Jesus Cripto, o messias das criptomoedas

Nota introdutória: De entre as várias tragédias com que nos deparámos no ano de 2022, a recente crise no mercado das criptomoedas é certamente a mais grave de todas. Á redação da Anticapitalista chegam todos os dias relatos do horror vivido por gente que deposita a sua fé e o seu dinheiro neste tipo de ativos. Há até rumores de que, se o valo da Bitcoin não tivesse caído para metade, a Iniciativa Liberal teria batido a proposta do Chega pela compra da sede do CDS…A nós, só nos resta respeitar a fé de todos os que acreditam nesta religião. Publicamos, por isso, aqui a vida inspiradora de Jesus Cripto, o messias das criptomoedas.

 

Jesus Cripto nasceu em Belém, mas foi logo viver para Cascais como todos os meninos betos da sua geração. Ainda pequeno, refastelado na alcofa do apartamento na Quinta da Marinha, recebeu a visita de três tios magos, que vieram trazer presentes e ensinar à criança que a gente chique só dá beijinho de um dos lados da cara. 

O primeiro a chegar foi o tio Melchior, que trouxe incenso para disfarçar o cheiro da fralda. Mais tarde, chegou o tio Gaspar, regressado de férias da Comporta, com cinquenta gramas de mirra que tinha comprado numa Sunset Party julgando tratar-se de estupefacientes. Por último, chegou o tio Baltazar, carregando um envelope com um enigmático QR code, que fazia lembrar um menu de restaurante. A criada Lucinda, preparando os cocktails, alertou: “a senhora já me mandou fazer o jantar, não precisa de encomendar nada de fora”. O tio rapidamente esclareceu que, afinal, aquilo era uma carteira de Bitcoin para a criança.

Perante o inesperado criptopresente, o menino indignou-se. “Esta prenda ainda é pior do que a mirra!… Não era suposto ser ouro?”. Foi então que o tio mago, com ar empreendedor, explicou que há uma teoria que diz que as criptomoedas são uma forma moderna de acumular valor. “Segundo o jornal ECO, vão substituir o ouro no século XXI”. O menino entusiasmou-se!…  Já a criada Lucinda foi ligar ao dentista a pedir para trocar o seu dente de ouro por um dente de Bitcoin, para manter o sorriso alinhado com as tendências do mercado. 

Com o tempo, Jesus Cripto convenceu-se de que era o herdeiro da palavra santa das criptomoedas. Um dia, tentou explicar à Lucinda que o cripto-negócio também era fundado num livro sagrado, só que organizado digitalmente através de uma tecnologia chamada block chain. “É um livro de registos descentralizado em que toda a gente sabe de tudo e, por isso, ninguém pode enganar ninguém”, explicou o pequeno messias. Para Lucinda, aquilo não fazia sentido, já que a porteira do prédio também sabia de tudo o que se passava e não deixava de ser uma aldrabona. Para além disso, a história do “livro de registos” fazia lembrar-lhe as páginas amarelas. Se fosse para calçar um móvel que estivesse bambo, ainda via utilidade, agora como instrumento de revolução monetária parecia-lhe exagerado. 

Durante a sua vida, Jesus Cripto fez alguns milagres que inspiraram uma série de seguidores. Por exemplo, durante uma festa, transformou o dinheiro que a família tinha nas ilhas Caimão em ativos legítimos transferidos para contas portuguesas. “Isto é melhor que transformar água em vinho”, agradeceu o tio Baltasar no fim da festa.

Num dia trágico de primavera, chegou ao parlamento uma proposta para taxar as criptomoedas, equiparando-as a ativos especulativos. Para reverter a situação, Jesus Cripto organizou uma ceia com os partidos da direita e alguns empresários, enquanto Lucinda partia o pão e o distribuía pelos presentes em forma de tostas de caviar… Porém, o messias foi traído pelo apóstolo Elon Musk, que fez um tweet negativo sobre a Bitcoin, e na manhã seguinte foi crucificado naquela rede social. Felizmente, o governo lavou aos mãos e, ao terceiro dia de votações, Jesus Cripto foi salvo com a rejeição da proposta por socialistas e liberais.