A história do movimento estudantil, olhado desde Coimbra, pode ser pensada como a história da tensão e cruzamentos entre as reivindicações direcionadas para as instituições académicas e setor educativo e a participação nas lutas pela transformação social. Curiosamente, esta é uma história que tem vindo a ser reduzida a episódios curtos que despem de densidade o campo de possibilidades dos efeitos do passado nas lutas do presente.
Não seria possível não falar de 1969, por dois motivos distintos. Desde logo porque é à crise académica de 1969, “coimbrã”, e ainda mais a 17 de Abril, que se tem reduzido a maioria das referências à memória do movimento estudantil em Coimbra, mesmo que este se insira num fluxo reivindicativo de extensão anterior e posterior à data, com uma expressão importante, por exemplo, na crise académica de 1962, “lisboeta”, e mesmo que a efervescência contestatária de 69 também tenha eclodido em Lisboa. O segundo motivo é tudo o que de relevante esta redução deixa de fora, não expondo contradições profundas dos dias de hoje.
Não é necessária mais do que uma breve pesquisa nos arquivos dos últimos anos do jornal universitário A Cabra, para perceber as linhas gerais e comuns das comemorações da Crise de 1969: o dia 17 de abril, o protagonismo do momento em que Alberto Martins pede a palavra, a união de todos os estudantes, o modo como tudo isto continua a ser referência e motivo de evocação para os dirigentes associativos atuais. É disto exemplo paradigmático o mural inaugurado em 2024 na Rua Padre António Vieira, aos 55 anos do acontecimento, que retrata com grande destaque Alberto Martins, o ano 1969 e a citação “peço a palavra”.
A sublimação de um único momento cai facilmente na armadilha da simplificação, ocultando o seu enquadramento num movimento com antecedentes e desenvolvimentos posteriores. Não é possível compreender verdadeiramente este episódio isolando-o – sem olhar o que se ia já preparando nos anos 50, sem a primeira lista de esquerda a ganhar a DG/AAC em 1960, sem a radicalização do movimento nos anos 70, ou sem refletir sobre o nível de correspondência entre a reivindicação da democratização do ensino e a democratização do país.
O movimento caracterizou-se pelo rompimento com a romantização do significado de ser estudante em Coimbra, essa figura de boémio sonhador e, menos cantando, formatado para garantir a manutenção do regime. Mas não estará uma outra romantização a ser perpetrada em elementos simbólicos persistentes como a predominância de oradores homens e trajados nos momentos comemorativos (não acompanhando este modo de rememorar as transformações pelas quais, em mais de 50 anos, passou a sociedade e a própria Universidade)? Não será este um silenciamento simbólico, ainda que eventualmente não intencional, da contestação à praxe que foi existindo ao longo do tempo?
À data de hoje, envergar um traje desatualizado e datado, observando o modo como nos vestimos no quotidiano, configura vestir o significado da praxe. Por um lado, é possível usar o traje sem participar nos rituais praxistas. Por outro, o traje, associado à condição de estudante do ensino superior, representou (representa ainda), em muitos casos, uma perceção, de ascensão social e económica, possibilitada pela democratização do ensino. Esta é uma perceção com força individual, mas também familiar e até mesmo comunitária, quando gerações mais novas acedem a uma condição difícil de imaginar por gerações tolhidas pelo fascismo nas suas possibilidades de percurso de vida.
Mas mesmo que em teoria traje e praxe possam ser coisas distintas, do ponto de vista simbólico, seria difícil negar a associação que muitos olhares fazem entre uma coisa e outra. Uma associação porventura mais forte em pontos do país onde o traje académico e a praxe surgem em simultâneo e como uma tradição adquirida e relativamente recente.
A praxe é um ritual de passagem, via de acesso a uma hierarquia (imaginada) de estudantes, mas também a configuração da elitização de um grupo restrito face à sociedade em geral. Um conjunto de mecanismos ritualísticos e simbólicos, regidos por um código, abolidos pela prática do movimento estudantil do final da ditadura que, embora recorrendo ao uso da tradição, alcançando uma mobilização ampla, deve a sua inegável relevância por ter conseguido diluir as fronteiras entre a elite (estudantes) e a população.
A contestação do movimento estudantil neste período politizou-se e procurou adotar formas de protesto na rua, como a distribuição de flores na Baixa, a largada de balões no Largo da Portagem, a elaboração de cartoons… Ou ainda os protestos na final de Taça de Portugal de 1969, a 22 de junho, entre a Académica e o Benfica a que acorreram numerosos estudantes com cartazes e comunicados para distribuição na capital, por entre palavras de ordem de contestação ao regime. Ou mesmo o cunho anticolonial e antiguerra, marcado por momentos como as palavras de ordem contra a guerra colonial gritadas em Coimbra-B na despedida de quarenta e nove ativistas estudantis incorporados nos quadros do exército no início do ano letivo de 1969/1970. Exemplos que, ainda assim, remetem a um universo referencial estudantil e coimbrão. Um outro exemplo configura uma efetiva saída dos muros da Universidade: a participação em ações de apoio às vítimas das cheias de 25 e 26 de novembro de 1967 no sul do país, deparando-se com um contexto de pobreza e abandono das populações. Sendo esta uma breve e superficial lista de exemplos1, servirá para aflorar o tanto que tem ficado de fora na maioria das mais recentes evocações da Crise de 1969.
