Na peça de Brecht, Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, há um refrão, “falta alguma coisa”. A repetição torna a ideia opressiva e exige um sentido emancipatório, como o autor pretendia. Nestas notas, retomamos o mote, para nele procurar esse sentido, e discutimos o que falta no conceito e na prática dos movimentos sociais.
1. A ilusão do movimento. O discurso político corrente, à esquerda, alimenta uma ilusão, ao usar uma designação genérica que sugere uma galáxia de movimentos como um sujeito político polifacetado. O conceito de interseccionalidade, que aqui não discutiremos em profundidade, é uma das expressões dessa interpretação e procura criar-lhe uma autorreferenciação, mas muitas vezes resulta numa expressão artificial dessa vontade, expressa na construção de manifestos e listas de reivindicações que procuram elencar todas as lutas, sem que isso represente um efetivo esforço de articulação ou participação dessa diversidade. Não existe um movimento de movimentos. Por duas razões: os movimentos são diferentes entre si e os momentos de convergência não ocorrem sistematicamente por iniciativa de qualquer deles (em Portugal, a mais expressiva convergência é a manifestação/festa do 25 de Abril). A esquerda cria uma projeção de desejo de descrever a realidade atual destes movimentos como uma articulação potencial ou existencial. São sujeitos políticos, mas não são um sujeito político.
2. A diferença entre movimento e movimentação. A realidade nacional – e outros países têm experiências diferentes, a que se alude nesta edição – é de algumas movimentações poderosas, por exemplo no feminismo por circunstâncias (a sentença do juiz Neto de Moura) ou por tradição (8 de Março), mas com movimentos orgânicos reduzidos. A diferença entre movimento e movimentação é dos maiores problemas políticos que a política da esquerda não tem conseguido resolver. Há bases sociais, revolta e vontade de luta que se sentem nessas manifestações massiva, mas que se esgotam entre esses momentos. Assim, as manifestações do Orgulho LGBTQIAP+ são maiores do que as manifestações sindicais, mas não há, ainda, fortes movimentos orgânicos LGBTQIAP+, embora se tenham vindo a dar passos nesse sentido, nomeadamente nos últimos anos, com uma crescente articulação nacional que transcende a organização das marchas, respondendo a momentos políticos específicos, e o surgimento de associações com lógica de trabalho mais contínuo e menos eventual. A própria designação do movimento continua a estar limitada a referências identitárias, estando por encontrar uma alternativa que englobe unitariamente todas as identidades e reivindicações emancipatórias, sem cair no risco de as limitar e segmentar a expressões individuais. Uma ausência de movimento orgânico que, apesar de todos os esforços, fica também por concretizar na luta pelo direito à habitação, com manifestações significativas e o envolvimento de algumas dezenas de ativistas, ou na continuidade de movimentos pela vida independente, entre outros. O mesmo se pode dizer dos momentos históricos das maiores movimentações: Que se Lixe a Troika ou Geração à Rasca foram manifestações gigantescas que nem foram promovidas nem deram origem a uma infraestrutura orgânica, um movimento. Há vozes, mas não há lugares.
3. Dois tipos de movimentos. Há os movimentos-Causa e há os movimentos-Casa. Os movimentos-causa são os que dão origem a movimentações episódicas e que, de expressão militante reduzida, atuam como uma representação simbólica e potencial: convocam. A sua persistência garante a sobrevivência e, em alguns casos, os momentos de luta de massas, mas não organizam socialmente em escala. A esquerda nunca soube ou conseguiu transformá-los em centros de iniciativa, em espaços unitários ou em tradições culturais próprias, com raras exceções. Em contrapartida, os movimentos-casa são expressões de tensões identitárias e procuram responder-lhes criando comunidades, que podem ser de serviço, apoio e inclusão de imigrantes, vítimas de racismo institucional e de sobre-exploração (Solidariedade Imigrante), ou de redes de jovens dos bairros periféricos, também vítimas do racismo e da exclusão (Vida Justa). Este tipo de movimentos-casa empenha-se na criação de estrutura social, de mecanismos de proteção (contra despejos e violência institucional) e, mesmo que com flutuações de presença de rua e de atividades, mantém uma continuidade que depende de um sentido de pertença e de um orgulho de participação. Distintas de movimentos, algumas organizações prestam serviços e atuam no espaço público criando informação e debate, como as que protegem as vítimas de violência doméstica. Todos os movimentos transformadores e anticapitalistas deveriam ser movimentos-casa. Assim deveria ser o movimento sindical, de modo que a classe trabalhadora pudesse ser uma referência social para todos os combates emancipatórios. A política de classe é a natureza do anticapitalismo. Os movimentos, por isso, além de voz, devem ser também lugar.
