“Mexicanas y Mexicanos, viva la independencia! Viva Miguel Hidalgo y Costilla! Viva Josefa Ortiz Téllez Girón! Viva José Maria Morelos y Pavón! Viva Leona Vicario! Viva Ignacio Allende! Viva Gertrudis Bocanegra! Viva Vicente Guerrero! Viva Manuela Molina, la capitana! Vivan las heroínas anónimas! Vivan las heroínas y héroes que nos dieron patria! Vivan las mujeres indígenas! Vivan nuestras hermanas y hermanos migrantes! Viva la dignidad del pueblo de México! Viva la Libertad! Viva la Igualdad! Viva la Democracia! Viva la Justicia! Viva México libre, independiente y soberano! Viva México! Viva México! Viva México!”
Claudia Sheinbaum, Grito da Independência 15 setembro 2025
Construir uma narrativa hegemónica
Pela primeira vez na história do México, o tradicional Grito de Independencia foi proclamado por uma mulher, a atual presidente do país, que nomeou mais mulheres que homens, reconheceu o papel das heroínas anónimas e reafirmou o México, livre, independente e soberano. Este vídeo circulou as redes mundiais e foi um marco para o país. A praça do Zócalo, uma das maiores praças a nível mundial, estava repleta de populares emocionados numa cerimónia rigorosamente e intensamente apetrechada de símbolos: a nomeação das mulheres pelo nome de solteira, de mais mulheres que homens, das heroínas anónimas, das mulheres indígenas e dos migrantes. A saia da atual comandante das forças armadas era lilás, quem lhe entregou a bandeira foram oito mulheres, e o quadro de fundo no vídeo que circula nas redes a aproximar-se da varanda é um retrato de Leona Vicario, uma das poucas heroínas nacionais reconhecidas. Tudo pensado ao pormenor para o “ano da mulher indígena”, para um Governo que tem pela primeira vez um Ministério das Mulheres e que desde 2018 tem, na constituição da cidade, o direito ao cuidado inscrito no documento fundamental.
Este é um marco no percurso de um partido-movimento recente, Morena, que resgatou o país de um conjunto de governantes do PRI [Partido Revolucionário Institucional, herdeiro longínquo da Revolução mexicana e que se desvirtuou na segunda metade do Séc.XX, e do PAN [Partido da Ação Nacional] conservado e que governou o país entre 2000 e 2012. Esse projeto tem um nome e todo um conjunto de slogans que se começaram a formar na coligação dirigida por Andrés Manuel López Obrador em 2006 “Coligação pelo bem de todos”. No país parece não existir quem não tenha ouvido falar de “Quarta Transformação” ou “La 4T” começada por Manuel López Obrador e sobre o segundo nível dessa transformação que Cláudia Sheinbaum Pardo representa. Nem tudo foram rosas para aqui chegar e o percurso e mitologia que rodeiam o projeto da 4T é bem conhecido dos seus militantes e dirigentes. Esta mulher cientista que ganha a disputa interna no seu partido e sai vitoriosa no país como presidente em 2024 tem no seu antecessor o grande projetista da transformação do México. Manuel Lopes Obrador tem um percurso político e intelectual longo e reformula a história com a sua leitura para uma outra entidade cultural que retirasse da hegemonia a lógica neoliberal. O mito da construção do México livre – e livre de Espanha ou dos Estados Unidos – enquadra-se nessa continuidade, desde a Independência, à Reforma, à Revolução mexicana, da qual este período histórico que atualmente se vive é instituído como a 4ª onda de rutura. Se Miguel Hidalgo é o “caudilho” (que no México se utiliza como homem providencial) da primeira, Benito Juárez o homem providencial da segunda que resulta da instituição de uma constituição em 1857, e a terceira, mais reconhecida, com os zapatistas e Emiliano Zapata, que leva à instituição da Primeira Constituição Social em 1917, primeira a incorporar as 8h de trabalho, direito à greve, salário mínimo e que institui a Reforma Agrária e os “ejidos” e que supera o liberalismo clássico de sociedades e constituições anteriores, ainda antes de Weimar. Manuel Lopes Obrador coloca-se na linhagem dessas revoluções, colocando sob os seus ombros a responsabilidade de não defraudar a promessa dessa transformação, assim como a memória das revoluções. E tem sido extremamente bem-sucedido.