Esta memória da luta estudantil coimbrã, saneada dos seus elementos de maior riqueza disruptiva e limitada a uma leitura do movimento associativo, tem um impacto significativo na (auto)compreensão do movimento estudantil dos nossos dias, com efeitos na possibilidade de construção de pontes entre o movimento estudantil e outros movimentos sociais. Após a reinstituição da praxe na década de 80, o movimento estudantil foi-se institucionalizando. O associativismo estudantil fechou-se em si mesmo, transformando-se, fundamentalmente, num espaço de convívio social da comunidade estudantil e de representação oficial em eventos institucionais. Ademais, germinou uma cultura interna de carreirismo político, que alheou, progressivamente, a massa dos estudantes. Por um lado, a intervenção organizada dos estudantes é, hoje, sobretudo protocolar; e, por outro, as reivindicações que a animam são autorreferenciais, tomando a comunidade estudantil como uma abstração separada do resto da população – um traço de continuidade que continua a merecer problematização.
Desde os anos 90, a principal bandeira reivindicativa do movimento estudantil tem sido a eliminação ou redução da propina, acompanhada, a tempos, da contestação das sucessivas revisões do Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES).
A onda contestatária anti-propinas da década de 90, embora norteada por um objetivo corporativo, conseguiu alargar a mobilização além do corpo estudantil convocando os símbolos tradicionais (como o traje) para uma intervenção combativa. A multiplicidade de atores envolvidos e de táticas utilizadas permitiram transformar uma reivindicação estudantil numa luta social.
Ora, se, nesse momento inicial, o combate político ainda assumiu contornos algo disruptivos, desde o início deste século, as formas de intervenção têm sido sobretudo performativas. A pervasividade dos rituais internos e carreirismo terão também contaminado os modos de atuação reivindicativa, que têm assumido um espírito mais passivo, traduzindo-se, frequentemente, em manifestações organizadas como desfiles de estudantes trajados.
Fora deste núcleo circunscrito de reivindicações, o associativismo estudantil tem contribuído de forma pouco ativa nos processos de contestação social de base. A memória estilizada do passado traduz-se, hoje, na persistência da elitização, não tanto dos estudantes, mas sobretudo dos dirigentes associativos. Em consequência, o movimento associativo torna-se cada vez mais isolado do resto da população, pouco intervindo organicamente nos processos de contestação social mais alargados.
Esta despolitização generalizada do movimento estudantil foi convivendo, todavia, com enclaves mais ou menos duradouros de organização estudantil politizada. Em Coimbra, o exemplo paradigmático são as repúblicas – espaços comunitários e autogeridos, com longa história de resistência. Embora não estejam imunes a um certo processo de fechamento sobre si próprias, mantêm-se como espaços de politização para muitos estudantes.
A mais recente manifestação da cisão entre o movimento associativo tradicional e os enclaves de organização estudantil politizada surgiu a propósito da causa palestiniana. Enquanto um agregado informal de estudantes e outras pessoas não estudantes organizou e manteve um acampamento em protesto contra a cumplicidade da Universidade de Coimbra com o genocídio, a Associação Académica de Coimbra, não só não se solidarizou oficialmente com a acampada, como demorou longuíssimos meses a aprovar uma posição sobre a matéria. Significativamente, no dia 17 de abril de 2024, durante a cerimónia de inauguração do mural alusivo à crise académica, que, conforme mencionado, destaca Alberto Martins a pedir a palavra, um conjunto de estudantes voltou a pedir a palavra “porque o silêncio é ensurdecedor”. O dirigente da AAC que dirigia a sessão ignorou o pedido dos estudantes, que só viria a ser atendido por Marcelo Rebelo de Sousa na sua intervenção. De resto, o apoio das associações de estudantes a este tipo de protesto pela libertação da Palestina configurou um diálogo difícil também noutros pontos do país.
Anos antes, a relativa apatia do movimento associativo estudantil fez-se sentir no quadro da contestação às políticas de austeridade da Troika. Apesar de este ter sido um momento de extraordinária efervescência reivindicativa, a participação ativa das associações académicas nos processos de contestação foi muito menos expressiva do que faria supor a significativa participação de jovens estudantes. Elucidativa disso mesmo é a ausência de subscrição, por parte da AAC, do manifesto “Que se Lixe a Troika, queremos o Ensino Superior de volta!”, que apelava à participação na manifestação de 2 de março. Também neste contexto de radicalização contestatária, a intervenção estudantil foi, sobretudo, espontânea e descentralizada das grandes associações.
A esterilidade do movimento associativo estudantil atual tem uma influência não ignorável sobre o dinamismo dos espaços de contestação social. Num momento de crescimento da extrema-direita e de uma antevisão da disputa do campo estudantil também pelas direitas, importa ampliar e densificar memórias, num caminho de (re)politização e de problematização dos comumente difíceis diálogos entre movimento associativo, movimento estudantil e movimentos sociais.
- Para uma análise mais profunda, ver, por exemplo, o artigo de Miguel Cardina “Memórias incómodas e rasura do tempo: Movimentos estudantis e praxe académica no declínio do Estado Novo”, publicado na Revista Crítica de Ciências Sociais (2008). ↩︎