Filme: Prazer, camaradas!

Artigo de Andrea Peniche.


Título: Prazer, camaradas!
Realizador: José Filipe Costa
Produtora: Uma pedra no sapato
1h 45 min | M/12 
Portugal, 2019

O título deste documentário/ficção é uma das suas coisas felizes. É o prazer em conhecer uma história pouco contada da Revolução e o prazer em conhecer o debate sobre o prazer no processo revolucionário em curso.

A história passa-se numa cooperativa de uma herdade ocupada, à qual chegam estrangeiros e exilados para trabalhar e participar no processo revolucionário. A partir de um quotidiano rural, percebemos um tempo em que a terra já é de quem a trabalha, mas na divisão sexual do trabalho não se mexe, um tempo em que ela ainda mandava na cozinha e ele ainda continuava a mandar nela, como se a Revolução marcasse um compasso diferente portas dentro. As conversas no lavadouro sobre sexo e prazer, que são de uma ternura imensa, mostram um país atrasado, mesmo muito atrasado. E esse atraso é um choque, sobretudo se pensarmos como era a Europa na altura e fizermos o exercício de perceber que havia/há outro país fora de determinados ambientes urbanos. A pergunta que me acompanhou durante o filme foi, por isso, sobre o que fez a Revolução para resolver esse atraso. Fez alguma coisa, fez muito, porventura, mas muito foi pouco e/ou devagar. Fez o planeamento familiar, a lei do divórcio, o sufrágio universal. Legislou e legislou bem, mas tardou em compreender outras desigualdades e outras relações de poder, sendo, tantas vezes, uma revolução do “agora ainda não”, como o filme ilustra, com imensa graça, na cena que retrata uma reunião da cooperativa em que se discute se fulano de tal deve ou não limpar as botas quando entra em casa e, havendo resistência do fulano de tal, que por acaso estava a dirigir a reunião, em aceitar mudar o seu comportamento, a decisão sobre o assunto transita para o departamento cultural. A burocracia, a sempre útil burocracia, a justificar o “agora ainda não”.

A forma como o tempo é tratado, esvaziado de lógica, é um convite constante à ultrapassagem de um tempo linear, de uma narrativa unidimensional. Ontem é muitas vezes (quase) hoje, porque o tempo do prazer e da desigualdade de género tem minutos diferentes nas sociedades patriarcais e nas revoluções do “agora ainda não”. Esse teletransporte temporal acontece logo nas primeiras cenas e permanece o tempo todo através dos corpos. Corpos reais, maduros, esquecidos, que desafiam a noção linear de tempo. E é bom pensar e debater o prazer e os modos de vida a partir de corpos reais.