NÃO EM NOSSO NOME! A apropriação do feminismo pela extrema-direita

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A 14 de maio de 2022, ocorreu a Conferência Internacional Feminismo e o combate à extrema-direita, organizada pelo Abril é Agora. Sara Farris foi oradora no painel de abertura, abordando o seu estudo sobre o femonacionalismo. Sara é socióloga e professora na Goldsmiths, University of London, com trabalho de investigação e obras publicadas nos campos da Teoria Social e dos Estudos de Género. Do seu campo de estudos fazem parte os temas das Migrações e da Reprodução Social ou dos Cuidados, por exemplo.

Sara Farris convidou-nos a conhecer e refletir sobre os resultados dos seus estudos e investigação, de modo a percebermos de que modo determinados atores sociais se apropriam de temáticas feministas e as combinam com narrativas xenófobas, conforme dá conta no seu livro In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism (2017). Identificar essa prática (a apropriação de temáticas dos movimentos sociais pelo próprio sistema) é de suma importância no espectro da sociedade que vivemos e de uma lógica de combate à extrema-direita e de luta anticapitalista.

A pesquisa de Farris começou há dez anos, quando identificou que a extrema-direita estava a apropriar-se de discursos sobre os direitos das mulheres como argumento político seu. Começou, então, a questionar-se sobre o que estaria acontecendo. Como exemplo deste fenómeno, apresentou quatro situações, das quais destaco a de Éric Zemmour, candidato às eleições presidenciais na França. Zemmour é conhecido por um passado de declarações misóginas, como as de que as mulheres são inferiores aos homens e que devem ficar em casa. Farris chamou a atenção para uma iniciativa de campanha de Zemmour, em outubro de 2021, em Drancy, onde este interpelou uma mulher que usava hijab, perguntando-lhe se o fazia porque o marido a tal a havia obrigado. Apesar de ela responder que o hijab é parte da sua identidade e corresponde a uma escolha religiosa, Zemmour desamarrou a sua gravata e desafiou-a a fazer o mesmo com o hijab, dizendo que se é só um pedaço de tecido, então, ela também o poderia tirar, o que ela acabaria por fazer, respondendo: «Eu respeito-me. O lenço não faz a religião. Você tem a mesma pessoa na sua frente». Farris argumenta que esta situação é de extrema violência. Zemmour recorre ao mesmo discurso com que acusa a mulher de usar o hijab para a convencer a tirá-lo. É de uma performance maniqueísta e violenta absurdamente contraditória que se trata.

A partir da análise desses episódios de mobilização de temáticas feministas, Farris cunhou o termo femonacionalismo, o qual condensa a formação ideológica inerente a um «nacionalismo feminista e femocrático». Este baseia-se na mobilização de temáticas feministas por parte de partidos nacionalistas e de extrema-direita dentro das suas campanhas anti-imigração e islamofóbicas. No seu livro, o enfoque são as campanhas e os discursos de três partidos, em três contextos nacionais diferentes: o Partido Pela Liberdade (Holanda), a Frente Nacional (França) e a Liga Norte (Itália). E estende a análise às posições assumidas por algumas feministas, as quais chama de “femocratas”, organizações pela Igualdade de Género e também por representantes de correntes políticas neoliberais. Esses atores distintos exemplificam uma heterogénea e contraditória convergência na invocação da igualdade de género como meio de produção e legitimação de um discurso e práticas xenófobas, particularmente antimuçulmanas. Com esta estratégia, estes têm avançado com os seus próprios objetivos e interesses políticos, os quais são contraditórios a uma agenda de emancipação e de cunho universalista.

Portanto, a estratégia femonacionalista baseia-se sobretudo na assumção de que os homens e as mulheres muçulmanas são os principais representantes do paradoxo opressor-vítima, que depois é projetado e generalizado aos migrantes do Sul global. Este mesmo paradoxo tem alimentado representações e estereótipos implantados durante o passado colonial dos três países em análise e que são também uma parte dos repertórios racistas mais comuns. Com rigor académico, ressalva que a sua crítica ao retrato europeu das mulheres muçulmanas, enquanto vítimas paradigmáticas do patriarcado não-ocidental, não nega, em momento algum, a desigualdade e a repressão a que estas mulheres são sujeitas. O seu estudo explora importantes dimensões político-económicas que na Europa Ocidental são bases destas paradoxais interseções.