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Entrevista a Daniel Tanuro.


Daniel Tanuro é um engenheiro agrónomo, marxista, que tem escrito desde há muito sobre alterações climáticas (foi publicado em português o seu livro “O Impossível Capitalismo Verde”, edições Combate, 2012). Neste excerto de uma entrevista publicada pela revista Viento Sur, discute as teorias dos colapsologistas, que afirmam que caminhamos para um abismo do desastre climático e que não o podemos evitar. Esta reflexão é-nos muito útil no mês em que preparamos mais um jornada mundial de greve climática, a 27 de setembro.

VS: A colapsologia, pela atração que exerce hoje, é uma palavra imã?

Tanuro: Mas um imã que nos leva onde? Esse é o problema. Os colapsólogos nem sempre são muito claros e há variantes nos seus discursos. Mas o essencial é que afirmam que o colapso é inevitável e que a única resposta consiste em criar pequenas comunidades resistentes, que não haverá outro modo de sobreviver depois do apocalipse. Na sua última obra, “Um outro fim do mundo é possível”, Pablo Servigne e os seus amigos descrevem o colapso como uma doença de Hutchison, uma doença degenerativa, hereditária e mortal: há que aceitá-la e deixar de lutar… Em vez de identificarem o capitalismo como a causa principal – não digo que seja a única – da destruição ecológica, naturalizam as relações sociais e invocam ameaças bíblicas sobre as nossas cabeças. A partir de aí são possíveis todas as derivas ideológicas, e nem falta “outro fim do mundo”.

Dito isto, a atração que a colapsologia exerce é inegável. Explica-se, como é evidente, pela angústia perante as ameaças terríveis que poderiam levar à destruição do planeta e é importante informar sobre a gravidade da situação. Para muitas pessoas, essa consciência corresponde também à percepção da necessidade de romper profundamente com a sociedade atual, o seu produtivismo e o fetichismo da mercadoria. Há aqui um paradoxo: apesar de serem incapazes de explicar porque é que o capitalismo é tão destruidor, os colapsólogos são um eco de setores sociais, especialmente jovens, que procuram respostas anticapitalistas.

Por isso me parece importante que se faça este debate. Sobretudo, creio que é essencial explicar que a visão de inspiração anarquista de um colapso do capitalismo que abra as portas a uma sociedade autogerida e baseada em comunidades locais não permite enfrentar os desafios globais da transição. A complexidade desses desafios requer uma ação planificada. Sou totalmente partidário das ideias de autogestão descentralizada, mas a transição energética e social exige tanto a descentralização como a centralização, a planificação e a auto-organização. A história demonstrou os riscos terríveis de degenerescência próprios desta combinação de contrários e por isso é preciso um programa para combatê-los.

VS: Ao considerar que alguns deles naturalizam as relações sociais, acusaste os colapsólogos de “cairem na regressão arcaica”…

Tanuro: Não digo que a naturalização das relações sociais leve inevitavelmente à regressão arcaica, ao regresso ao passado, mas favorece-a indiscutivelmente. Se não identificamos a grande responsabilidade histórica do capitalismo, a que podemos agarrar-nos, onde está a saída possível? Para alguns, não há nenhuma: a Terra tem uma doença que se chama humanidade e só se curará quando eliminar essa raça. É a conclusão cínica de James Lovelock no seu livro sobre Gaia, por exemplo. Para os colapsólogos, a solução seria psicológica: devíamos descobrir o nosso inconsciente coletivo e recuperar o passado que temos dentro de nós. É isso que entendo por “regressão arcaica”, essa ideia reaccionária de Carl Jung.

VS: Depois de décadas de inação pelos poderes estabelecidos e com a relação de forças atual, devemos temer que se mantenha o status quo, uma situação em que nada se faz? O colapso não seria então um certo pragmatismo?

Tanuro: Se se usa o plural, e se fala de colapsos ou riscos de catástrofes, o pessimismo talvez seja uma forma de lucidez. Mas temos que evitar esta ideia do Colapso absoluto, do fim do mundo. Mas, sem consciência social, a intuição fica enviesada, o raciocínio será circular e resta a pseudociência. Só podemos partir da realidade: o risco da destruição do meio ambiente e a responsabilidade concreta da forma histórica responsável por esta destruição.

É por isso que rejeito o capitalismo verde e as soluções de aprendiz de feiticeiro. A única forma racional de equilibrar a equação climática é anticapitalista. Será necessária uma mobilização geral, um inventário de todas as prdoduções inúteis e perigosas, dos modos de transportes inúteis, e suprimi-los completamente até alcançar a necessária redução das emissões. Isso requer medidas draconianas, como a socialização da energia e crédito, a redução massiva do tempo de trabalho sem perda salarial, a reconversão profissional e o desenvolvimento dos serviços públicos democráticos.