Manual para antifascistas emocionais

Artigo de Antonio Maestre

VOX é a excrescência pátria dos movimentos antiliberais de
extrema-direita que há anos se consolidam na Europa. Singular e com as
mesmas diferenças e semelhanças dos seus congéneres europeus. 

Durante anos, quem se atrevesse a dizer que em Espanha não
havia um partido de extrema direita porque já existia o Partido Popular
deparava-se com o desprezo de todos os que viviam de o branquear para
saltar à jugular do antissistema que se atrevera a mostrar a evidência
histórica. Era irrelevante que esse mesmo partido o reconhecesse nos
seus documentos internos, que dissesse que para atrair esse eleitorado
era preciso instigar um discurso xenófobo, que tomara decisões tal e
qual Le Pen ou tivera candidatos como Xavier García Albiol, o qual
apelidara os ciganos de pragas. Não era suficiente, porque era preciso
consolidar a ideia que Espanha era um país civilizado, no qual a
extrema-direita era marginal. Era preciso esconder que esta se tinha
metabolizado depois do franquismo, até estar impregnada no partido que
nos governara durante anos.

Felizmente agora, ao menos, começa-se a chamar
extrema-direita à rotura do PP que resultou no VOX, que ganhou 12
mandatos nas eleições andaluzas. Conseguiu-se que Pablo Casado seja
reconhecido como estando confortável com a extrema-direita da
internacional de Steve Bannon na Europa e que Albert Rivera, depois de
se ter coligado com os negacionistas do holocausto, mesmo tendo erguido a
bandeira do antifascismo contra Le Pen para apoiar Macron, está
disposto a aceitar o apoio da ramificação espanhola de Marine Le Pen e
Matteo Salvini. As cartas estão na mesa. Mas perdemos mais. Muito mais. 

A aparição descarnada de um discurso autoritário de
extrema direita, que procura fazer recuar direitos historicamente
conquistados por grupos de população oprimida, é sempre uma notícia
terrível. É-o mais ainda pela capacidade que tem de suscitar, na opinião
pública, o surgimento de discursos retrógrados capazes deslocar as suas
posições para os partidos da direita tradicional, para tentar evitar a
fuga de votos para o partido mais radical e extremista. O escritor  HYPERLINK

“https://www.amazon.co.uk/s/ref=dp_byline_sr_book_1?ie=UTF8&text=Eir%C3%ADkur+%C3%96rn+Nor%C3%B0dahl&search-alias=books-uk&field-author=Eir%C3%ADkur+%C3%96rn+Nor%C3%B0dahl&sort=relevancerank”
Eiríkur Örn Norðdahl, em Illska: la maldad,
descreve-a de forma precisa: «Quando os partidos populistas começam a
consolidar-se, vão enriquecendo o seu vocabulário com empréstimos dos
partidos políticos tradicionais. Os seus dirigentes aprendem a falar com
moderação (em vez de soltarem insultos), aprendem a portar-se como
pessoas e inclusive a entregarem-se nas mãos de estilistas e agentes de
publicidade. Mas mantêm as suas convicções inalteráveis, ainda que, no
lugar de pretos, digam migrantes. Os partidos tradicionais
observam como os extremistas lhes desviam os apoiantes e reagem
aproximando-se do fascismo pela outra vertente (e dizem pretos para se referir a migrantes). Dá a sensação de que existe um caos enorme».

O que é o VOX?

No campo económico, o VOX não é mais do que o programa do Ciudadanos lido aos gritos e com a veia inchada. Liberalização
como panaceia para todos os problemas, extinção dos serviços públicos
mediante a redução da carga fiscal até se tornarem insustentáveis.
Ultraliberais aguirristas que pelo extremismo podem sempre ir
mais além do que os que governam. Redução dos impostos às classes altas,
eliminação da progressividade até que se estabeleçam escalões que não
consideram o rendimento. Além disso, um sistema de pensões mediante
capitalização, semelhante ao idealizado pela Escola de Chicago no Chile,
através de José Piñera e Augusto Pinochet, que propõe o pagamento de
umas pensões que, na sua maioria, não atingem o salário mínimo chileno
de 370 euros. Um sistema de pensões que favorece as grandes empresas e
que condena à pobreza as pessoas idosas chilenas. Este é o ideário
económico do VOX, ao qual o PP e o Ciudadanos se rendem. Vê-lo-emos
quando chegarem a acordos: descidas sistemáticas de impostos que
arruínem os serviços públicos imprescindíveis à vida da classe
trabalhadora. 

