Justiça Climática: A violência na obra de Andreas Malm

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Texto de Andreia Galvão

“E assim continuamos aqui. Erguemos os nossos campos de soluções sustentáveis. Cozinhamos a nossa comida vegan e realizamos as nossas assembleias. Marchamos, bloqueamos, encenamos teatros, entregamos listas de exigências a ministros, acorrentamo-nos, marchamos também no dia seguinte. Estamos ainda perfeitamente, imaculadamente pacíficos. Somos mais agora, por ordens de magnitude. Há outro tom de desespero nas nossas vozes; falamos de extinção e da ausência de futuro. E os negócios continuam, como de costume. 

Em que momento é que escalamos? Quando concluímos que chegou o momento de tentarmos também algo diferente? Quando é que começamos a atacar fisicamente as coisas que consomem o nosso planeta e as destruímos com as nossas próprias mãos? Haverá uma boa razão para termos esperado tanto tempo?” 

Andreas Malm, How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on fire, 2021 

Andreas Malm é um autor sueco e professor de ecologia humana na Lund University. É um marxista descrito pela Naomi Klein, autora do “This changes everything”, como um dos pensadores mais criativos sobre o tema das alterações climáticas. Tem lançado livros sobre o tema desde “The Progress of This Storm: Nature and Society in a Warming World”, “Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming”, mas foi, no entanto, a obra “How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on fire” que mais marcou o movimento climático. Malm escreveu uma obra sobre a qual toda a gente tinha algo a dizer: desde críticas ferozes a apoios radicais, a obra demonstra a capacidade de ter encapsulado a imaginação do movimento climático. 

Para entender o motivo é preciso, primeiro, compreender o momento da discussão no qual se encontra o movimento. As marchas de 2019 marcaram uma nova onda de mobilizações climáticas, ganharam atenção mediática como poucos movimentos o terão feito e criaram protagonistas políticas onde não existiam: essencialmente jovens de classe média do Norte Global. Foram espaços de formação de uma geração de ativistas no plano teórico e pragmático e parecia um espaço que estaria aberto à disputa por uma agenda mais radical, descolonizada. O próprio movimento Fridays for Future criou o termo MAPA (most affected people and areas) and LAPA (least affected people and areas) que, apesar de ter uma forma simplista que não tem em conta as assimetrias existentes no Norte e Sul Global, demonstra a necessidade de repensar o modelo de ativista que surgiu em 2019. 

A crise do COVID-19 impactou fortemente a mobilização. Além de ter restringido o número de participantes nas greves, nos momentos políticos também refletiu a ausência de estratégia e de teoria coesa no movimento. Além disso, ficou evidente que o momento existente não se traduziu em mudanças políticas e na resolução da crise climática. As conclusões do grupo de peritos do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas indicam que as cerca de 59 giga toneladas de emissões provocadas pela atividade humana em 2019 são 20 por cento superiores às de 2010 e 54% superiores às de 1990.

Instalou-se o desespero e a desorientação no movimento. O que fazer quando as mobilizações de massas não resultam? Enquanto parte do movimento procura focar-se nas lutas de quem está na linha da frente da crise climática e na importância da participação das classes populares na luta, outra parte entende que o caminho passará por um escalamento da teoria política e de ações concretas mais radicais e mais disruptivas para o sistema socioeconómico. 

Neste segundo campo, encontram-se duas formas de intervenção principais. A primeira será a da ação direta não violenta, exemplificada por movimentos como a Extinction Rebellion, originária no Reino Unido. Em Abril de 2019, o movimento ocupou cinco locais centrais na cidade de Londres, chamando atenção para a mudança sistémica necessária. No entanto, muitos dos elementos têm sido alvos de processos judiciais e o movimento tem sido interpretado na opinião pública por “fanatismo climático”. Apesar das críticas ao movimento, é inegável a sua importância na consciencialização sobre o tema e os seus limites – um movimento que é dependente da atenção dos media e que necessita da prisão dos seus membros não se pode sustentar para sempre. 

Andreas Malm tem também explanado sobre os limites deste movimento, que demonstram a fixação do movimento com a não-violência, fetichizado-a como a única forma de resistência, interpretando de forma errada a história da democracia e das políticas de libertação (estende essa crítica também à GreenPeace). Propõem, ao invés disso, uma solução: um movimento coordenado globalmente de sabotagem a infraestruturas poluentes. Nas suas palavras exatas Colocá-los fora de serviço, separá-los, demoli-los, queimá-los, explodi-los. Que os capitalistas que continuam a investir no fogo saibam que as suas propriedades serão destruídas”. Ele refere, no entanto, a violência contra pessoas como absolutamente inaceitável.

O facilitismo da violência 

Malm distingue o modo de intervenção que defende de terrorismo, no sentido de considerar que essa definição não se aplica ao género de medo que propõe que se crie. Outro ecossocialista, Alan Thornett, reconhece a importância que Malm tem tido no movimento climático, mas encontra na sua proposta uma tentativa ecológica de criar organizações pseudorrevolucionárias como o Red Army Faction e as Brigadas Vermelhas, grupos nascidos do desespero com a incapacidade de mudar a sociedade. Diz que estes movimentos em nada contribuíram para a criação de movimentos de massa e que foram rapidamente esmagados pelo aparato do Estado. Além disso, tinham herdado a tradição militar do Estado Estalinista e do OLP, tradição que não existe no movimento climático atual. Crítica o atalho proposto pelo autor- e que na força dos nossos corpos não reside a capacidade de mudança sistemática. Para a redução de emissões de gases carbônicos a nível global reconhece que é preciso uma sinergia das forças progressistas, um movimento de massas que transpasse a sociedade e, principalmente, as pessoas e áreas mais afetadas. 

Também aí reside uma das críticas à teoria de Malm. Este modo de intervenção, mesmo que feito somente em conjugação com outras teorias, é exclusiva e repulsiva para muitos dos grupos sociais que mais precisam de ação climática para alteração das suas condições materiais. Podemos desqualificá-las da luta pelas suas vidas? 

Se seguirmos o desafio intelectual proposto por Andreas devemos pensar: onde queremos chegar? Se bombardearmos uma infraestrutura de que modo é que isso se reflete significativamente no corte de emissões? Podem simplesmente voltar a ser construídas, apesar dos grandes custos para os militantes envolvidos neste género de ação? Estamos, verdadeiramente, a mudar as políticas? Talvez, a principal questão seja mesmo a seguinte: podemos abdicar das massas para a luta social? O que isso diz sobre nós- e sobre os nossos movimentos? 

A radicalidade do aventurismo solitário não integra a atual situação da luta de classes na nossa sociedade. Existe isolada de um movimento de massas revolucionário, aproxima-se do eco terrorismo (seguido por pequenos grupos a nível internacional que utilizam um discurso ultra-autoritário), não tem em conta os efeitos colaterais possíveis (como os danos humanos) e, além disso, legitima a utilização do aparato do Estado contra todo o movimento social e contra a própria Esquerda. O fascínio pelas soluções fáceis é contrastado pela aridez da realidade: afinal, para construir força social é mesmo preciso trilhar caminho.