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Artigo de Adriana Lopera, Catherine Boutaud e Mafalda Brilhante.


Quando se fala na Greve Feminista Internacional e nas manifestações que a acompanharam nas ruas, a primeira informação que nos pedem é esta: números. Parece que são estes que definem o sucesso da ação política. Olhemos então para eles. A Greve Feminista Internacional aconteceu em 42 países do mundo. Em Portugal foram 13 as cidades que aderiram à Greve Feminista, e em todas houve manifestações, juntando mais de 30 000 pessoas nas ruas neste 8 de março histórico.

Cinco Sindicatos emitiram pré-aviso de greve: SIEAP (Sindicato das Indústrias, Energia e Águas de Portugal), SNESup (Sindicato Nacional do Ensino Superior), STSSSS (Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social), STCC (Sindicato dos Trabalhadores de Call Center); S.TO.P. (Sindicato de Todos os Professores). Pois bem, na área da eletrónica, duas linhas fabris da Visteon (empresa que produz, principalmente, painéis e leds para a indústria automóvel) pararam e nunca antes, em greve nenhuma, tal tinha acontecido. Esta empresa estava abrangida pelo pré-aviso do SIEAP, sindicato onde praticamente todas as sócias aderiram à greve. No call center da CUF, no turno das 17h, ninguém atendeu chamadas. Na educação, professoras do básico, do secundário, universidades, politécnicos e investigadoras de diversas áreas não foram trabalhar. Se na área da saúde, solidariedade e segurança social parou-se na APPACDM de Matosinhos, e se não estivéssemos já no mínimo dos mínimos, teríamos tido mais grevistas, mas o STSSSS, sindicato que representa estas trabalhadoras, era o único que precisava de assegurar serviços mínimos, pelo que não se pode parar de trabalhar.

Mas, no final de contas, os números dizem muito pouco sobre o tanto que se alcançou, e por isso dizemos que não, não são só os números que contam, mas sim tudo o que há para além deles, na expressão social desta luta. A Greve Feminista é uma greve social, essa é a razão do seu êxito.

Professoras e estudantes em diversas escolas e faculdades fizeram com que a greve estudantil fosse possível, debateram coletivamente a educação que queremos, uma educação que nos permita compreender o conflito entre o capital e a vida, conhecer a nossa história e a das resistências ao machismo e ao colonialismo e as alternativas económicas, culturais e ambientais, uma educação que seja pública e gratuita, diversa, crítica, sem lugar para preconceitos e invisibilizações, livre de agressões machistas e lesbitransfóbicas, empenhada numa educação sexual inclusiva como resposta ao conservadorismo.

Durante a construção da Greve Feminista questionámos a própria ideia de produção. Sabemos que para existir esse mundo a que chamam o da economia real, monetária, tem de haver um “outro oculto”, que é o da reprodução, o dos trabalhos invisibilizados, dos cuidados, dos trabalhos não remunerados, que mantêm a vida e que a salvaguardam. Por isso declarámos greve aos cuidados, greve a todos os trabalhos invisíveis que sustentam o sistema capitalista, o que implicou um debate nas casas onde vivemos e que obrigou a procurar soluções, nem que fosse por um dia ou por umas horas. Por isso esta manifestação não foi só uma manifestação, foi um tempo em que cada minuto era um combate, um tempo em que estivemos juntas a tomar as ruas, um tempo em que largámos os tachos e tomámos a palavra.

Desde o feminismo grevista identificamos que o processo de acumulação de capital faz-se também à custa da depredação do ecossistema. Afirmámos que a própria ideia de produção é enganosa, pois neste planeta fechado e finito não produzimos nada, ao invés, extraímos o que já existe, utilizamos energia para o fazer, geramos resíduos e emitimos energia degradada. A economia capitalista nega a ecodependência e ignora que sem um ecossistema vivo nada somos, pelo contrário, promove a ideia de que viver bem é ter cada vez mais para consumir. Por isso convocámos uma greve ao consumo, promovendo o debate sobre a origem e os processos de produção das roupas que compramos e dos produtos que consumimos, na tentativa de uma vida mais sustentável.

A construção desta Greve foi uma demonstração de maturidade, onde múltiplas e diversas opiniões se expressaram em prol de um objetivo comum, onde mais de 30 coletivos se juntaram e onde a mensagem sempre foi clara: o feminismo é participação. Estivemos nas ruas contra as violências machistas e contra os atentados à justiça levados a cabo pelo juiz Neto de Moura. Contribuímos para a criação de uma maioria social que condena e censura a injustiça machista. E não desistimos desta batalha, porque ela é fundamental para a consolidação da democracia e sobretudo para proteção das vítimas.

Agora começa o debate sobre a Greve Feminista Internacional de 2020. Queremos construir um movimento cada vez mais forte, transformador e abrangente, onde todas as organizações e coletivos têm espaço, uma Greve Feminista sem dona nem dono, porque o feminismo é liberdade.