“Migrante é gerúndio”: as palavras do populismo italiano

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Texto de Asia Leonardi

A 25 de Abril de 1995, cinquenta anos após a vitória da Resistência italiana sobre o regime fascista, Umberto Eco deu uma palestra na Universidade da Columbia, conhecida hoje como “O fascismo eterno” ou “Ur-fascismo”.

Cinquenta anos após a vitória da Resistência, o fascismo ainda não está derrotado, explica Eco, estando à espreita na política do dia-a-dia sem revelar a sua face completamente, mascarando-se nas piadas sorridentes de talk shows, no sarcasmo racista, numa identificação falsificada de uma história que criou os Homens, numa suposta tradição que explica uma nação, e esconde-se atrás do palco manipulando o seu discurso, que em última análise é o que constrói desejos, expectativas, imagens e satisfações.

O Ur-fascismo nasce da frustração, e identifica-se com o grito que dela emerge: àqueles que precisam de uma identidade social, o Ur-fascismo diz-lhes que têm o privilégio mais comum e importante de todos, o de terem nascido no mesmo país, o de terem o mesmo timbre na voz que se pode juntar com o da maioria e tornar-se numa exaltação de raiva coletiva.

O Ur-fascismo une, fabrica um espírito coletivo e para dar um nome a esta “nova identidade histórica”, classifica, simplifica e exclui ao mesmo tempo. Exalta as suas características que diz serem produto da história da nação, mas que na verdade é apenas criada através dos seus discursos. 

A audiência a que se dirige é formada não por indivíduos, mas por um único “estado de espírito”, que se torna cada vez mais forte através do confronto com o que fica de fora: inventa um inimigo coletivo, descrito como o oposto aos seus valores, moral e história. O Ur-fascismo cria esta nova identidade através do combate ao seu oposto, um inimigo que serve de bode expiatório para todos os problemas sociais.

O seu papel político já não é o de educar as massas, nem é parte de um “governo dos melhores Homens” com o intuito de estabelecer um diálogo com as classes menos educadas e longe da política: é antes baseado na aparente obediência aos ânimos (e não ideias) do “povo”.

No entanto, o populismo traz ideias, mas simplificadas num punhado de palavras fáceis, semelhantes a rezas para serem repetidas de cor antes de dormir.

A 4 de Junho de 2015, Matteo Salvini disse, através daquilo que é descrito por Pasolini como “o lugar intocável de um talk show“, que “migrante é gerúndio”. Além da sua ignorância gramatical – migrante, antes de mais, é um particípio presente em italiano – aquilo que choca é o ódio que subjaz nas suas palavras: Migrante é aquilo que não merece a nossa atenção a não ser como um problema, migrante não é uma pessoa, mas uma forma verbal mal aplicada na televisão, que nem possibilidade de resposta admite. Migrante é o que é percepcionado como um conceito de perigo, migrante é o que sentimos ser diferente de nós, migrante é a cara negra que nos incomoda quando vamos ao supermercado na nossa cidade. O migrante quando caminha nas ruas não traz consigo a sua própria cara, a sua própria história, mas antes a outra face de um populismo extremo, o bode expiatório. O migrante não tem nome, o migrante é um migrante e migrante é gerúndio.

Num léxico pobre há poucas palavras, há pouco debate, há pouca democracia: só há espaço para preconceitos cegos que não são articulados em pensamentos e linguagem, mas através de uma piada – e uma de mau gosto- perante uma tragédia humanitária.