Estados Unidos: Trump derrotado. E o trumpismo?

Artigo de Luís Leiria, colaborador do esquerda.net


A invasão do Capitólio por uma multidão de fanáticos adeptos de Trump, no dia 6 de janeiro, tornou-se um inesperado revés para um presidente já derrotado nas urnas. O fracassado putsch de Trump, como está a ser chamado, enterrou definitivamente as suas contestações infundadas à vitória do democrata Biden. Mais ainda, poderá custar-lhe uma condenação que o impedirá de se recandidatar à Presidência nas próximas eleições.

O processo de impeachment contra Trump, aprovado na Câmara de Representantes com o voto dos democratas e de mais dez deputados republicanos, é sólido. O ex-presidente é acusado de incentivar uma turba dos seus mais indefetíveis apoiantes a invadirem o Capitólio para impedir a cerimónia da confirmação da vitória de Biden. Num discurso diante de milhares de adeptos, exortou-os a “caminhar até o Capitólio” para impedir o que ele considerava um roubo da eleição, pedindo-lhes que lutassem “como o demónio”. Os manifestantes cumpriram a orientação, furaram as linhas defensivas da polícia e chegaram muito próximo dos congressistas, no momento em que estes eram evacuados da sala do plenário pela segurança da casa.

 

Havia planos no meio do caos

O FBI investiga indícios de que a ação teria sido preparada por grupos de extrema-direita, cujos membros atuaram em coordenação e com objetivos, após terem feito anteriormente um levantamento do local. Isto é, a invasão não teria sido tão espontânea quanto pareceu à primeira vista.

O resultado da aventura foi, porém, esmagador para Trump. A confirmação da vitória de Biden foi proclamada ainda no mesmo dia, logo que retomado o controlo do Capitólio, e Trump foi forçado a reconhecer, pela primeira vez, a vitória de Biden.

Uma denúncia recente do New York Times revelou que essa foi apenas a tentativa derradeira de impedir a proclamação da vitória de Biden, mas não foi a única. Trump terá também estado à beira de intervir na Justiça, substituindo o Procurador-Geral por um nome que aceitasse contestar o resultado da eleição. Antes ainda, tentara convencer o seu vice-presidente, Mike Pence, a não reconhecer a vitória de Biden e portanto não a proclamar no Capitólio. Em nenhuma destas iniciativas Trump apresentou provas da tão alegada fraude eleitoral.

Isto não quer dizer que a aprovação do impeachment seja certa. Pelo contrário, parece muito difícil. É que a condenação de Trump no Senado teria que contar com o apoio de pelo menos 17 senadores republicanos. Ainda assim, o partido está dividido, com o líder republicano no Senado, McConnell, a admitir a possibilidade de votar a favor. Mas mesmo que Donald Trump seja impedido de se recandidatar à Presidência, quer isso dizer que o trumpismo acabou? Dificilmente.

 

Raízes profundas

“Qualquer que seja a sorte do indivíduo, o trumpismo não será tão facilmente contido. As suas raízes são profundas”, diz Noam Chomsky numa entrevista recente. Uma sondagem do Washington Post e da rede de TV ABC News revelou que 6 em cada dez republicanos acreditam que o partido deveria seguir Trump, em vez de traçar uma nova rota.

Os últimos acontecimentos puseram o partido à beira da divisão. Trump tem falado na criação de uma nova formação, o Partido Patriótico, que pode vir a tomar corpo ou servir apenas de chantagem para dentro do Partido Republicano.

Mas o futuro do trumpismo está também ligado ao desempenho da administração Biden. Se ela se limitar à restauração do establishment democrata, arisca-se a perder rapidamente a maioria recém-conquistada no Senado. Sob esse ponto de vista, a composição do gabinete do novo presidente, que chegou a acenar para esquerda democrata, não saiu do mainstream do partido. Bernie Sanders e a senadora Elisabeth Warren ficaram de fora.

“Gostaria de ver”, disse Sanders à revista Politico, “progressistas na administração que lutassem pelas famílias de trabalhadores deste país, que acreditassem que a saúde é um direito humano, que garantissem que as universidades não têm propinas e que fossem agressivos em questões como as alterações climáticas, a injustiça racial, a reforma da imigração”.

Não foi o que aconteceu.