Greve Feminista: A greve da intersecionalidade e da sororidade

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Artigo de Adriana Lopera.

Transcendendo o âmbito laboral e produtivo, a Greve Feminista de 8 de março estende-se ao setor estudantil e abrange também os cuidados e o consumo. Porque as mulheres trabalham em muitos lugares, estudam e produzem de muitas formas, por isso a nossa identidade é múltipla e diversa, assim como as nossas opressões. Esta greve é feminista e anticapitalista, reivindicando uma organização política, económica e social cujo objetivo principal seja a satisfação das necessidades das pessoas e a sustentabilidade do planeta.

Para que a greve possa existir, todos os sindicatos serão chamados a este processo. Procuraremos a solidariedade das organizações sindicais, para que esta luta possa contar com o máximo de participação. A convocatória de uma greve de 24 horas ao trabalho remunerado é também uma forma de combater e visibilizar as desigualdades e discriminações que sofremos pelo facto de sermos mulheres. De acordo com os dados mais recentes sobre os quadros de pessoal (2016), os salários médios das mulheres são inferiores aos dos homens em 15,8%, o que significa que a disparidade salarial em Portugal corresponde a uma perda de 58 dias por ano de trabalho remunerado. Isto é, a partir do dia 11 de outubro, as mulheres trabalham de graça. Somos as mais precárias dentro da classe trabalhadora e o assédio é o pão-nosso de cada dia. Por isso acreditamos que os sindicatos se juntarão à greve, porque ela procura chamar a atenção para as mais exploradas de entre os explorados.

A sororidade converte-se assim numa ferramenta fundamental. A aliança feminista permite-nos viver experiências solidárias e positivas a partir de um esforço pessoal e coletivo. Juntas defendemos os direitos conquistados e reivindicamos o fim das desigualdades nos diferentes âmbitos da vida, no contexto laboral, nas escolas, nos cuidados, na sexualidade, na publicidade sexista, etc. Lutamos juntas pelo fim da violência machista, da cultura da violação, das discriminações em função da origem, classe, identidade e orientação sexual. Porque esta greve também tem na sua agenda a defesa dos direitos LGBTQI+, assim como o antirracismo. A greve feminista declara-se em luta contra os centros de internamento de estrangeiros, a imposição das fronteiras como modo de negar solidariedade, as políticas de imigração desumanas da União Europeia, que colocam todas e todos em risco, mas que têm efeitos agravados para as mulheres, que muito frequentemente são objeto de violência sexual, tanto nos acampamentos, como nos países de trânsito.

A Greve Feminista de 8 de Março de 2019 já está em marcha

Com o objetivo de construir o caminho coletivo para a Greve, a Rede 8 de Março* está a articular diversas organizações de várias cidades – ANIMAR (Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local), Assembleia Feminista de Lisboa, Bloco de Esquerda, A Coletiva, Coletivo Rosa, Espaço Associativo MOB, Espaço Cultural Com Calma, ILGA, Krizo (Educação, Arte e Cidadania), Precári@s Inflexíveis, Sindicato dos Call Centers, Cesminho -Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços do Minho, Sindicato de Estudantes, UMAR, Festival Feminista do Porto, entre tantas outras associações, coletivos e sindicatos que se estão a juntar neste processo crescente de adesões. Até à Greve, todos os dias 8 de cada mês a Rede 8 de Março reunirá, juntando mais coletivos e ativistas. No dia 8 de outubro, a Rede 8 de Março reunirá, às 19 horas, na sede da UMAR, em Lisboa. Novos coletivos já confirmaram presença, como a INMUNE (Instituto da Mulher Negra), as Panteras Rosa e as Mulheres na Arquitectura. No Porto, às 21 horas, também haverá reunião no Porto, no Mira Forum. Duas reuniões nacionais também já foram marcadas: a 8 de dezembro estaremos juntas no Porto e a 8 de fevereiro estaremos em Coimbra.

Para participar na construção da Greve Feminista basta isso, ser feminista!

* A Rede 8 de Março teve origem na organização da Marcha pelo Fim da Violência contra as Mulheres, a 25 de novembro de 2011 (Lisboa), e consolidou-se a partir da organização da festa feminista “O lado F da crise”, ocorrida a 9 de março de 2012, na ZDB (Lisboa), na qual se celebrou a luta feminista, convidando mulheres artistas de vários quadrantes, e que juntou centenas de pessoas. Reúne diversas associações feministas, antirracistas, de defesa de direitos das pessoas LGBT e dos/as imigrantes e de combate à precariedade, assim como pessoas título individual.