Israel: o macho retrossexual

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Artigo de Shahd Wadi.


«O que vai acontecer ao nosso machismo e à nossa testosterona que Tamimi esmagou tão facilmente?», perguntou o jornalista Gideon Levy depois de a menina palestiniana Ahed Tamimi ter dado um estalo ao soldado israelita expulsando-o da sua casa (Haaretz, 21.12.2017). Ahed não foi presa no momento, como costuma acontecer. O soldado nem sequer fez uma queixa sobre o incidente quando regressou à sua base. Não foi a suposta “agressão” da menina que deu origem mais tarde à sua detenção e ao seu julgamento. A razão foi, na realidade, o vídeo que a mãe da Ahed publicou e que mostra que o soldado “forte e invencível” é confrontado sem medo por uma menina de mãos vazias. Esta menina de caracóis loiros ousou danificar o “mito israelita de masculinidade” e, por isso, ela e a sua vila inteira foram castigadas.

A propaganda israelita da ocupação é, em grande medida, sexual e é exercida através da exibição de uma certa imagem dos soldados. O discurso militar erotiza o conflito e representa os soldados como homens de forte virilidade. O exército israelita já tinha anunciado que as fotografias estão a ser utilizadas como parte da sua propaganda.

Durante a operação “Chumbo fundido”, em Gaza, a Instagram foi utilizada para publicar fotografias dos soldados em ação, para a localização de batalhas e outros assuntos relacionados com o ataque. A Instagram não tinha sido apenas utilizada como ferramenta pessoal durante o ataque, mas também como um instrumento político utilizado pela narrativa propagandística israelita. Enquanto antes até a utilização das redes sociais pelos soldados estava controlada, agora, pelo contrário, é direcionada para os mass media, o que prova que é aproveitada e utilizada como parte da propaganda israelita. Mais ainda: as Forças de Defesa de Israel (IDF) publicaram um vídeo a convidar os soldados a “melhorar a sua imagem” on-line através das redes sociais, incentivando-os à divulgação de momentos pessoais que são assim integrados na máquina de propaganda.

Numa das fotos de um soldado, a arma foi posta de forma a tomar o lugar do seu pénis para representar o que é supostamente a sua “masculinidade”, construída pelo seu falo. Este símbolo fálico (a arma) também é o “instrumento” com o poder de “violar” a Palestina e o povo palestiniano. Noutras palavras, esta foto é como quem diz: ser homem é defender a nação com a arma e com o falo.

Muitas das fotografias publicadas mostram soldados quase nus, com corpos que seguem um certo modelo hegemónico de “homem forte”, másculo e militar. O modelo do israelita corresponde especificamente a essa imagem: “um homem moderno com arma”.

A narrativa israelita nacionalista sexual também aparece nos projetos de arte financiados indiretamente pelo Estado, algo que podemos observar, por exemplo, no trabalho do grupo Artists 4 Israel. O grupo recebe financiamento de Jewish National Fund, uma organização para-governamental, responsável pela plantação de parques florestais nos espaços de vilas e aldeias palestinianas destruídas, desta forma apagando qualquer evidência da sua existência prévia, assumindo assim um papel importante na limpeza étnica da Palestina histórica. O grupo Artists 4 Israel costumava fazer tours internacionais com o título DTF. Como se pode ler num dos folhetos que publicita os eventos, o significado desta abreviatura é Demand the Facts, Defeat the Fanaticism, Down To Fuck, Diversity Triumphs over Fear. O folheto afirma que Israel está a lutar contra o suposto terrorismo e fanatismo (palestinianos) e contra os supostos factos errados sobre o conflito e, particularmente, que Israel é um país “moderno”, “democrático” e sobretudo, é o país da “liberdade sexual”.

Neste contexto, a narrativa sionista israelita alega confrontar o fanatismo e o terrorismo com a liberdade sexual israelita, algo que também foi abordado pelo mesmo grupo num projeto numa discoteca em Ibiza. Neste evento, foram distribuídos centenas de preservativos masculinos desenhados pelo grupo, nos quais se podia ler a seguinte frase: Fuck it, I love Israel. O amor por Israel é sobretudo sexual. Ter potência sexual (masculina) e ter ferramentas sexuais está ligado ao amor e à pertença a Israel. Esta potência sexual é, simetricamente, oposta à simbólica impotência sexual palestiniana.

Em 2005, Israel começou uma campanha, a que chamou “Brand Israel”. A campanha foi dirigida aos jovens entre os 18 e os 34 anos, com o objetivo de transmitir uma imagem de um Israel “moderno”, como parte da hasbara israelita. Hasbara é uma palavra em hebraico que não tem possibilidades de tradução direta para outras línguas. Significando literalmente “explicação”, diz respeito, de facto, àquilo a que se tem chamado “diplomacia pública”, ou seja, trata-se simplesmente de propaganda pró-Israel. Foram criados muitos programas como parte da hasbara israelita.

Mais tarde, foram adicionadas ao plano da campanha ações de aproveitamento da comunidade gay para mudar a imagem de Israel a nível internacional. Por outras palavras, mudar a imagem de um país em conflito para uma imagem de país-oásis para refúgio dos homossexuais. Os direitos LGBTQ têm vindo a tornar-se uma ferramenta muito útil para as relações públicas de Israel, isto é, os direitos LGBTQ desempenham um papel na política internacional, projetando a autoperceção de Israel como um Estado comprometido com a igualdade sexual, facto que é utilizado para justificar uma política de exclusão e opressão.