Todo o discurso é cuidadosamente construído para criar essa realidade social e política em que uns símbolos e mitos nacionais são enfatizados e outros ocultados. Lázaro Cárdenas, por exemplo, presidente do México entre 1934 e 1940 não consta nesta história de transformações, apesar de nesse período, mais próximo dos dias de hoje, ter desenvolvido o plano da reforma agrária que distribuiu terras a camponeses e indígenas, nacionalizou as empresas petrolíferas, criou confederações de representação de camponeses e trabalhadores e conduziu uma política antifascista de apoio à República Espanhola e que acolheu dezenas de milhares de refugiados depois da sua derrota.
Manuel López Obrador e os intelectuais orgânicos que deram corpo ao Morena não só lograram inscrever na história uma narrativa rigorosamente trabalhada, como a apetrechou de um conjunto de conceitos que parecem ter origem numa construção literária do mundo, um realismo mágico adaptado à sociedade e política mexicana: “Humanismo Mexicano”, “Igualdade Substantiva”, “Pelo bem de todos, primeiro os pobres”, “Não mentir, não roubar, não trair o povo”, “Revolução das consciências” “austeridade republicana”, “prosperidade compartida” são os conceitos mais relevantes e exaustivamente repetidos para caracterizar o partido, o momento histórico, a sociedade mexicana e o seu líder (e agora, a sua líder). A isto acresce, neste segundo nível da narrativa deste jogo da transformação, orgulho e propaganda – assim como de facto acolhimento popular – à volta da presidente mulher com uma grande visibilidade a políticas públicas – anteriormente inexistentes – de cuidados, de combate à violência de género e direcionadas às mulheres. Nesta vertente, as Utopias de Iztapalapa e Clara Brugada –mentora do projeto e presidente da Cidade do México atualmente – e o Ministério das Mulheres que inicia um processo de um Serviço Nacional de Cuidados são as imagens mais fortemente divulgadas. As Utopias pela transformação espacial e social, assim como a imagem de processo participativo numa das zonas mais pobres da Cidade do México, em que nem adultos nem crianças tinham acesso a piscina ou qualquer forma de prática de natação – e agora ali têm. Existem 16, todas em Iztapalapa todas do período da Governação de Clara Brugada – entre 2018 e 2023. Outros números e políticas sociais são também largamente propagados: mais de 10M – os números diferem e podem chegar a 15M – de pessoas saíram da pobreza, a pensão para maiores de 65 que revoluciona o seu papel social – onde antes não tinham qualquer poder e responsabilidade num estado familialista – a pensão antecipada para mulheres a partir dos 60 como forma de equilibrar o trabalho de cuidados não pago, as bolsas a estudantes e a alimentação escolar para que se mantenham na escola, aumenta, dizem, em diversas frentes, a capacidade económica e a economia interna, ao mesmo tempo que tira pessoas da pobreza.
O mito da criação do partido desenvolve igualmente uma narrativa heroica e à vez popular, tentando incorporar os “caudilhos” ao mesmo tempo que se reivindica dos movimentos populares que, desde o terremoto de 19 de setembro de 1985, se mobilizaram para construir o que viria a ser a oposição ao status quo e que se tornaria – depois de duas fraudes eleitorais (2006 e 2012) e da sua superação – Governo em 2018 e agora em 2024 com larga maioria. Um dos intelectuais orgânicos, escritor e dirigente do partido explica que, nesse momento trágico na Cidade do México, ficou evidente que o partido no poder – Partido Revolucionário Institucional [PRI] – tinha o toque de midas invertido: “em tudo que tocava, transformava em merda” e que o descontentamento foi crescendo e a mobilização social foi ganhando força. É neste contexto, por exemplo, que Clara Burgada ganha visibilidade popular, quando se envolve em movimentos urbanos de reconstrução popular. Não deixam de ser curiosas, no entanto, as contradições dentro do Partido e dentro do aparelho Estatal que Obrador e Sheinbaum herdaram.