No campo político e social, o VOX é a extrema-direita
tradicional espanholista. Aquela que se conformou e mascarou nos anos de
José María Aznar, para se modernizar e livrar do estigma de franquista
indisfarçável com a liderança do ministro de Franco. O VOX é aznarismo
descomplexado, “ao império através de Deus”, mas com Whatsapp. A pior
cara do PP, a que viveu da corrupção, a que se manifestava com a Igreja
contra o alargamento de direitos à comunidade LGBTI, a que acusava
Zapatero de chegar ao Parlamento num comboio manchado por sangue, a que
usava as vítimas da ETA como arma contra o seu adversário, a que falava
em guerra civil quando se tentava devolver justiça e dignidade às
vítimas do franquismo. A extrema direita encapsulada no PP, mas agora
autonomizada. 

O VOX é um conjunto de aristocratas de segunda, de nomes
compostos criados em colégios da Opus Dei e Hazte Oír que perderam a sua
influência no PP de Mariano Rajoy e os seus cargos subsidiados na
Comunidade Autónoma da Esperanza Aguirre, enquanto procuravam,
desesperadamente, o seu nicho para poderem continuar a viver à custa do
dinheiro público que sempre encheu as suas contas. «Mudámos de cores
para não mudar de valores», dizia Santiago Abascal. Um partido
reacionário segundo a versão mais pura da terceira Lei de Newton, que
articulou o seu discurso através de todos os orgulhos feridos e o medo
de perder privilégios e estatuto. O dos supremacistas masculinos contra o
feminismo, o dos franquistas contra a exumação de Franco e, sobretudo,
acima de tudo, o da Espanha das varandas perante os separatistas.
Aqueles que consideram Espanha uma parte indissolúvel da sua identidade e
que sentiram como uma afronta o processo independentista da Catalunha. 

Santiago Abascal Conde

O líder do VOX é o exemplo perfeito do político de
profissão, aquele que não conhece mais recursos a não ser os que emanam
do “papá Estado” ou da herança do seu outro papá, o biológico, um
comerciante têxtil que, desde a morte de Franco, procurou encosto em
qualquer partido de extrema-direita que pudesse facilitar-lhe a vida.
Ambos seguindo o legado do avô, Manuel Abascal Pardo, autarca franquia
de Amurrio desde 1963 e que pode ajudar a entender a inclinação do neto
por manter o legado histórico. 

Não se conhece a Santiago Abascal outra ocupação que não
seja no PP ou em administrações controladas pelo PP. Filiou-se com
dezoito anos nas NNGG [Nuevas Generaciones del Partido Popular] para
fazer carreira e, em 1999, com 23 anos, já fazia parte do comité
executivo do PP em Álava. Um ano depois foi eleito presidente das NNGG
do País Basco. Foi vereador em Llodio e membro do Parlamento Basco até
que a sua fação caiu e ficou sem teta à qual agarrar-se. Foi, então,
resgatado pela Esperanza Aguirre, que o nomeou diretor da Agência de
Proteção de Dados de Madrid, uma nomeação que surpreendeu e indignou
sindicatos e administração, que chamaram a atenção para o seu parco
currículo, uma folha com 23 linhas.

A sua nomeação surgiu quando já era presidente da DENAES, a
fundação para a defesa da nação espanhola, que Santiago Abascal criara
para poder viver dos subsídios outorgados pelas administrações do PP.
Efetivamente, no ano da sua nomeação como diretor da Agência de Proteção
de Dados, a fundação cobrou 60 000 euros a Esperanza Aguirre. Em 2008, a
DENAES recebeu de Aguirre 100 000 euros, enquanto a Associação de
Vítimas do Terrorismo só recebeu 78 000 euros. Santiago Abascal sugou
muitos benefícios da teta de dinheiro público madrileno.

Aguirre, não contente com financiar o seu protegido com
subsídios e cargos, criou-lhe o seu próprio cargo e nomeou-o
diretor-geral da Fundação para o Mecenato e o Apoio Social, um lugar sem
atividade conhecida que, com um orçamento anual de 252 000 euros,
pagava-lhe um salário de 82 491 por ano. Não é coincidência que no mesmo
dia em que a fundação se dissolveu e ficou sem subvenção pública se
tenha constituído o VOX como partido. Reuniam-se as provas. 