Ligar o mundo árabe ao desrespeito pelos direitos das mulheres e dos LGBTQ surge aqui como uma estratégia para ocultar as violações dos direitos humanos do povo palestiniano por parte de Israel, nação que assim projeta a imagem de um “Israel moderno”. Esta prática foi designada por alguns grupos queer como pinkwashing (branqueamento rosa). Através do pinkwashing, Israel manipula e constrói uma imagem de Estado moderno e progressista e de porto seguro para a comunidade LGBTQ, ao contrário da Palestina e do mundo árabe, um mundo alegadamente de “homofóbicos bárbaros e repressivos”. Invocando a definição de “humano” da filósofa Judith Butler, podemos dizer que esta estratégia transforma os ataques israelitas numa “guerra justificada” contra uma “cultura sanguinária”, uma representação que nega a humanidade de determinados tipos de seres “humanos”, atribuindo-lhes uma vida cujo fim não merece o choro.

Esta imagem de um “Israel moderno” e “gay friendly” não anula a imagem simbólica de Israel como macho com virilidade e amplas capacidades sexuais; pelo contrário, reforça-a. A tolerância e a aceitação LGBTQ são apenas para alguns homossexuais, os que se comportam como cidadãos da nação, cidadãos criados à custa do “outro”, esse outro que nunca pode fazer parte da nação. É neste contexto que a teórica queer Jasber Puar fala de homonacionalismo. Trata-se de uma prática que regula e controla quem pode ser visto como um bom cidadão gay e reforça os estereótipos sexuais e raciais, assim como a exclusão. Também o que a Puar chama homonormatividade reforça a ideia de um Estado onde as pessoas LGBTQ são sobretudo brancas, de classe média e nacionalistas, ou seja, copiam a heteronormatividade da nação; têm acesso à cidadania à custa de outras identidades que a ela não têm acesso.

O Estado israelita apoia a emancipação dos gays e a emancipação do serviço militar, “sair do armário” significa, para o Estado, também declarar o desejo de participar na guerra. Ou seja, só pode sair do armário um gay que sirva a nação e que precise da proteção militar contra o “outro” bárbaro e homofóbico, que ameaça a hetero/homonormatividade da nação. Na maior parte dos filmes e sites que promovem os direitos LGBTQ, a imagem é quase sempre a mesma: um gay branco, israelita, judeu, do sexo masculino. São quase inexistentes as imagens de lésbicas e são mesmo apagadas as figuras de gays árabes. Este abuso dos direitos LGBTQ para aproveitamento nacionalista é um ganho duplo para a narrativa israelita justificar moralmente a ocupação, através da imagem de um homem, seja gay ou heterossexual, que tem as características de um modelo retrossexual.

O termo retrossexual apareceu como resposta ao termo metrossexual cunhado pelo jornalista britânico Mark Simpson. O termo é um derivado composto das palavras metropolitano e sexual e foi utilizado para designar o homem urbano que se preocupa excessivamente com sua aparência. Por outro lado, o termo retrossexual, que também foi cunhado por Simpson, é usado para designar o homem que, ao contrário do metrossexual, se preocupa em ter uma aparência mais rude, um estilo e uma atitude de macho menos urbano, à moda das tradições “masculinas” antigas (retro). A aparência do homem retrossexual, por oposição à imagem geral do metrossexual com as unhas arranjadas e a t-shirt cor-de-rosa, tem aspeto mais “agressivo”, com barba de três dias ou até de bigode e com roupa mais clássica. Ambas as imagens são atualmente vendidas na publicidade de bens de consumo.

No caso israelita, o homem retrossexual tem uma aparência militar: as feridas de guerra e a atitude violenta fazem parte do seu estilo. Israel aproxima-se de um público ocidental e vende uma certa imagem – enquanto, ao mesmo tempo, promove a sua narrativa nacionalista –, que faz deste mesmo homem um israelita “macho”, um militar forte, viril e sensual, mas violento contra os “inimigos” quando é necessário.

Israel utiliza o sexo e o nudismo como parte da propaganda oficial. Uma das fotografias publicadas, no contexto já explicado, é a de dois soldados que não estão apenas a posar nus, mas a despir sugestivamente a sua farda do exército. O uniforme e a referência subtil ao exército fazem parte da sensualidade e do nudismo. A sua aparência é de retrossexuais, com corpo de modelo, mas não depilado. Ambos têm bigode – as pilosidades, mais ou menos excessivas, ainda têm um forte poder para representar a masculinidade hegemónica. Servindo-se do termo sporn, utilizado por Mark Simpson para designar as estéticas pós-metrossexuais usadas no desporto e nos anúncios de produtos para vender um certo tipo de corpo de homens, o blogger Benjamin Doherty aplica-o especificamente à guerra israelita, utilizando a designação war sporno, alargando a sua definição para incluir a “pornografia bélica” do exército israelita, que utiliza os corpos para erotizar o militar, deslocar a violência usada contra os palestinianos, encorajar os públicos do Ocidente a identificarem-se com os soldados israelitas e para identificar os soldados israelitas com essas imagens publicitárias do corpo humano, atraentes e disseminadas.

A war sporno israelita serve especificamente para construir uma imagem de Israel como um macho retrossexual, forte e violento contra o mal. Uma imagem que é facilmente desmantelada por uma bofetada que nos diz: uma menina palestiniana de cabelos loiros e olhos azuis, armada apenas com sua causa, é mais poderosa que um invasor armado dos pés à cabeça.


Nota: Parte deste artigo foi adaptado do meu livro Corpos na Trouxa: Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio.