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Entrevista a Nancy Fraser, por Rebeca Martínez .


Nancy Fraser mostra-se muito contundente contra o feminismo liberal de mulheres como Hillary Clinton que só procuram escalar posições dentro das empresas. Face a este feminismo das privilegiadas, Fraser sinaliza a urgência de criar um feminismo que esteja do lado da maioria das mulheres – as trabalhadoras, as migrantes, as lésbicas e trans – e dos seus problemas, que têm mais que ver com o racismo institucional que suportam e com a exploração que vivem nos seus trabalhos e em suas casas, onde são responsáveis pela maior parte dos cuidados. É precisamente disto que fala o manifesto Feminismo para os 99%, que assina juntamente com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya.

Professora de Filosofia na New School de Nova Iorque, Nancy Fraser esteve em Madrid recentemente, numa visita coordenada pelo Grupo de Estudios Críticos, e falou com a Viento Sur sobre este feminismo para a maioria e sobre o ataque que o neoliberalismo está a perpetrar contra aspetos vitais tão importantes como criar crianças, cuidar dos e das seniores, saúde, educação ou habitação.

Rebeca Martínez: Sobre o manifesto Feminismo para os 99% que escreveste com outras mulheres: o que é e porque se lança agora?

Nancy Fraser: É um ensaio curto que pretendíamos que fosse popular e se lesse facilmente. Não é um texto académico, tem a forma de um manifesto. Escrevi-o com outras duas pensadoras: uma é a italiana Cinzia Arruzza, que agora vive em Nova Iorque, e a outra, Tithi Bhattacharya, é indiana e ensina nos Estados Unidos.

Foi a primeira vez, desde que comecei o meu ativismo nos anos sessenta ou setenta, que escrevi um ensaio como este, de autêntica agitação política, tendo em conta que sou professora de Filosofia. Mas os tempos hoje são tão duros, a crise da sociedade e das políticas é tão severa que senti que tinha de dar um salto e escrever para um público mais vasto.

O manifesto é uma tentativa de articular um novo rumo para o movimento feminista, que durante as duas últimas décadas tem estado dominado por um feminismo corporativo e liberal, representado por Hillary Clinton nos Estados Unidos. Este é o feminismo de mulheres gestoras e diretoras, de mulheres relativamente privilegiadas, na sua maioria brancas, com formação e de classe média ou média-alta, que tentam avançar no mundo dos negócios ou nos meios de comunicação. O seu plano é basicamente progredir na hierarquia das empresas, para serem tratadas da mesma forma que os homens da sua classe e terem o mesmo salário e o mesmo estatuto. Não é um feminismo genuinamente igualitário, é um feminismo que não tem muito a oferecer à grande maioria das mulheres, que são pobres ou da classe trabalhadora e que não têm esses privilégios, que são imigrantes, trans… Esse feminismo do 1% ou, quando muito, dos 10%, manchou o nome do feminismo, associando-o ao elitismo, ao individualismo e à vida empresarial. Deu-lhe mau nome e associou-o ao neoliberalismo, à financeirização e à globalização com políticas que atacam a classe trabalhadora. Nós as três queríamos propor uma alternativa a isto, e não estamos sozinhas, porque há outras feministas de esquerda que também estão a tentar fazê-lo. E, com efeito, a alternativa está a emergir com as enormes marchas e manifestações do 8 de Março, que têm um caráter anticapitalista e antissistémico, que protestam contra a austeridade e o assalto à reprodução social.

Achamos que era um bom momento para dar o salto e tentar criar um feminismo que seja realmente antissistema, anticapitalista e que se referencie nas mulheres da classe trabalhadora e pobres para melhorar as suas vidas. O interessante é que é um movimento que deve centrar-se em temáticas tradicionais, como o direito ao aborto e outras, que são, sem dúvida, fundamentais, mas que tem de pensar também mais além, na grande crise da sociedade, para articular políticas e programas que beneficiem toda a gente. Por isso, o feminismo dos 99% não significa apenas os 99% das mulheres, significa os 99% dos seres humanos sobre o planeta. Esta é a ideia geral do Manifesto.

R.M.: Desde 2017 organizaram-se três greves feministas internacionais em muitos países, Espanha incluída. Mas não apenas isso. Aqui, os protestos laborais dos últimos anos são protagonizados sobretudo por mulheres: as trabalhadoras domésticas, as limpadoras de hotéis, as cuidadoras, entre outras. Estamos perante uma nova vaga feminista? Se sim, a que momento do capitalismo neoliberal responde?

