Feminismo: depois da Greve, nada ficará como dantes

Artigo de Beatriz Simões.


A 18 de fevereiro, ocorreu o décimo primeiro femicídio de 2019, sabendo-se ainda que o perpetrador terá sido o ex-companheiro da vítima. Estas são mulheres a quem o sistema judicial falha, diariamente, ao alimentar os preconceitos e ao levar, canhestramente, a cabo decisões sintomáticas de falta de consciência social, ou, porventura, desprendimento da realidade.

Este é o tipo de violência mais evidente, pela sua dramaticidade. O ápice da selvajaria foi, por todo o país, protestado, através de manifestações organizadas pelo movimento feminista; são revoltas cuja autenticidade dificilmente pode ser reproduzida, porque se muitas pessoas se sentem revoltadas, só algumas, as mulheres, sabem que estão efetivamente na mira. Porque esta não é uma violência qualquer, é uma violência contra as mulheres, patriarcal, ancorada na dominação masculina. Existem, também, formas de violência diárias, mais subtis e sorrateiras, perante as quais se insurgem cada vez mais mulheres. Falo das desigualdades quotidianas, amiúde normalizadas, escondidas, e, segundo alguns, categóricas. Mas o facto de estarem normalizadas, não lhes retira a sua essência: são formas de machismo, que esmagam a autonomia e a liberdade das mulheres, que nos oprimem e exploram, em nome da manutenção de privilégios.

Em 2017, mais de duzentas mil mulheres estavam desempregadas, e a diferença dos salários de homens e de mulheres, na União Europeia, segundo o Eurostat, chegava aos 16,2%, o que significa que as mulheres trabalham 59 dias sem receber. Para além da desigualdade salarial, o inquérito Assédio sexual e moral no local de trabalho em Portugal, da Comissão para a Igualdade no Trabalho no Emprego (CITE), revela que 35% das mulheres se declaram vítimas de assédio moral e 16% de assédio sexual. Estes números têm rosto, e um deles é o da Cristina Tavares, a operária corticeira vítima de assédio moral, que nos tem dado a todas e a todos lições de resistência e dignidade. Sabemos do que falamos, porque temos estado com a Cristina Tavares nos atos solidários. A tudo isto se soma o facto de as mulheres, que representam quase metade da população ativa, serem mais de metade das pessoas que ganham o salário mínimo. São a maioria das beneficiárias do Rendimento Social de Inserção (RSI) e do Complemento Solidário para Idosos, muitas são cuidadoras informais, outras trabalham no setor informal, sem contrato e sem direitos, o que revela não apenas uma colossal desigualdade, como nos assegura que, no futuro, a pobreza continuará a ter rosto feminino, porque a desigualdade de hoje se reflete nas pensões futuras.

A diferenciação salarial dispara quanto mais aumentam as qualificações. O mesmo panorama se encontra em função das habilitações académicas, ou seja, quanto mais aumenta o nível de escolaridade, mais aumentam também as desigualdades salariais. Isto significa que o valor de trabalho sofre um viés de género, que não tem por base critérios objetivos – formação e competência. Sabemos, para além disso, que são as mulheres as principais responsáveis pelo trabalho doméstico, trabalho este não remunerado nem valorizado. Todos os dias, em média, trabalhamos 4h30 em tarefas domésticas e de prestação de cuidados, mais 1h45 do que eles, o que perfaz cerca de três meses de trabalho gratuito. Se este tempo de trabalho fosse contabilizado como produção de riqueza, o PIB nacional duplicaria. Esta sobrecarga de trabalho retira-nos tempo ao descanso e ao lazer. Revisitemos a reivindicação do movimento operário no século XIX: 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de lazer, para percebermos como as nossas vidas e os nossos direitos são letra morta nesta era de capitalismo neoliberal.

O feminismo combate o patriarcado, não combate os homens. No entanto, não podemos aceitar a pesporrência com que alguns se encostam ao privilégio. Muitas vezes, a solução apresentada é a externalização do trabalho doméstico, esquecendo que isso reclama capacidade económica, que é uma proposta que não reconhece as desigualdades de classe. As tarefas domésticas e de prestação de cuidados têm de ser divididas, a par com uma luta por serviços públicos, caso contrário estaremos a perpetuar desigualdades, de género e de classe.

É por isto que a Greve Feminista Internacional é já uma experiência única, porque nos pôs a pensar em conjunto, intersecionalmente, cruzando género, “raça” e classe, e será um marco na construção de um movimento feminista comprometido com a transformação e a emancipação sociais. É um momento de reivindicação de direitos sociais, da igualdade no trabalho à diversidade dos currículos nas escolas, da destruição dos estereótipos e incentivos ao consumo ao combate às alterações climáticas e ao reconhecimento das pessoas migrantes como iguais. Nada ficará como dantes.