4. Sectarismo nos movimentos. A desconexão entre movimentação e movimento alimenta uma forma especial de sectarismo: o sentido proprietário. As convocações de movimentações dependem de laços frágeis entre grupos orgânicos e de um reconhecimento tácito de datas comuns, mas não de espaços. A experiência de assembleias e estruturas preparatórias de iniciativas tem sido frequentemente poluída por reivindicações proprietárias e por exclusivos sectários. O potencial transformador dos movimentos sociais reside, precisamente, na sua diversidade interna, que, além de garantir mobilização mais abrangente, gera dinâmicas propositivas mais fortes, porque co-criadas por uma multiplicidade de atores. O crescente sectarismo esvazia essa dimensão produtiva dos movimentos sociais, com prejuízos transversais para todos os espaços de organização social. Afirmamos que a escolha de militar num partido – ou qualquer outro modo de pertença cidadã – não pode ser fundamento para exclusão de ações públicas, tal como não lhes atribui qualquer direito especial.
5. Organização e movimento. A esquerda partidária tem atuado de duas formas nos movimentos. Tem criado organizações-biombo para coordenar os seus militantes numa causa e para produzir discurso e ação, e tem, em raros casos, ajudado a criar espaços unitários. Ambas as formas são escolhas legítimas e não são distintas das de correntes não-partidárias que agem da mesma forma. Mas são insuficientes: há pouca organização política de ativistas e faltam espaços unitários em que todo um movimento-causa se possa reconhecer. A fragilidade da organização, não só gera tendências de desmobilização a médio-longo prazo, como impede a constituição de estruturas prefigurativas que permitam criar horizontes de esperança. É o que falta.
6. Território(s) e tempo(s). As movimentações, muitas vezes determinadas precisamente pelos problemas identificados nos últimos pontos, impõem uma agenda de contestação nacional limitada, logo à partida, a configurar um conjunto de mobilizações descoordenadas, em vez de abrir caminho à construção de movimentos. A prática de reprodução de manifestações numa lógica de proliferação de pontos no mapa nacional, normalmente em datas e com manifestos provenientes de organizações mais robustas de ativistas em Lisboa, tem impedido a criação de redes, a renovação de ativistas, o debate crítico sobre a adequação de determinadas reivindicações a cada local e, sobretudo, a permanência de vontade e gente para transformar a movimentação em movimento. Falta ainda à esquerda encontrar o equilíbrio entre um maior centralismo, aproveitando o dinamismo possível por uma maior concentração de recursos e ativistas em Lisboa para rebocar movimentações noutros territórios, e a construção estruturada de movimento com efetiva expressão territorial.
7. As redes sociais não são movimentos. As redes sociais são o modo de comunicação dominante para a maioria do povo, e de forma ainda mais acentuada para ativistas de movimentos sociais. São a voz da convocação e o circuito de criação de consciência e de discurso. São também uma armadilha que acentua a efemeridade das movimentações e dispensa a sua organização, que promove o individualismo e o narcisismo e que destroça o sentido coletivo, e que cria a ilusão da organização pela intensidade dos fluxos de mensagens. A substituição de reuniões e de atividades comuns por mensagens polariza e superficializa as discussões, impede a aprendizagem, simplifica as opiniões e emocionaliza os conflitos, pelo que aniquila a potencialidade da luta social. Um movimento que se baseie em redes sociais está condenado – nunca será um movimento-casa.