N.F.: Sim, creio que estamos perante uma nova vaga ou que, pelo menos, há potencial para que assim seja, se rompermos realmente com este feminismo liberal corporativo.

O neoliberalismo organizou um ataque feroz ao que designamos por reprodução social, contra todas as atividades destinadas a apoiar e a reproduzir pessoas: o nascimento e a educação de crianças, a assistência a pessoas idosas, a educação pública, a saúde, os transportes, as pensões ou a habitação. Tudo isto faz parte da reprodução social, e não apenas o cuidado das crianças, pessoas idosas ou outras atividades realizadas dentro do lar.

O neoliberalismo esmagou tudo isto. Atualmente, as mulheres têm de trabalhar a tempo inteiro, pois o Estado precisa de cortar nas despesas sociais como parte da sua política de austeridade e de financeirização. Assim, por um lado, temos o corte do financiamento público nestas áreas e, por outro, a insistência em que as mulheres dediquem o seu tempo a produzir mais-valia para o capital. Isto significa que há uma autêntica crise dos cuidados ou uma crise da reprodução social, que é precisamente o que está a dar lugar às greves que mencionavas.

Na crise dos anos trinta, o centro das revoltas ativistas era o trabalho industrial: pelo direito à sindicalização, por direitos laborais, etc. Hoje a situação é outra, em parte, devido à desindustrialização e relocalização da produção no sul global; agora o centro é a reprodução social.

Mencionaste greves de mulheres muito significativas, às que eu juntaria a greve das professoras nos Estados Unidos. As professoras têm salários tão baixos que muitas delas têm de ter segundos empregos para se poderem sustentar a si e às suas famílias. Estas mulheres fazem greve não só para conseguirem melhores salários, mas reclamam também mais recursos para a educação, para melhorar as escolas, e estão a ter muito apoio. São exemplos que colocam a esfera da reprodução social como um eixo amplo de luta. Hoje as lutas pela reprodução social estão na vanguarda da esquerda anticapitalista e antissistema. As mulheres estão na linha da frente e isso precisa de fazer parte de uma nova forma de pensar o que é a política feminista.

R.M.: Sobre as lutas pela reprodução social, como se relacionam com a luta de classe, o movimento antirracista e LGBT+?

N.F.: Antes de tudo, creio que temos de repensar o que entendemos por luta de classes. Essa imagem dos anos trinta dos operários industriais organizados em sindicatos é uma parte do que é a luta de classes, mas diria que as lutas pela reprodução social também são luta de classes, porque não há produção nem trabalho industrial se não houver quem produza e reabasteça os trabalhadores e cuide da geração que os substituirá. Por isso, a reprodução social é central para a produção capitalista e o trabalho que produz essas pessoas e que as sociabiliza supõe muito trabalho, tanto como o trabalho nas fábricas.

O que constitui uma classe não é só a relação da produção na fábrica, também é a relação da reprodução social que produz as trabalhadoras e os trabalhadores. Tudo isto é parte da luta de classes. A ideia de luta de classes do passado era bastante estreita. Não creio que o feminismo dos 99% seja uma alternativa à luta de classes. É outra frente na luta de classes, por isso deve aliar-se ao movimento trabalhista, bem como às outras lutas que mencionaste, a luta antirracista, a luta pelos direitos das pessoas migrantes e aluta pelos direitos das pessoas LGBT+.

A conexão com a raça e a etnicidade é muito forte, porque o que acontece agora é que temos uma nova divisão de classe racializada entre as mulheres. As mulheres empresárias, de classe média-alta e com formação, lutam para superar a discriminação e ascender a postos de trabalho superiores. O que fazem para poder trabalhar sessenta horas por semana em trabalhos que exigem muito é contratar mulheres, muitas vezes imigrantes e muito mal pagas, para que realizem o trabalho de cuidados: cuidado das crianças e dos idosos, limpeza da casa, refeições. Estas mulheres do chamado feminismo liberal apoiam-se em todo este trabalho das mulheres racializadas, que são as mulheres mais vulneráveis, porque não têm direitos laborais, são muito mal pagas e estão expostas a agressões e abusos. Por tudo isto, precisamos de colocar no centro do feminismo a dimensão da classe e da raça. O feminismo para os 99% tem de ser um movimento antirracista, tem de fazer suas as problemáticas das mulheres pobres e racializadas, que são a maioria das mulheres, e dar prioridade às suas necessidades e não às necessidades das empresárias que desejam romper os tetos de vidro. E isto também é assim para a luta LGBT+. Aqui ocorre também algo de interessante, porque neste movimento também há uma ala liberal que é hegemónica e um setor mais amplo de gente cujas necessidades e problemas são marginalizados. Há uma luta similar no seio do movimento LGBT+ e gostaria que o nosso feminismo para os 99% falasse também pelas mulheres trans, queer e lésbicas, que o movimento LGBT+ fosse um aliado natural do feminismo para os 99%.

