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Artigo de Ana Bárbara Pedrosa.


Hoje, excepcionalmente, podem chamar-me Ishmael. Há uns anos – não importa quantos –, com pouco dinheiro no bolso e nada que me interessasse em terra firme, sentei-me no sofá com um impulso fervilhante. Era a forma que tinha de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me angustiava, sempre que a hipocondria levava a melhor sobre mim, sabia que estava na hora de me fazer à leitura o mais depressa possível.

Afinal, o tempo importa: foi há quinze anos que conheci Ahab. Ao leme do Pequod, ali estava ele, ao longo de mais de mil páginas, dentro do seu casulo a obcecar com Moby Dick. O cachalote, claro, seguia a sua vida como assim tinha de ser, lançava-se pela água como era o seu destino. Talvez encontrasse paz no fundo do mar, o problema era haver aquele homem à tona que queria vingar-se pelo bocado de carne que lhe arrancara de uma perna.

Hoje é quase impensável pensar que aquele romance pode ter sido escrito, e na altura também foi. Publicado, foi um falhanço durante muitos anos, só foi aclamado após a morte de Melville, no século XXI.

Ao lê-lo hoje, contudo, interessa a obsessão como destino, ver como um mundo que parece confinado se acende na importância dada ao que Ahab escolheu como pulsão.

Haverá um dia em que o covid chegará em bruto à literatura como chegou às nossas vidas. Afinal, o isolamento social e psicológico é um tema recorrente na arte e as ameaças externas também fascinaram muita gente. Da distopia à ficção científica e ao existencialismo, o tema não só não se esgota como ainda enche prateleiras.

Se a falta de alguém também fez com que se gastasse e mastigasse o Romantismo, também não será de somenos relembrar que, para alguns, o inferno são os outros. Sartre escreveu-o em 1944 e a frase vincou-se na memória da história da literatura como se vincara a apresentação de Ishmael, único sobrevivendo da tripulação do Pequod.

A peça “Huis Clos” mostra-nos uma vida pós-morte em que três personagens chegam ao inferno. Nada de fogos ou diabos, o inferno é um quarto fechado onde os três, isolados, se vêem forçados à companhia uns dos outros. O trio é um conjunto de personagens formidável: Garcin, um escritor que quisera ser herói, mas cuja pretensão de heroísmo foi ultrapassada pela sua cobardia; Estelle, que foge da culpa de ter assassinado o bebé que teve com o amante; Inês, violenta, que procura o sofrimento alheio.

Três humanos têm assim esta visão do inferno: confinados numa sala, são o que os outros vêem. Inês tenta seduzir Estelle, que quer Garcin. A primeira tenta pôr um contra o outro, exibindo as suas falhas. Estelle tenta matar Inês, que ri por já estar morta. A vingança de Garcin é amar uma em frente à outra.

Ali, o inferno não é apenas o estado de isolamento, é não haver para onde fugir. E é não haver isolamento no seu estado absoluto, havendo a imagem de outros, e havendo a imagem de outros sobre os próprios. Neste cenário, não há escapatória: o inferno são os outros.

Sendo o inferno o que falta e o que resta, a vida será ali pouco mais do que a gaiola de pássaros de asas feridas. Com as mesmas asas inúteis se terão sentido os três homens confinados a uma cela na Cidade do México que José Revueltas, em 1969, descreveu com pleno horror a partir da sua própria cela na prisão de Lecumberri. Ali metidos como pacotes, os homens revezam-se para enfiarem a cabeça por uma portinhola. Procuram não apenas que o oxigénio lhes corra no sangue, respondendo ao seu impulso biológico, mas também seguir a pulsão do exterior, numa massa de anseios que os tortura. Afinal, esperam sem saber pelo quê ou até quando. O autor mexicano acompanha o devaneio do horror do quotidiano em “A gaiola” com traços de oralidade e ominipresença de um confinamento sufocante.

Se eu sou Ishmael, se o inferno são os outros, se uma asa ferida dói mais quando a porta da gaiola está fechada, talvez o paraíso possa ser uma ilha ao sol. Ali foi parar Robinson Crusoe, levado por Daniel Defoe em 1719. Sem mais, Crusoe por ali ficou, só perante o que lhe era estranho, durante 28 anos. Antes de ser resgatado, encontrou canibais e cativos. O livro, que foi ainda o primeiro romance-folhetim, foi buscar inspiração ao naufrágio de Alexander Selkirk, escocês que viveu durante quatro anos numa ilha do Pacífico.

Em diferentes épocas e com diferentes cenários, os escritores puseram a solidão nos centros das narrativas, pondo em perspectiva não apenas o conceito abstracto de solidão, mas também a crueza de alguém a sós. Com o alcance de fazer alguém chegar ao outro, a literatura abriu portas, forjou um caminho à mão. Com a experiência de um confinamento colectivo como novidade quase absoluta, os passos que vierem terão de ser inaugurais.