Moderna: dinheiro público para criar bilionários

image_pdfimage_print

Artigo de Luís Leiria.


 

Em tempos de pandemia mundial é aceitável que executivos e investidores de farmacêuticas ligadas à produção de vacinas entrem de rompante na lista dos bilionários? Que multipliquem a sua riqueza enquanto a maioria da população está ainda muito longe de ter acesso a um imunizante? É imoral e obsceno. Mas é o que acontece com algumas farmacêuticas e empresas de biotecnologia ligadas às vacinas, e em particular com uma específica: a norte-americana Moderna, uma empresa de biotecnologia que existe apenas há dez anos.

 

Cinco dos nove novos bilionários

Já sabíamos que os 20 mais ricos do planeta tinham aumentado o seu património em 1,7 biliões de dólares em 2020, soube-se agora da lista dos novos nove bilionários no mundo, incluindo, gente ligada à produção de vacinas. A lista foi divulgada pela Aliança por uma Vacina Popular (ver em https://www.globaljustice.org.uk/), uma coligação de organizações não governamentais britânicas. Esta aliança luta pela fabricação rápida das vacinas contra a Covid-19, em grande escala, como bens públicos globais, disponíveis para toda a população mundial.

Na lista dos novos bilionários das vacinas estão o CEO e o presidente da Moderna, dois investidores dessa mesma farmacêutica e ainda o presidente da empresa que tem acordo para fabricar vacinas da Moderna. Quer dizer: cinco dos nove bilionários são da Moderna ou estão a ela ligados. Os outros quatro são o presidente da alemã BioNtech, que produz uma vacina junto com a Pfizer, e três cofundadores da farmacêutica chinesa CanSino Biologics.

Esta lista concentra assim as atenções numa farmacêutica que tem pouco mais de dez anos de idade e cujo único produto no mercado é justamente a vacina contra o vírus Sars-CoV-2: a Moderna.

 

Um ovo de Colombo difícil de pôr em prática

O nome “Moderna” representa os objetivos da empresa: desenvolver terapias e vacinas baseadas na manipulação do RNA mensageiro, uma tecnologia nascida na Universidade da Pensilvânia, EUA, criada pela investigadora húngara Katalin Karikó e pelo imunologista norte-americano Drew Weissman. As moléculas do RNA mensageiro funcionam como livros de receitas que orientam as células a produzir proteínas específicas. A nova tecnologia consiste em adquirir o controlo desse livro para fazer com que sejam criadas as proteínas necessárias. No caso da Covid-19, o RNA mensageiro modificado orienta as células a criar a proteína spike, que está presente no vírus SARS-CoV-2. Esta proteína será identificada como um vírus e logo atacada pelas células do sistema imunológico. A partir daí, se o vírus verdadeiro aparecer, as células imunológicas já saberão como atuar.

A ideia, que a cientista húngara começara a desenvolver em 1978, parece ser um ovo de Colombo, mas pô-la em prática é outra história: o RNA mensageiro fabricado pode ser destruído antes de chegar ao destino; e pode também detonar reações imunológicas perigosas. Por isso, a investigação dos dois cientistas demorou décadas e Karikó estava à beira de desistir quando finalmente começou a ter sucesso. Uma série de “artigos que os dois cientistas publicaram em 2005 despertou pouco interesse, mas houve pelo menos três pessoas que lhes deram atenção. Foram os fundadores da norte-americana Moderna e das alemãs BioNtech e CureVac.

 

Financiamento público para ganhos privados

Desde a sua criação, em 2010, a Moderna caracterizou-se pelo secretismo. Os seus cientistas não publicam as investigações em revistas científicas, e até os candidatos a emprego têm de assinar um acordo de sigilo. A sua grande oportunidade da Moderna surgiu quando Trump reuniu, em março de 2020, executivos de indústrias farmacêuticas para lhes apresentar um programa de apoio à produção de vacinas. Trump estava unicamente interessado em saber quanto tempo demoraria a vacina a estar pronta. Depois de ouvir falar em prazos de um ano, de meses, chegou a vez de Stéphane Bancel, CEO da Moderna. Bom vendedor, Bancel achou que tinha de falar em dias. E anunciou que 42 dias depois de feita a sequenciação do vírus, a vacina da sua empresa estava pronta e tinha já sido entregue ao seu parceiro do governo, o National Institute of Health. Isso soava como música aos ouvidos de Trump.

A partir desse dia, a Moderna contou com o apoio de vários programas federais e a compra antecipada de 100 milhões de vacinas. No total, a Moderna terá recebido do governo dos EUA 5.750 milhões de dólares para produzir a vacina. E esse cálculo não inclui nem a investigação anterior, que levou à tecnologia do mRNA, nem a contribuição do NIH. A vacina da Pfizer/BioNtech, que usa a mesma tecnologia, recebeu menos de metade: 2.500 milhões de fundos públicos dos EUA, Europa e Alemanha. A Pfizer não quis aceitar aqueles apoios públicos.

 

Mais vale prevenir…

A divulgação dos apoios à Moderna fez disparar o valor das suas ações. No final de fevereiro, cada ação era negociada a 18 dólares, mas no dia em que escrevo este artigo o seu valor é 164,27. Mas e se tivesse ocorrido um fracasso? Depois de uma valorização especial, turbinada pelas expectativas, viria uma inevitável queda. Foi isso que pensaram os seus executivos, que acautelaram o perigo vendendo intensamente as suas ações durante o 1º semestre der 2020. Isto é: enriquecendo enquanto podiam. A manobra foi considerada altamente problemática por especialistas em Bolsa de Valores.

Segundo uma reportagem da Reuters de 2 de julho de 2020, nos cinco primeiros meses do ano, o CEO Stéphane Bancel encaixou 21 milhões de dólares, e Tal Zaks, o responsável pela área médica, encaixou 36 milhões. Bancel justificou-se afirmando que negociara uma pequena parte do que possuía. Mas, notou a Reuters, nada de semelhante acontecera com as outras empresas de biotecnologia.

 

Vacinas caras, para os países ricos

Depois de tanto financiamento público, deveria esperar-se que o preço das vacinas fosse baixo, já que a empresa contara praticamente com o financiamento total para o desenvolvimento. Engano. As vacinas da Moderna são as mais caras. É o que dizem dados obtidos por descuido ou fuga de informação, já que os contratos assinados escondem os valores envolvidos (ver quadro).

Com a vacina mais cara, a Moderna praticamente só assinou contratos de venda com os países ricos, sendo a exceção pequenos contratos com as Filipinas, a Colômbia e a Indonésia. A Moderna ignorou a iniciativa COVAX, da OMS, que procura garantir um acesso equitativo e justo de todos os países às vacinas. Venda equitativa é algo que não entra no vocabulário da Moderna. A farmacêutica parece, sim, mais empenhada em preservar uma margem de lucro que deve andar à volta dos 25 a 30%..

E, no entanto, esta não é uma mera vacina da Moderna, é a vacina do NIH, é a “Vacina do povo”, afirma a ONG Public Citizen, que recorda: todo o desenvolvimento da vacina foi pago com dinheiro público, o NIH, órgão do governo federal, coparticipou no desenvolvimento, e o próprio governo tem o controlo de patentes chave da tecnologia da vacina. “Todos cumprimos um papel. Devia pertencer à Humanidade”.