R.M.: Falamos das lutas pela reprodução social e de como podem constituir uma barreira contra as políticas neoliberais, mas e as relações patriarcais? Podemos combater as violências machistas a partir da luta pela reprodução?

N.F.: É uma boa pergunta. Gostaria de começar por me referir ao movimento #MeToo. Como sabes, a ideia mais difundida sobre o que é esse movimento centra-se em Hollywood, em atrizes muito bem pagas e artistas com visibilidade nos meios de comunicação. Mas o setor composto por mulheres muito menos privilegiadas é mais vulnerável às agressões sexuais e ao assédio no trabalho. Pensemos, por exemplo, nas trabalhadoras ao dia. Muitas delas não têm sequer documentos e, ao terem menos poder e recursos, são muito mais vulneráveis às exigências dos chefes. O mesmo ocorre com as trabalhadoras dos hotéis, por exemplo. Recordemos o caso de Dominique Strauss-Khan ou as mulheres que trabalham a limpar casas privadas, as trabalhadoras domésticas, que são frequentemente vítimas de agressões sexuais.

O movimento #MeToo, se o pensarmos de uma forma mais ampla, é uma luta trabalhista. É a luta por um local de trabalho seguro, onde não possas ser vítima de abusos. O facto de os meios de comunicação social se centrarem apenas nos casos de pessoas conhecidas, infelizmente, faz com que não pareça uma luta de classes, mas, na realidade, é outra forma de luta de classes.

A questão da reprodução social tem muito a fazer para mudar a relação entre a produção e a reprodução e, portanto, mudar o equilíbrio de poder dentro das casas. O trabalho da reprodução social não deve ser classificado como trabalho feminino. É um trabalho importante para toda a sociedade, alguns aspetos dele são até agradáveis e criativos. Os homens devem ter acesso a ele, sentir a responsabilidade de fazer a parte que lhes corresponde. Isto mudaria a dinâmica dentro das casas. E, é evidente, o feminismo para os 99% é contra toda a violência: contra as mulheres, as pessoas trans, as pessoas não cis, as pessoas racializadas e assim por diante.

O patriarcado é um conceito que, pessoalmente, não gosto de usar, porque sugere uma imagem do poder diádica: existe o amo/senhor e os seus servos submissos. Parte disto ainda existe, sem dúvida, mas as formas centrais do poder na nossa sociedade operam de uma forma mais impessoal e estrutural, restringindo as opções das pessoas pobres e trabalhadoras. Creio ser importante ter do poder uma imagem diferente. Ele existe a partir dos bancos e do FMI, das organizações de finanças e da indústria, através da construção do mercado de trabalho, um mercado de trabalho genderizado e racializado. É isso que determina quem tem acesso aos recursos, quem pode reivindicar os seus direitos, quem pode viver como igual, inclusivamente nas famílias e nas relações pessoais.

R.M.: Quando, nos teus trabalhos, falas de justiça social distingues três níveis: o económico (redistribuição), o cultural (reconhecimento) e o político (representação). Até que ponto os três estão presentes no novo ciclo de greves feministas?

N.F.: Creio que há uma preocupação com todos estes aspetos e que eles estão estreitamente relacionados. Não se pode mudar a esfera económica e as relações distributivas se não se mudarem essas coisas também. O que conta como questão política é muitas vezes definido em termos do que conta como questão económica. As forças do capital insistem em que as questões relativas aos postos de trabalho devem ser decididas pelos mercados, pelos chefes, como se não fossem questões políticas e de democracia.

Há todo um debate sobre onde está a linha que separa aquilo que decide o mercado e as forças privadas do capitalismo e aquilo que decide a maioria democrática. E tudo isto tem muito que ver com a cultura, com as linguagens que estão à nossa disposição e nos ajudam a entender a situação.

