Livro: O Futuro já não é o que nunca foi – Uma teoria do presente, de Francisco Louçã

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Quais são então os pontos das grandes viragem do nosso presente, nestes anos difíceis e tão incertos do século XXI? Há pouco, dir-se-ia facilmente que o acontecimento com mais consequências terá sido a eleição de Trump em 2016. Há boas razões para não secundarizar esse processo, dado que, mesmo com a sua derrota em 2020, o trumpismo ficou e mudou o mapa da política internacional, promovendo Bolsonaro e outras figuras. Ou poderia assinalar-se o ascenso de Xi Jinping, que preside à China desde 2013 e se consolidou no poder, sabendo-se que o reforço do seu domínio e a afirmação do seu país como potência de primeiro plano altera a ordem mundial, mesmo que essa disputa pela hegemonia ainda esteja longe de estar resolvida. Ou poderíamos fixar-nos nas eleições europeias de 2019, que deram vantagem à extrema-direita no velho continente, revelando como se elevam o que até há pouco foram mudanças subterrâneas, ou na substituição de Merkel na Alemanha em finais de 2021. Poder-se-ia igualmente dizer que terá sido, antes disso, a viragem da Google para a exploração dos dados comportamentais dos utilizadores da internet, a partir de 2002, cujos efeitos sistémicos só começariam a ser notados uma dúzia de anos depois. Ou o colapso financeiro de 2008, que levantou o véu sobre a traficância financeira designada como globalização. Ou a pandemia, com maiores consequências, muitas das quais discutirei nos capítulos seguintes.

 

Em todas estas bifurcações, os três movimentos mais poderosos são os de fundo: a potenciação do capitalismo de vigilância, em primeiro lugar, que é impulsionada pelos processos de datificação e plataformização; a multiplicação dos instrumentos da tecnologia da conformação e tribalização, incluindo a necropolítica, em segundo lugar; e, finalmente, a tendência de redução da democracia a espaços de representação cerimonial, polarizando a política por via da bufonaria. Estes três movimentos expressam a estruturação do capitalismo tardio. (…)

 

Nele, toda a vida passaria a ser dados, toda a comunicação passaria a ser online, toda a relação social passaria a ser na rede. Neste contexto, a plataforma é o centro da produção de bens e conhecimentos em que nos reproduzimos a nós próprios como dados, gerando uma acumulação de excedentes através da criação de valor e também da extração de informação monetarizável sobre a nossa existência. A datificação da nossa vida sob o capitalismo tardio é a forma mais completa, portanto mais totalitária, do poder social. Essa nova dimensão da alienação promove a ilusão da identidade, a rede é também um lugar de devaneio. Sérgio Buarque de Holanda, no seu clássico Raízes do Brasil, chamava bovarismo a uma forma específica de negação do real e à sua substituição por uma fantasia, inspirado pela figura literária da Madame Bovary. A fantasmagoria contemporânea talvez seja mais vasta do que esse bovarismo ingénuo e narcísico, pois é impulsionada por uma tecnologia de amplificação que absorve mais de metade da população planetária. Nunca houve um poder tão universal na história da humanidade.

 

(extrato da introdução do livro)