Garantir um ativismo climático consciente, inclusivo e eficaz

Artigo de Gil Rodrigues Ubaldo*.


Assistimos hoje ao expandir e intensificar do movimento pela justiça climática, através de atores como o Fridays For Future ou o Extinction Rebellion que um pouco por todo o mundo fazem crescer a luta contra as alterações climáticas. A escalada do nível de confrontação nesta vertente do ativismo, desde manifestações com centenas de milhares de pessoas, até semanas inteiras de desobediência civil em vários pontos do mundo, tem vindo, cada vez mais, a colocar o movimento pela justiça climática nas bocas do mundo. Isto significa, de uma forma imediata, duas coisas: primeiro, temos a oportunidade de chegar a camadas vastíssimas da população, abrangendo-as na luta pela justiça climática; segundo, temos que garantir o exercício de um ativismo consciente, inclusivo e eficaz.

Tendo isto em conta, e se queremos realmente encontrar soluções justas, democráticas e socialistas para a crise climática, é absolutamente necessário reforçar a luta pela justiça climática como iminentemente ligada à luta de classes.

É vital que nos epicentros do movimento nunca seja posta de lado a natureza de classe que separa aqueles que são mais e menos afetados pela crise climática. É também preciso tomar consciência de que muitas vezes quem ‘lidera’ ou dinamiza mais estas frentes emancipadoras são pessoas e grupos com inúmeros privilégios de classe, para não falar de etnia e género, e refletir sobre a forma como se responde a esta contradição.

Apenas com esta tomada de consciência é possível democratizar o espaço do ativismo, trazendo para os centros de decisão as populações mais afetadas pela injustiça climática, tanto a nível global, como local, seja a nível de mudanças que o combate concreto às alterações climáticas implica no mundo laboral, seja a nível da vulnerabilidade de quem está mais exposto à precariedade, à pobreza e a condições insuficientes de habitação.

Será também apenas com a consciência das implicações reais dos antagonismos de classe que conseguiremos radicalizar um movimento a partir de estratégias que compreendam as necessidades da população, garantindo um ativismo que lute por elas e nunca contra elas, sendo portanto compensador e contrário à estrutura vigente.

Penso que um outro passo absolutamente vital para a construção e intensificação de um movimento que compreende tanto justiça climática, como justiça social, passa por efetivar a comunicação e interligação entre as comunidades de ativistas a nível regional, continental e global. Só desta forma é possível que os problemas que afetam determinados países ou regiões sejam tidos em conta por toda a comunidade internacional, facilitando o apoio internacional ou inter-regional para a resolução dos mesmos, de uma forma horizontal e solidária. É também através da internacionalização desta luta que democratizamos o acesso à informação, fazendo chegar a todas as partes do mundo novas ferramentas de ativismo, novas propostas de organização de sociedades, de políticas alternativas, de críticas construtivas internas ao próprio movimento, tornando-o mais flexível, capacitado e eficaz.

Para além disso, é assim que se traça o caminho para uma comunidade internacional solidária e unida, que se olha como um todo, ao mesmo tempo que tem consciência das circunstâncias das suas partes, orientando-se sempre pela justiça social e, portanto, também climática.

Termino com a convicção de que o intensificar do nosso movimento levará a soluções e a processos transparentes e justos enquanto a luta de classes deixar bem claro quem e o que defendemos. Esta luta remete-nos obrigatoriamente para o plano internacional, já que a solução para um problema mundial passa pelo fortalecimento de uma comunidade internacional que participa na luta pela justiça climática, lutando também para esbater contrastes entre Norte e Sul Global.


*Ativista da luta pela justiça climática