A internacional da ultradireita

O partido de Abascal foi criado há quatro anos e nunca
encontrou o seu lugar. Uma cisão do PP sem oferecer nada de diferente do
PP tinha o futuro que estes anos lhe reservaram: um partido marginal e
sem presença relevante. Uma simples corrente do partido-mãe, mas sem
novidade. A verdade é que continua sem nenhum contributo relevante, mas
encontrou um caldo de cultura adequado. Aproveitando a inércia da
extrema-direita europeia e a vitória de Donald Trump, conseguiu
encontrar uma brecha. Usou o processo independentista catalão para
ganhar presença entre as hostes de conservadores, constituindo-se como
acusação popular contra os líderes independentistas. Esse é o seu mérito
e nada teve a ver com Steve Bannon, não obstante, o VOX é a filial
espanhola escolhida pelo ideólogo de Trump na Europa. Abascal encarna,
em Espanha, o seu antiliberalismo. 

Bannon está a tentar criar na Europa uma internacional da
ultradireita e para isso criou uma organização com sede em Bruxelas. O think tank foi
registado pelo advogado belga Mischail Modrikanen, que é quem gere
diretamente as relações com os partidos partidários da organização. Os
contactos incluem a Liga Norte de Salvini, a Frente Nacional de Marine
Le Pen, o Vlaams Belang de Tom Van Griesken, o Democratas Suecos de Per
Jimmie Åkesson, para além de ter como simpatizante Viktor Orbán na
Hungria. Paradoxalmente, há outros partidos de extrema-direita
nacionalista que renunciam ao seu papel, porque consideram ingerência
norte-americana. E o caso da AfD de Alexander Gauland.

O papel do The Movement de Bannon está circunscrito
a facilitar a articulação entre formações europeias que, apesar de
terem muitas coisas em comum, também apresentam grandes diferenças.
Modrikamen assegurou, numa entrevista ao EUObserver, que o seu objetivo
era formar uma associação antagónica à de George Soros, mas a funcionar
da mesma maneira do que a do empresário húngaro. No próximo mês de
janeiro, haverá uma reunião da organização, com o objetivo de coordenar
todos estes partidos para uma ação coletiva conjunta face às eleições
Europeias de maio. 

É precipitado adiantar as movimentações que o VOX possa
fazer em relação a isso, já que já alcançou o objetivo principal: entrar
nas instituições. Já não precisa de Bannon para o conseguir. Agora já
pode começar o movimento de aparente moderação que todos os partidos de
extrema-direita iniciam quando conseguem a representação política que
lhes proporciona recursos económicos, cargos na administração e
cobertura mediática. 

A ligação entre Steve Bannon e o VOX é Rafael Bardají,
porta-voz do executivo do partido ultra e ex-assessor executivo de José
María Aznar, além de diretor da política internacional da FAES
[Fundación para el Análisis y los Estudios Sociales], de 2004 a 2016.
Bardají é um sionista assumido, mantendo excelentes relações com os
republicanos norte-americanos, para além de ter criado, com Pablo
Casado, a Fundação Friends of Israel Initiative em 2010. Porque o VOX é
sionista, como se empenha em demonstrá-o Rocío Monasterio cada vez que
tem oportunidade. Por isso é complicado, para compreender este fenómeno,
compará-lo com os movimentos mais dramáticos da história da Europa do
século XX. Nem do passado, nem contemporâneos. 

Para conhecer o VOX, é imprescindível não tentar exportar
os quadros externos da extrema-direita internacional da qual se
alimenta. É utilitarista, usa o que precisa, mas tem idiossincrasias
endógenas que não são partilhadas pelos grupos com que pretendia
partilhar posições nas próximas eleições europeias. A Frente Nacional de
Le Pen utilizou a mesma tática que o fascismo dos anos 30, um discurso
misto: por um lado, o identitário e nacionalista e, por outro lado, o
trabalhista dirigido às pessoas lesadas pela globalização, aquelas que
perderam tudo menos o seu voto e a quem se indica o inimigo que explica a
situação. 

O discurso da Frente Nacional na região mineira de Lorena, como explica o documentarista Joseph Gordillo no seu filme Mes voisins, chronique d’une élection.
Uma percurso semelhante é seguido por Salvini em Itália, de tal modo
que, inclusivamente, levou uma parte da esquerda europeia a alterar o
seu discurso, de modo a aproximar-se da forma de atuar desta
extrema-direita e assim tentar travar o seu avanço.

Isto não está no VOX, não faz parte do seu discurso. As
suas diatribes contra a imigração ilegal são apenas um complemento de um
discurso ultranacionalista e identitário de âmbito integrista
religioso. É verdadeiramente islamofóbico e não tem tentado aproximar-se
das classes populares com medidas concretas. Os matizes na mensagem
racista dos seus congéneres europeus veem-se na sua relação com os
hispano-americanos, aos que pretendem dar preferência nos fluxos
regulados de migrantes. O muro está virado para Ceuta e Melilla. 

