliança de Esquerda da Finlândia (Vasemmistoliitto) e o Podemos. A escolha recaiu sobre estes dois por um ser da Europa nórdica e o outro da Europa do Sul. Mas não só. A Aliança foi fundada em 1990, antes da Finlândia ter aderido à UE e antes do Euro. O Podemos foi criado em 2014, num período de crise das dívidas soberanas, de austeridade da troika e de lutas contra essa mesma austeridade. Esse contraste pareceu interessante.

Aliança de Esquerda da Finlândia

A Aliança de Esquerda da Finlândia ficou em 2º lugar nas eleições europeias de 2024, obtendo um resultado impressionante de 17.3% (mais 10% do que nas europeias de 2019). Contudo, só elegeu 3 deputados (dado que a Finlândia só elege um total de 15 deputados europeus), tendo mesmo assim ficado à frente dos sociais-democratas, do partido do centro e dos verdes, que elegeram apenas 2 deputados cada.

A Aliança de Esquerda evoluiu de uma posição bastante eurocética antes do referendo de adesão (1994) para uma posição atual em que é o mais pró-EU dos partidos nórdicos: em 2023, estimava-se que 75% dos eleitores da Aliança de Esquerda viam positivamente a adesão da Finlândia à UE. Como veremos, a história das posições da Aliança relativas à EU é também uma história de grandes divisões internas nos momentos-chave de decisão.

Foi fundada em 1990, através da fusão da Liga Democrática do Povo Finlandês, (FDLP) do antigo Partido Comunista da Finlândia (FCP).  Em 1994 houve um referendo nacional sobre a adesão: dividido internamente, o partido decidiu não adotar uma posição no referendo, prometendo respeitar a opinião dos eleitores: alguns dirigentes do partido fizeram campanha contra, outros a favor. A adesão passou com 57%, tendo tido apoio de apenas 24% dos eleitores da Aliança.

Entre 1995 e 2003 o partido participou nos governos do primeiro ministro social-democrata Paavo Lipponen, tendo ocupado as pastas da Cultura, dos Municípios e dos Impostos. Foi um destes governos que abriu o caminho para a adesão ao Euro (1 janeiro 1999). Neste período a Aliança foi suavizando o discurso eurocético e acabou por alinhar-se com uma agenda de forte integração europeia. Mais tarde voltou a integrar o governo, entre 2019 e 2023.

Um outro exemplo é a questão da União Monetária Europeia (UME). No Manifesto aprovado em 1996, a Aliança definiu-se como contrária à criação da UME. Contudo, a direção do partido decidiu organizar uma consulta interna em novembro e dezembro de 1997. O resultado foi 52.4% a favor, 41.5% contra , e os restantes 5.9% optaram por delegar a decisão na direção do partido. 

Ao contrário da Aliança de Esquerda da Finlândia, que sempre manteve no mínimo uma posição ambígua em relação à UE, o Partido de Esquerda da Suécia (Vänsterpartiet) e a Aliança Vermelha e Verde da Dinamarca (Enhedslisten) propunham até à década passada a saída da União Europeia. A esta diferença de posição não é certamente alheio o facto de a Aliança ter participado em governos, enquanto que os partidos da Suécia e da Dinamarca apenas fizeram acordos parlamentares, sem terem nunca entrado no governo.

A questão da NATO tinha sido sempre uma linha vermelha para o partido, e manter a Finlândia fora da NATO tinha até sido uma condição para a participação no Governo em 2019. A Aliança estava no governo em 2022 aquando da invasão da Ucrânia. A opinião pública finlandesa, que era anti NATO, mudou rapidamente, passando de 24% em outubro 2021 para 85% em outubro 2022. O Partido ficou dividido, a liderança do partido e ministros posicionaram-se a favor, mas deram liberdade aos deputados, e metade dos deputados votaram contra a entrada da Finlândia na NATO. Atualmente, a linha do partido não questiona a permanência na NATO, e foca-se em reduzir a dependência nos EUA e em influenciar o que acontece na NATO. O programa do Partido aprovado no Congresso de 2025 sublinha que a sua presença na NATO é defensiva e que a Finlândia não deve aceitar armas nucleares, nem bases da NATO nem a presença de tropas da NATO em permanência.