Paco Ignácio Taiboo II – responsável do Fundo Nacional de Cultura – descrevia as tarefas fundamentais para o sucesso de Morena, neste empreendimento para a construção de uma hegemonia: reconstruir uma história popular criadora de identidade para a partir de aí se conformar uma identidade futura; a política cultural como a essência da política e a coluna vertebral do aparelho político – dizia ele, “podes ter militantes que te saibam de cor o decálogo ideológico, mas se não tiverem a chama emocional, não servem. Só a chama emocional te leva a submergir no bairro ou a “tragar tierra””; e humor.
Revolução das consciências
O sucesso rápido e algo inesperado de Morena em 2018 e agora novamente em 2024 – embora com maior longevidade na Cidade do México – em que Obrador, Sheinbaum e agora Brugada foram ganhando espaço – trouxe desafios no âmbito da organização do Estado e dos seus “burocratas”, mas muito especialmente relativamente ao crescimento do partido que enfrenta a ação dos denominados “poucos mas ruidosos sapos”, alguns presentes desde a constituição de Morena em oposição ao PRI – de onde López Obrador também vem e ajudou a fundar – e outros que entraram mais recentemente, mas também da necessidade de, por um lado, formar na lógica da 4T os diferentes administradores públicos e políticos – a todos os níveis da intervenção pública – e ainda da necessidade de garantir uma estrutura do partido mais robusta e capaz de se solidificar e proteger apesar deste rápido crescimento. Para isso, instituíram um Instituto Formativo – Instituto Nacional de Formação Política de Morena -, têm vindo a fazer caravanas de rodagem pelo país a cadastrar e entregar cartões a militantes e fazem porta-a-porta quer no partido quer nas estruturas da administração (principalmente na Cidade do México). O resultado destes dispositivos ainda está por ser compreendido, mas a mensagem parece passar.
Contradições latentes
Todo este processo tem tido – ainda que pouco expressivos – laivos de contestação, seja porque o regime comunal de propriedade da terra “ejido” alterado em 1992 não foi reposto, seja porque se denuncia acordos com os atuais militares, anteriormente mercenários de desaparecimento de ativistas e população indígena, e em que se lhes entrega o controlo de projetos económicos estratégicos com implicação e contestados em territórios indígenas. Mais evidente a contradição fica quando no interior do partido existe uma aversão à crítica que surge desses setores mais radicais da sociedade situando-os no mesmo ataque desferido por forças políticas de direita ou extrema-direita (comigo ou contra mim). Justifica-se muitos dos impasses com o vizinho “louco e Nazi” que obriga a “alianças com a agroindústria mexicana para fazer frente às tarifas”. As questões da propriedade e do combate à gentrificação na Cidade do México, do modelo energético privado e altamente dependente dos Estados Unidos, assim como da manutenção e aposta em grandes projetos de desenvolvimento industrial nos denominados Polígonos de Desenvolvimento para o Bem Estar (PODEBIS), tal como o Projeto Integral Morelos (gasoduto, aqueduto e termoelétrica), o Tren Maya e o Corredor Interoceánico – Istmo de Tehuantepec, são questionados por movimentos que acompanham o seu impacto nos territórios e dos ativistas que continuam a desaparecer – embora em menor expressão. Existe uma ameaça evidente vinda dos Estados Unidos que não pode ser escamoteada, mas López Obrador governou num período anterior em que a lógica do caudilho heróico e providencial poderia ter sido por si desmontado, avançando mais profundamente na revolução das consciências e na emancipação política da população. Veremos como endereçam as contradições assim que materialmente se tenha alcançado os limites permitidos pela dependência económica.