Temos conceitos, como o de assédio sexual e violação, e terminologia para dizer o que está mal na sociedade. Isto tem que ver com a forma como traduzimos a própria experiência para expressar uma reivindicação. O feminismo enfrentou um grande desafio e criou uma linguagem nova que muda a cultura, que muda a conceção que as pessoas têm dos seus direitos, sobre o que não têm de aguentar, o que está mal, aquilo pelo qual se pode protestar. Isto amplia a esfera do discurso político, a esfera do que são decisões democráticas e não privadas da família ou empresa. Estamos a avançar muito no âmbito cultural e isso repercute-se numa mudança institucional nas duas esferas: a política e a económica. No entanto, trata-se sempre da inter-relação entre estes três níveis.

R.M.: Referiste muitas vezes que o neoliberalismo se apropriou do potencial crítico e das reivindicações da segunda vaga do feminismo e as incorporou para seu próprio benefício. Poderia ocorrer outra vez com esta nova vaga? Pode de alguma maneira evitar-se?

N.F.: O feminismo liberal, juntamente com o antirracismo liberal, o movimento LGBT+ liberal e o que chamamos capitalismo verde foram incorporados no bloco hegemónico de poder que nos EUA constituiu aquilo que eu designo por “neoliberalismo progressista”. Estes movimentos emprestaram o seu carisma e a sua ideologia para criar a ilusão de que esta política horrível da financeirização, precarização do trabalho, redução dos salários, etc. podia ser progressista, pró-gay, pró-mulheres, etc. Isto passou-se e por isso é tão importante que a nova vaga feminista rompa com esse tipo de feminismo e trilhe um novo caminho. É sempre possível ser hegemonizado e apropriado por forças que são mais poderosas, existe sempre essa possibilidade, e é importante que os movimentos emancipatórios estejam alerta. Hoje dizem-nos que temos duas opções à escolha: o populismo autoritário de direita, que é racista, xenófobo e bastante desagradável, ou voltar à proteção liberal, ao neoliberalismo progressista, que poderia ser antirracista e tudo o mais. Mas esta é uma falsa escolha. Temos de recusar as duas opções, não só o populismo racista e suprematista, mas também o neoliberalismo progressista. Vivemos um momento de crise monumental, no qual temos a oportunidade de tomar um novo caminho para criar um movimento antissistema para os 99%, no qual o feminismo para os 99% esteja conectado com os outros movimentos para os 99%: trabalhista, climático, imigrante, etc.

R.M.: Para terminar, uma pergunta mais teórica. Nas tuas obras referes que o Estado-nação (que designas por estrutura wesfaliana-keynesiana) entrou em crise com o neoliberalismo e que as suas fronteiras são agora mais difusas, menos claras. Chamas a este processo política de redefinição (deframing). Qual é o papel do Estado-nação atualmente? Podemos dizer que desapareceu por completo?

N.F.: Não, não desapareceu. Historicamente, a força principal que forneceu proteção e segurança à classe trabalhadora face ao capital foi o Estado-nação e este continua a ser o principal destinatário das reivindicações das pessoas. Quando queremos proteção ou apoio social, a quem nos dirigimos? Pedimos aos nossos governos que se responsabilizem. Percebemos a política como estando organizada tendo por base a nação, por isso as campanhas eleitorais são nacionais, as principais atividades políticas realizam-se à escala nacional. Mas, em última instância, isto é inadequado. E podemos verificá-lo quando analisamos a imigração, que é um enorme ponto de conflito e crise. Há pessoas de todo o mundo que não tem um Estado que as proteja, que possa dar-lhes algo como o que nós pedimos ao nosso nos países desenvolvidos. Vivem em campos de refugiados, são forçadas a fugir pelo facto de terem invadido o seu país e o terem destruído, devido à violência política e às perseguições religiosas, às crises climáticas, às características desta crise global que vivemos.

Estas pessoas fugiram e o movimento populista de direita dobra o nacionalismo e a exclusão. Qual é o slogan de Trump? Make America great again, como o era antes desta gente toda aparecer e arruinar o nosso país. Esta é a ideologia deste populismo, e suponho que se passará o mesmo com alguns partidos aqui. Precisamos de pensar uma forma mais transnacional e global de assegurar direitos sociais a todas as pessoas do mundo, para que ninguém tenha que meter-se numa balsa e arriscar a vida em busca de uma oportunidade noutra parte do planeta.

Rebeca Martínez é investigadora em comunicação.

Junho de 2019

Originalmente publicado por Viento Sur.

https://vientosur.info/spip.php?article14983

Tradução da Rede Anticapitalista