Mais uma rede social? Que chatice. O mundo era um lugar melhor quando as comunicações eram analógicas. Nos anos 90, se eu combinasse uma distribuição com o meu camarada de hoje a oito dias às 18h da tarde na porta do metro, lá estaria eu, de hoje a oito. E oito dias na verdade eram sete. E pelo meio, a vida acontecia e o compromisso mantinha-se.
Entre os blogs dos anos 2000 e as plataformas da web 2.0 dos anos 2010 surgiram as redes sociais nos formatos mais parecidos aos de hoje. E não podemos dizer que tudo é um mar de amarguras desde o fatídico dia em que passámos a poder apreciar horas intermináveis de vídeos de gatinhos no computador ou no telemóvel. Na verdade, o Bloco de Esquerda foi alvo de rasgados elogios à sua comunicação digital durante anos. Os elogios chegavam ao ponto de trazer para cima de algumas mesas a possibilidade de abandonar a propaganda física como outdoors, mupis, folhetos, cartazes de parede e murais.
Se a divulgação e debate de ideias era tão mais fluída numa thread do twitter (atual X) e se esse novo modelo de engajamento mostrava a sua eficácia em trazer novos militantes e simpatizantes para a orla do partido, só parecia natural a continuidade da transição do espaço propagandístico e de cativação. Mas um dia chegou alguém que prometeu acabar com a bandalheira. E acabou. Ou melhor, transformou-a. Agora somos uns aborrecidos que não sabem fazer ragebait.
Mas façamos um exercício:
Três dados:
- O Bloco é um partido de esquerda, socialista, democrático e revolucionário, que precisa de ter militância organizada para atingir os seus objetivos organizativos e de influência política.
- A propaganda física sempre teve o propósito de convocar cidadãos para a sua organização e a propaganda digital foi uma extensão dessa dinâmica durante alguns anos.
- O surgimento de espaço digital que retém muitas horas de atenção da maioria das pessoas, determina até padrões de consumo de produtos e informações e inaugura setores económicos de serviços digitais.
Pesquisa:
Os partidos, movimentos e organizações políticas da nova esquerda têm em quase todos eles projetos digitais de espaços de militância e até troca de serviços e apoios comunitários.
Vários partidos de esquerda europeus desenvolveram ferramentas digitais próprias para organização interna e mobilização. A France Insoumise criou a Action Populaire, uma plataforma de código aberto acessível a não militantes para coordenação de ações, apostando num modelo de participação alargada. O Podemos foi mais longe na integração institucional com a Participa, incorporada nos próprios estatutos do partido e com funcionalidades de área de militante, pagamentos e gestão por localização geográfica. Na Alemanha, o Die Linke usa uma plataforma que o Bloco também usa para as campanhas Porta a Porta, o Aktivisti, um gestor aberto para qualquer pessoa que queira participar nas campanhas promovidas pelo partido. A SV norueguesa (Partido Socialista da Noruega) desenvolveu uma app unificada que centraliza notícias, eventos, inscrições e área de militante com pagamentos numa só aplicação. O DiEM25/MERA25 mantém uma plataforma interna com fórum de discussão, votações dos membros, calendário de eventos e gestão de eleições internas. E há um padrão na estrutura: estes partidos investiram em infraestrutura digital própria, seja como plataforma aberta, seja como ecossistema modular, seja como app integrada, em vez de dependerem de ferramentas comerciais externas.
A campanha de Zohran Mamdani também usou sistemas de organização e trocas fora das plataformas comerciais do establishment, embora motivado por questões específicas como a ameaça de repressão federal às instituições de governação local por parte da Aministração Trump, para garantir um sistema de engajamento próprio. Também foi útil para contornar os limites de financiamento da campanha. O instrumento Zetro Card serviu na sua versão original como um cartão onde os voluntários acumulam carimbos em eventos e trocam por merchandising da campanha. Algo completamente trivial.
Existe agora uma proposta para escalar este objeto sem mudar a sua forma: em vez de merchandising, o cartão passa a ser aceite por uma rede de parceiros como cooperativas, sindicatos, bibliotecas, centros comunitários ou centros de saúde como moeda de troca por serviços concretos ligados à participação cívica:
- Horas de childcare durante reuniões
- Bilhetes de transporte para eventos de organização
- Cestas de produtos alimentares
- Lugares em formações sindicais
- Tempo de sala em espaços comunitários
- Apoio jurídico e acompanhamento a imigrantes
A proposta inclui ainda a possibilidade de transformar o sistema de carimbos numa espécie de moeda paralela suportada pelas instituições locais para contornar repressões fiscais federais e garantir a entrega de algumas das promessas do programa de Zohran.
Parece catastrófico e utópico? Eu também acho. Mantenho o meu ceticismo da viabilidade económica no que toca à utilização de moeda descentralizada, mas serve o exemplo para construir a imagem de ecossistemas organizativos que operam dentro de organizações políticas e da mesma forma que as ferramentas digitais são essenciais para a construção do sistema, a sua alternativa usará naturalmente as ferramentas da atualidade. São tanto o vigilante opressor quanto as paredes da barricada.
Operação:
Colocar uma organização como o Bloco de Esquerda na vanguarda da utilização de todos os espaços que captam a atenção da sociedade e estender a influência do partido à economia digital é saber construir o seu próprio espaço digital de militância.
O nosso telemóvel tem de nos dar tarefas, tem de nos cativar para a militância, tem de nos juntar com pessoas que querem que algo no sistema mude, e o partido precisa de construir esses ambientes. Têm de existir espaços onde um cidadão pode entrar e engajar-se, porque ele já está no espaço digital durante grande parte do seu dia, só que esse espaço não tem sede do partido. Por isso, a proposta para a organização política digital é essa: sedes digitais do partido, do movimento, da plataforma eleitoral. Tal como fazemos no espaço físico onde tentamos ligar as estruturas do partido à sociedade.
E é essencial contar com poder de desenvolvimento de infraestrutura digital, claro.
Se a sociedade tem um novo mundo, esse mundo digital que nos fatiou a atenção, a esquerda organiza-se nesse novo mundo para disputar o poder dos mundos todos.