É também muito marcante a relação que têm com o povo
cigano, com candidatos do seu partido na zona de Almeria e celebrando
com ele o dia da etnia romani. Para se distanciarem do rótulo racista,
antepõem o pensamento conservador que pode existir em parte do povo
cigano, o seu sentimento nacional e os valores cristãos em relação à
família. São estratégias comuns nestes partidos, incorporar um membro de
uma minoria para se livrarem do estigma.  HYPERLINK

“https://www.amazon.co.uk/s/ref=dp_byline_sr_book_1?ie=UTF8&text=Eir%C3%ADkur+%C3%96rn+Nor%C3%B0dahl&search-alias=books-uk&field-author=Eir%C3%ADkur+%C3%96rn+Nor%C3%B0dahl&sort=relevancerank”
Eiríkur Örn Norðdahl explica-o em Illska:
«O membro oprimido dos partidos populistas (o imigrante, o muçulmano, a
mulher, a lésbica, o negro) proporciona ao seu partido um álibi e, como
moeda de troca, o oprimido conquista outro; a sua existência no
interior do partido fá-lo participar da escala social multicolorida:
quem se opõe à ralé imigrante não é um imigrante como eles, mas antes um
conservador responsável. E um partido que aceita ralé imigrante, e
inclusivamente os ajuda a progredir e os apoia com orgulho, não é, em
nenhum sentido, um partido nazi». 

VOX e o fascismo

O fascismo do nosso tempo não é o que germinou nos anos
30. Calhou-nos viver uma nova configuração do primitivo da sua
ideologia, o ódio ao diferente e a discriminação da minoria. O
autoritarismo próprio dos antigos fascismos adota novas formas e a
prioridade é evitar que possam chegar a ter a importância suficiente que
lhes permita implementar as suas medidas reacionárias e
antidemocráticas. O VOX é o mais parecido que temos com o fascismo em
Espanha e, todavia, por isso mesmo é contraproducente usar o termo no
combate publico para evitar que se retroalimente dele. 

A polarização do debate é sempre favorável àqueles que se
situam nos extremos do conflito. Fomentar essa polarização é aquilo que,
a partir das margens, quem vive nos extremos tenta fazer e capitalizar.
Essa estratégia foi a seguida e usada pelos terroristas do DAESH. O seu
principal objetivo era dividir o mundo entre os salvadores e os
infiéis, assim só havia duas opções possíveis para os muçulmanos.
Eliminar a zona cinzenta de coexistência no Ocidente entre muçulmanos e
os habitantes dos países era o objetivo principal. A estratégia foi
relatada num artigo publicado na revista Dabiq, o seu órgão de
propaganda, chamado “A extinção da zona cinzenta”. Nele falavam de como
usar a islamofobia para convencer os muçulmanos no Ocidente de que a
única resposta era juntar-se ao DAESH e aos seus princípios. A sua
intenção era instaurar de forma maioritária um sentimento islamofóbico
no Ocidente, para facilitar a incidência da sua mensagem. Isto é,
aqueles que acreditavam combater os terroristas com uma mensagem contra
os muçulmanos o que estavam, de facto, a fazer era a agravar o problema e
a servir os interesses dos terroristas. Aqueles que chamavam terrorista
a qualquer muçulmano acreditavam que era preciso ser implacável no
combate ao terrorismo, quando o que estavam a fazer era a alimentá-lo.

O Vox seria muito prejudicado se Carlos Herrera lhe
chamasse fascista, o mesmo não acontecendo se Pablo Iglésias o fizesse. O
próprio Podemos cresceu no antagonismo das tertúlias contra Eduardo
Inda, sentia-se cómodo cada vez que o difamavam, eram as vozes críticas
da esquerda as que mais o podiam prejudicar e com as que não podia usar
os mesmos recursos retóricos que usava para crescer contra a direita.
Por isso é importante que as pessoas verdadeiramente antifascistas sejam
capazes de adaptar o discurso, de modo a encontrar os pontos fracos da
extrema-direita, para serem mais eficazes e para diluir a aparência de
antissistema que tem um partido como o VOX, que é só retórica vazia de
elites acomodadas. 

É compreensível que quem se considera antifascista reaja
da maneira historicamente aprendida, quando identifica o crescimento da
formação que mais facilmente se assemelha com os movimentos autoritários
e antidemocráticos da nossa história contemporânea. A emoção é difícil
de compreender quando enfrentamos o inimigo mais violento da
diversidade, dos direitos humanos e do respeito pela diferença. De forma
instintiva, socorremo-nos de todos os referentes combativos da nossa
adolescência, de Durruti a Modotti e o “No pasarán”. Sim, é tempo sermos
antifascistas e, por isso, sobretudo por isso, é preciso deixar de
gritar “fascista”.