“Ir à IV”: Notas sobre a participação da Rede Anticapitalista no 37º Acampamento Internacional de Jovens Revolucionários

Raquel Lindner

 

“Ir à IV” é para muitas de nós uma expressão familiar. Escutamo-la no decurso dos nossos trajetos militantes em alusão a um lugar de formação, recriação e partilha da nossa identidade política. “Ir à IV”, isto é, “ir ao acampamento da IV”, é para diferentes gerações de jovens anticapitalistas expressão de uma possibilidade de encontro com centenas de outres jovens militantes que lutam pela transformação radical do mundo a partir de uma perspetiva feminista, queer, ecossocialista, antirracista, internacionalista.

Após dois anos de interregno forçado, este Verão voltámos a “ir à IV”. Dinamizado pelo Secretariado da IV Internacional, o Acampamento Internacional de Jovens Revolucionários retomou a sua 37ª edição em Vieure, França, entre os dias 23 e 29 de Julho, tendo como anfitrião o NPA – Nouveau Parti Anticapitaliste. Alicerçado num modelo de organização autogerida, a edição deste ano contou com cerca de 200 participantes, organizades por 12 delegações. Cinco elementos formaram a delegação da Rede Anticapitalista, a única delegação portuguesa.

Palestras e workshops estruturaram o programa formativo do acampamento ao longo de seis dias. A urgência na edificação de uma agenda ecossocialista no combate à crise climática, provocada pelo sistema de produção e de consumo capitalista, ocupou o primeiro dos dias do encontro. Outros dias do acampamento dedicaram-se à discussão da atual frente autoritária neoliberal que irrompe pelo mundo, dos seus efeitos políticos polarizantes, do lugar da organização partidária e juvenil e da solidariedade internacional no seu combate. As identidades – de género, sexuais, étnicas e raciais – tomaram igualmente centralidade no programa. Aquilo que somos, a matéria que instituí e com que constituímos a nossa identidade, posiciona-nos sobre sistemas materiais de relações sociais que atuam na manutenção e reprodução do sistema capitalista. O caso da greve das enfermeiras dinamarquesas durante a crise pandémica, a luta das pensionistas contra a alteração da idade de reforma das mulheres na Suíça ou a organização laboral de pessoas migrantes em situação irregular no Sul da Europa constituíram valiosos momentos de partilha no acampamento, assim como expressões primordiais de como a identidade se pode determinar axial à organização anticapitalista dos nossos dias.

Ainda espaços mistos e não-mistos – das mulheres, LGBTQI+, racializado – e comissões permanentes – ecossocialista, antifascista e conflito russo-ucraniano – compuseram o programa do acampamento enquanto arenas estratégicas de encontro entre diferentes ativistas para partilha de experiências de organização e discussão de novos trajetos de resistência. Construir um movimento feminista mais inclusivo ou descolonizar os nossos espaços militantes a partir de um exame das estruturas de privilégio sob as quais estes se constroem desenham-se desafios comuns às distintas frentes de luta anticapitalista.

As reuniões interdelegações constituíram igualmente importantes espaços de diálogo durante o encontro. Nestas, teceram-se solidariedades, forjaram-se pontes mas, também se identificaram contrastes – se há o que nos une e aproxima, questões como a solidariedade armada no caso do conflito russo-ucraniano ou a recusa de participação em alianças e/ou modelos de partidos políticos alargados à esquerda traçam entre nós descontinuidades.

“Ir à IV” é, necessariamente, voltar da IV com mais que aquilo que partimos. Trazemos connosco laços de solidariedade, formas alternativas de organização, novos horizontes de resistência, memórias de abraços e afetos entre amigues e camaradas. “Ir à IV” é voltar com a certeza e confiança do projeto político anticapitalista, com a alegria e com a vontade de fazer a luta toda. “Ir à IV” é, sobretudo, voltar com o entusiasmo de voltar a “ir à IV”. Como tantas vezes se gritou: que viva a IV Internacional, a nossa revolução será mundial!