Numa interessante intervenção num encontro da Transform, em 2023,  Kalevi Suomela, à altura coordenador do Departamento Internacional, analisou a singularidade do trajeto da Aliança no que diz respeito à UE. Chamou-lhe uma relação enigmática: “enigmática porque a direção do partido olha para a UE como uma possibilidade, enquanto que a maioria dos apoiantes a vê como uma ameaça a valores que consideram importantes”. 

Podemos

O Podemos é relativamente bem conhecido na esquerda portuguesa. Lançado em 2014 com um manifesto subscrito por um leque alargado de personalidades do ativismo, do sindicalismo, da academia, da cultura e da militância política, apresentou-se como um movimento aberto a toda a cidadania. A sua fundação correspondeu à necessidade de encontrar um “corpo político” capaz de dar continuidade às extraordinárias mobilizações dos Indignados e do 15M e das marés cidadãs e de disputar eleições tendo em vista essa necessidade de mudança. Uma mudança exigente, de confronto não só com os “partidos da casta” (PP e PSOE), mas com as instituições não-eleitas da UE (e não só: também o BCE, o FMI e a Troika) responsáveis pela austeridade e pelo empobrecimento, e pelo esvaziamento dos serviços públicos.  

O Podemos apresentou-se às eleições europeias de 2014 com Pablo Iglésias como cabeça de lista. A lista de propostas eleitorais incluía aumento do salário mínimo, a eliminação dos paraísos fiscais, a nacionalização dos serviços públicos e dos bancos que foram resgatados com fundos públicos, entre outras.

Obteve 1.2 milhões de votos, 8% dos votos e 5 eurodeputados (em 54), o que foi um grande sucesso apenas cinco meses depois da formação do partido. Recolheu um apoio popular significativo convertendo-se na terceira força política em 23 das 40 cidades principais do país. O PP ganhou as eleições, o PSOE ficou em segundo. 

Nos anos seguintes o Podemos integrou várias iniciativas contra a austeridade, por exemplo as conferências do Plano B, em que diferentes forças da esquerda anti neoliberal europeia, com o objetivo de encontrar alternativas ao garrote da troika e das instituições europeias.  

Em 2016, houve eleições legislativas antecipadas no Estado Espanhol e previa-se uma grande votação na coligação UNIDOS PODEMOS (Esquerda Unida e Podemos), que era tida como favorita. Mas o PP ganhou, o PSOE recuperou e ficou em 2º lugar (22.63%) e a coligação UNIDOS PODEMOS ficou em terceiro (21.15%), com mais de 5 milhões de votos, apenas meio milhão a menos que o PSOE.

Após as legislativas de 2019, o Podemos fez um acordo de participação no governo com o PSOE: Pablo Iglésias foi vice-presidente, Ione Belarra ministra dos direitos sociais e Irene Montero ministra da igualdade. Esse acordo não se renovou em 2023.

Em 2025, na Vª Assembleia Cidadã Estatal, realizada já num contexto pós eleição de Trump, são reafirmadas críticas de fundo ao curso armamentista da UE, à sua capitulação perante Trump e ao seu silêncio perante o genocídio  de Gaza por Israel. Afirmam a necessidade de construir alternativas políticas com coordenação de esquerdas europeias e a de ampliar a organização dos movimentos sociais. É também afirmada a necessidade de saída da NATO (OTAN NO, BASES FUERA). Tem sido vocal na luta contra a ofensiva de Trump e Netanyahu contra o Irão, bem como em propor medidas de taxação das indústrias do petróleo e da banca para que a crise não afete os mesmos de sempre.

Nota final

A ELA não determina nem substitui as políticas nacionais de cada partido. Mas pode ser uma alavanca extremamente poderosa para campanhas comuns. É muito significativo do ponto de vista político que a primeira  grande iniciativa conjunta tenha sido a “Iniciativa de Cidadania Europeia para exigir à Comissão Europeia a suspensão total do Acordo de Associação UE-Israel, tendo em conta as violações dos direitos humanos cometidas por Israel”. O objetivo era atingir 1 milhão de assinaturas até janeiro 2027. No momento em que escrevo, já há mais de 880 mil.